Entre o governo e partidos: a guerra

Carlos Chagas

É a guerra, que a conferência de paz de terça-feira, no Senado, não resolveu. A presidente Dilma recebeu todas as homenagens, mas depois de abater dois líderes de seu governo, e os respectivos padrinhos, deixou o Congresso disposta a não aceitar mais pressões dos partidos de sua base parlamentar. Mais ainda, decidida a mudar a correlação de forças entre Executivo e Legislativo, porque, se tem maioria, como ficar enfrentando problemas a cada votação?

Fica evidente que a chefe do governo optou pelo confronto, no caso, contra o PMDB e até o PT, sem falar nos penduricalhos. Aguarda-se a primeira batalha, com ela de um lado e, de outro, Michel Temer, José Sarney, Renan Calheiros, Henrique Eduardo Alves compondo o estado-maior adversário. Mas sem esquecer Carlos Lupi e parte da bancada do PDT, mais Alfredo Nascimento e o Partido da República. E outros.

Esses batalhões mantém a estratégia de criar dificuldades para a votação de projetos de interesse do palácio do Planalto caso não se vejam atendidos em suas exigências de ocupar ministérios, nomear dirigentes de empresas estatais e ter liberadas verbas para suas emendas ao orçamento.

O Lula poderia servir de árbitro no conflito, mas o risco é de que esteja repetindo a performance do papa Pio XII durante a Segunda Guerra Mundial, se ficar encolhido, observando escaramuças e invasões sem pender para uma das partes em luta. Adiantam pouco as declarações de unidade e confiança de uns nos outros, se seus exércitos já se engajaram e continuam arregimentando forças.

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CONTRATOS QUE NÃO PODEM SER HONRADOS

Os dois novos líderes do governo no Congresso, Arlindo Chinaglia e Eduardo Braga, assumiram ontem com promessas de cumprir acordos celebrados faz tempo, aliás, não escritos. Para o biênio 2013-14, PT cederia a presidência da Câmara ao PMDB, sendo verdadeira a recíproca no Senado, onde os companheiros assumiriam a presidência.

Nada mais precário e ilusório do que essa projeção. Porque só por milagre o PT admitirá perder a Câmara e não conquistar o Senado. Para Henrique Eduardo Alves suceder Marco Maia, seria necessário que Jorge Viana, Martha Suplicy ou outro petista ocupasse a cadeira de José Sarney.

O problema é que a relação de forças, no Senado, surge diferente do que na Câmara. Entre os deputados, a bancada do PT é majoritária, com 81 contra 76 do PMDB. Entre os senadores, o PMDB bate o PT por 20 a 14. Mesmo divididos, os senadores do PMDB não se dispõem ao troca-troca. Assim, os deputados do PT não tem porque abrir mão de sua prevalência.

Apesar de inexistir nos regimentos internos das duas casas a obrigação de o maior partido indicar o presidente, esta tem sido a praxe. O diabo são as divisões internas em cada legenda, mais o grande número de partidos menores capazes de desequilibrar contas lineares.

Em suma, os novos líderes começaram com fantasias. Arlindo Chinaglia prometendo que Henrique Eduardo Alves, do PMDB, será o novo presidente da Câmara. E Eduardo Braga jurando que as bancadas do PT e do PMDB atuarão unidas no Senado.

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ESTAR BEM E IR BEM

Por conta da confusão que atinge o relacionamento do governo com os partidos da base, passou despercebida importante intervenção do senador Cristóvan Buarque, do PDT, durante a exposição feita pelo ministro Guido Mantega e, depois, em discurso no plenário.

Disse o ex-governador de Brasília que uma coisa é a economia nacional estar bem, mas outra bem diferente será ir bem. Em outras palavras, no presente as contas podem estar fechando, mas se não estivermos preparando o futuro, o risco será de amplo malogro.

O Brasil perde para inúmeros países do mundo a corrida pelo aumento da produtividade. Na Coréia, um trabalhador que produzia 100, poucos anos atrás, está produzindo 140. Na China, mais ainda, pois a produtividade saltou de 100 para 160. Entre nós, continuamos no 100, perdendo a competitividade.

Para o senador, o governo deveria estar olhando longe e revolucionando a educação, muito mais do que destinar dinheiro ao setor.

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DÁ PARA CONCORRER?

Vale insistir no vazio que vai se abrindo em termos de crescimento econômico do Brasil, pífio no ano que passou, de 2.7%. O tema vem sendo dissecado por economistas, parlamentares e diletantes, todos concordando sobre as dificuldades de concorrência com a China. A verdade é que os chineses colocam, no Brasil, quaisquer de seus produtos industriais pelo preço de um terço daqueles que são produzidos entre nós, desde escavadeiras, locomotivas e até brinquedos e badulaques.

Já se identificou a razão principal desse desnível: os salários recebidos pelos trabalhadores de lá e de cá. Claro, também o aumento da produtividade e, em especial, os investimentos com que o mundo rico inundou aquele país, na busca de lucros maiores.

A saída não parece fácil, mas seria bom prevenir desde já, porque certas elites retrógradas já começam a apregoar que a solução está na compressão salarial, além da redução da carga fiscal exigida das empresas nacionais.

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