Entrevistas demais cansam

Carlos Chagas

“Tudo o que é demais faz mal, até pão” – ensinavam  nossos avós. Seria bom os candidatos presidenciais tomarem cuidado. A cada momento que ligamos o rádio, nas capitais ou no interior, ouvimos entrevistas de Dilma Roussef, José Serra e Marina Silva. Das grandes cadeias radiofônicas  ao alto-falante da praça da igreja, estão lá  os pretendentes ao poder respondendo a  todo tipo de perguntas. Na televisão, a mesma coisa. Não apenas são questionados pelos âncoras e comentaristas ortodoxos, mas prestam-se a comparecer a singulares programas que oscilam entre o cômico e o grotesco. Só falta mesmo serem entrevistados pela Xuxa e concorrentes, nos  horários dedicados aos baixinhos.

Dirão os técnicos em comunicação tratar-se de um sinal dos tempos, da comprovação do domínio da mídia eletrônica sobre a população. Passou o tempo dos comícios e do diálogo direto com o eleitorado. Só que  tudo tem limite. Já se escuta o lamento de ouvintes e telespectadores,  na base do “de novo esses caras”, quando acionam as teclas de seus aparelhos.

Constitui  moeda de prestígio, nas emissoras, levar os candidatos a seus estúdios. Até mesmo uma certa presunção de intimidade dos profissionais  com o poder futuro. Convenhamos, porém, está sendo demais. Deveriam preservar-se, os candidatos, porque começam a repetir-se, ao menos enquanto não divulgam seus programas de governo.

Nomear e demitir

Lição de décadas atrás era ministrada por Tancredo Neves, Amaral Peixoto, Antônio Carlos Magalhães e outros catedráticos: “jamais nomear quem não se pode demitir”. Dá sempre confusão quando o chefe se vê envolto em  divergências com subordinados que se julgam intocáveis.  Aqui mesmo, lembram-se todos do  conflito quase  armado que envolveu o presidente Ernesto  Geisel e seu ministro do Exército, Silvio Frota.

Repete-se a situação nos Estados Unidos. O presidente Barack Obama nomeou sua ex-adversária Hillary Clinton para Secretária de Estado. Agora, divergem. Se foi Obama que sugeriu ao Lula celebrar acordo com os aiatolás, como Hillary sentiu-se  capaz de  desautorizar e  desmontar tudo, sobrando até desconsiderações para com o Brasil?

Teria o presidente dos Estados Unidos condições de admoestar e até demitir a candidata que derrotou na convenção do Partido Democrata? Seria atingido pelo desgaste? Pelo jeito, nomeou quem não pode demitir…

Outra vez, o diploma

Através de uma comissão especial, volta a Câmara dos Deputados a debater a obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo. Pode levar semanas, meses ou mais, para uma conclusão,  tamanhas as divergências de opinião, situando em lados opostos parlamentares, ministros dos tribunais superiores, universidades, empresas e até jornalistas.

Haveria que meditar, no entanto, sobre o argumento levantado pelos adversários do diploma: sustentam que escrever é  dom que nasce com o indivíduo, tornando-se injusto e cruel negar esse direito, na imprensa, a quem não cursou a universidade.

O problema é que o “seu” Manoel, do açougue ali da esquina, é um craque na arte de cortar carne. Tira cada costela, cada filé de dar água na boca. Por conta disso deveria ser autorizado a entrar num hospital e operar  alguém de apendicite?  E o camelô da estação  rodoviária, um mestre na arte da palavra, capaz de  vender tudo o que apregoa em sua banca, estaria autorizado a vestir a beca e defender uma causa, no Supremo Tribunal Federal?

Levou séculos para os curandeiros serem proibidos de exercer a Medicina, por conta  da criação  de universidades e da  exigência do diploma de médico. Outro tanto para  os advogados exercerem  a profissão, agora até sujeitos a exames pela Ordem, depois de passarem pelas faculdades.

Saber escrever é um dom, não estando ninguém proibido de ver seus textos publicados nos jornais. Apenas, sem o diploma, o farão como colaboradores, não como jornalistas, profissão  nem melhor nem pior que a de escritor, mas, apenas, a  exigir outros predicados além do dom de escrever. Conhecimentos  ordenados de edição, revisão, impressão, diagramação, cibernética, além de ensino sólido e profundo  de História, Geografia, Filosofia, Ética, Política e quanta coisa a mais?

Só para encerrar, admite-se que muitos adversários do diploma o fazem de boa fé. Terão o direito de sustentar seus pontos de vista, quem sabe até razão.  O diabo é que atrás deles  situam-se os vigaristas, aqueles que pretendem evitar  a categoria de jornalistas  organizada  desde os bancos universitários, adquirindo condições para impor às  empresas um comportamento baseado na  fidelidade à notícia, que deveria ser honesta e verdadeira. Bem como condições  para pleitear melhores salários.

Vai invadir a Bolívia?

E agora, caso José Serra se torne o próximo presidente da República? Ao acusar o governo da Bolívia de conivente com o tráfico de cocaína, facilitando o envio da droga para o Brasil, o candidato deixou clara a disposição de combater  essa prática criminosa. E seus responsáveis. O presidente Evo Morales estrilou imediatamente, mas fará o quê,  se o anunciado  ministério da Segurança Pública receber ordens para  vigiar  e até a fechar as fronteiras? Aliás, será preciso saber, primeiro, se Morales  receberá  convite e se virá à hipotética posse de José Serra.

Eis aí, antecipada, a primeira crise internacional do suposto governo tucano.  Como  reagirá Hugo Chavez, protetor do presidente boliviano?

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