Enxugando gelo e ensacando fumaça

Carlos Chagas                                                       

Depois de duas semanas de ócio,  prepara-se o Congresso para começar a debater a reforma política.  Reúnem-se terça-feira as comissões especiais da Câmara e do Senado, claro que em separado. Uma não sabe nem se interessa em saber o que fará a outra. Semanas, talvez meses, vão decorrer antes que deputados, de um lado, e senadores, de outro, cheguem a qualquer conclusão, tendo  em  vista divergências partidárias internas profundas, lá e cá.
                                                       
Ainda que por milagre venha a haver maioria  para a aprovação de determinadas propostas no plenário da Câmara, o mesmo acontecendo no Senado, a etapa seguinte se afiguraria intransponível, tendo  em vista que o projeto aprovado numa casa irá  para a outra, e vice-versa.  Estes modificariam a proposta daqueles, e aqueles, a destes.
                                                       
Resultado: preparam-se os deputados  para enxugar gelo e  os senadores para ensacar fumaça, numa prática corporativa típica. E pode esperar sentado quem  imaginar o Executivo intrometendo-se para alcançar um texto comum. No fim, salvo    engano, a grande decisão dos políticos sobre a reforma política será não tomarem decisão alguma. Ou no máximo paliativos, para burlar  a opinião pública.
 
A VERDADE TEM DUAS FACES
 
Longe de ter sido superada, permanece a mesma a resistência das forças armadas à constituição da Comissão da Verdade, no Congresso. Exército, Marinha e Aeronáutica insistem em que será prejudicial ao país o levantamento de fatos acontecidos décadas atrás e sepultados pela Lei da  Anistia. 

Sem a emissão de juízos de valor  a respeito dessa decisão castrense, fica claro que os militares estão se posicionando sem a força das armas. Nem de longe passaria pela cabeça de alguém supô-los dispostos a outras ações que não o protesto. Passou o tempo  em que maus chefes cercavam o Congresso, invadiam suas dependências e impunham   ucasses e idiossincrasias.
                                                       
O problema é que essa Comissão da Verdade se constituirá para revelar e denunciar crimes de tortura e de  assassinato cometidos ao tempo e à sombra  da ditadura, uns  por militares, outros por civis. Atos execráveis, daqueles que não se esquece nem se perdoa,  mas hoje insuscetíveis de punição por força da Lei de Anistia. Era o  Estado  extrapolado pelos então detentores do poder,  desinteressados em  punir agentes e  mandantes responsáveis pelo horror. 
                                                       
O  diabo está em que, do lado dos  que pretendiam derrubar o regime pelas armas, substituindo uma ditadura por outra, excessos também foram cometidos.  Militares, delegados de polícia e empresários viram-se  assassinados pelos terroristas, ditos revolucionários.  Diplomatas foram seqüestrados. Bombas ceifaram vidas de inocentes. A Lei da Anistia também beneficiou esse monte de trogloditas.
                                                       
Há lógica no raciocínio de que se a  verdade deve ser garimpada até as profundezas, precisa  acontecer amplamente.  Nos  dois sentidos. Que o debate é  perigoso, nem  se duvida. Não se reabrem velhas feridas que continuam abertas, a memória nacional é implacável. Mas seria bom,  de  um lado e de outro, meditar sobre suas conseqüências.  A História não está aí para que a neguemos,  senão  para que a integremos. O passado raramente nos diz o  que fazer, mas aponta sempre o que devemos evitar.
 
CONTRA A NATUREZA  DAS COISAS
 
Deve ser preso como doido quem disser que é natural e  justo, que faz parte das leis da economia e do mercado, pertencendo o mundo aos vencedores das  competições  ou aos  bafejados pelo berço. Falamos de recente matéria divulgada pela revista “Forbes”, a respeito dos cem maiores  bilionários do  mundo, entre os quais se incluem doze brasileiros.

Puxa a fila um tal Eike Batista, filho de um dos maiores experts do comércio dos minerais, ex-ministro Elieser Batista. O  pimpolho ampliou os negócios do pai, sempre beneficiado por conselhos, exemplo e informações de cocheira, chegando hoje ao patrimônio de 30 bilhões de dólares. Basta a cifra gigantesca para se concluir a existência de algo de podre no reino do Brasil. E em outros reinos, onde o salário mínimo pode ser um pouco maior do que 545 reais.
                                                       
O grave, porém,  é o  que vem depois. Os outros onze bilionários, cada um dispondo de mais de três bilhões de dólares, são todos proprietários, sócios ou herdeiros dos  maiores bancos privados nacionais, aqueles que  lucram bilhões a cada semestre.  O lucro sai de algum lugar, pode ser que da inteligência na prática dos negócios, mas, com toda certeza, muito mais da exploração do trabalho e das agruras alheias. Das facilidades estabelecidas por seus prepostos, governantes,  legisladores ou juízes.
                                                       
Vamos poupar o leitor de fulanizações, mas os nomes dos privilegiados cidadãos e de seus bancos são daqueles que frequentam a crônica  social faz décadas. Com raras exceções, jamais trabalharam. Ignoram o  que seja chegar em casa sem comida ou roupa para os filhos. Se é que existe casa.
                                                       
Uma lista  dessa dimensão precisaria estar sob investigação.   Menos pela  Receita Federal, mais pela consciência coletiva da sociedade. Só que nessas horas tanto faz se  nos governam   generais-presidentes, neoliberais, socialistas, sociólogos  como Fernando Henrique ou torneiros-mecânicos como o Lula. Sequer tecnocratas como Dilma. Todos   acham natural esse escândalo que envergonha a nação. 
 
O  INEXORÁVEL FUTURO INCERTO
 
Importa menos saber se o ditador Kadafi   resistirá ou não à pressão de seu próprio povo para escafeder-se. Tanto faz se no Egito os generais deram bilhete azul a Mubarak, mas mantiveram  suas diretrizes,  ou se os novos dirigentes da Tunísia,  Yemem e outros países que não   conseguimos pronunciar o nome  buscam apenas  preservar fatias de poder hoje  postos  em frangalhos.  A verdade é que o mundo  árabe vive uma  mutação. Se quiserem,  uma revolução. Podem ser milhões de jovens sem emprego nem esperança, quem sabe malandros empenhados em receber lucros antes em outras mãos,  até humilhados e ofendidos pela exploração ocidental – a verdade é que a explosão se aproxima.  

E  existe um  denominador comum em meio a tantas explicações sociológicas, econômicas, geopolíticas e outras para as crises no Norte de África,  no Oriente Médio, na Indonésia, Iraque, Paquistão, Afeganistão e até Irã:  o Islã vem aí de novo. Unido, agora ou daqui a décadas, quem garante o  aparecimento de outro Carlos Martelo e de outra Poitiers para conter a espada de Alá? Agora sob a forma de computadores,  os mísseis americanos não   conseguirão  destruí-los.

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