Episódio Alexandre Figueiredo: Desorientação, ilegalidade e recorde absoluto no desgoverno Bolsonaro

Tentativa de socorro cobriu de ridículo um governo que nada fez

Pedro do Coutto

De fato, parece incrível, mas o auditor do Tribunal de Contas da União, Alexandre Figueiredo Costa Silva Marques, elaborou por iniciativa própria um relatório no qual destacou que o número de mortes pela Covid-19 estava sendo superestimado, como se tal hipótese fosse capaz de absolver o Palácio do Planalto pelos erros calamitosos e em série que comete.

O auditor mostrou o trabalho ao seu pai, o coronel do Exército Ricardo Silva Marques, colega de turma de Jair Bolsonaro na Academia Militar das Agulhas Negras. O documento foi divulgado por alguma fonte do governo federal que, com ele, procurou desacreditar os números de uma tragédia que já ultrapassou a escala de 560 mil mortos.

RESPONSABILIZAÇÃO – O Tribunal de Contas da União afastou o auditor pelo período de 60 dias por indisciplina funcional e, o auditor afastado, reportagem de Vinicius Sassine, Folha de S. Paulo de ontem, terça-feira, responsabilizou o seu pai pela transmissão do texto e o uso indevido pelo governo. Como se constata, no fundo, o ridículo e a burrice marcam o cenário de uma comédia dramática que se desenrola na Esplanada de Brasília. Basta parar para pensar e chegar à conclusão de que o bate-cabeças e a confusão geral tomaram conta do governo Bolsonaro.

Qual pode ter sido a intenção do auditor do TCU ? Só pode ter sido a de socorrer o governo numa hora de naufrágio. Mas o socorro ficou pior do que o soneto. Cobriu de ridículo um governo que nada faz para pelo menos tentar acertar uma coisa que seja. Na semana passada, por exemplo, Bolsonaro anunciou que na segunda-feira desta semana ingressaria com representação no Senado Federal contra os ministros Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso.

Apesar dos conselhos de auxiliares e aliados, o presidente reafirmou nesta terça-feira que irá apresentar o pedido de impeachment contra os ministros do STF, prosseguindo em seu projeto de tentar o golpe institucional.

CRESCIMENTO DO PIB – Na edição de segunda-feira, da Folha de S. Paulo, Leonardo Vicelli, com base em estudos da Consultoria MB Associados, analisa perspectivas sobre o crescimento do Produto Interno Bruto do país no exercício de 2022. Na minha opinião, as perspectivas são mínimas e o crescimento do PIB não poderá ultrapassar o índice de crescimento populacional de 1%, comparação entre o próximo exercício e o atual.

Não é possível, pois se o desemprego não recuou, a renda do trabalho não subiu, pelo contrário, diminuiu, se a inflação voltou a bater firme na economia doméstica de cada um de nós, se os juros voltaram a se elevar, não existe a menor possibilidade do Produto Interno Bruto do Brasil reagir a uma taxa superior à taxa demográfica.

Questões fiscais, ao contrário do que sustenta Paulo Guedes, não são garantia de crescimento do Produto Interno Bruto. Obrigatoriamente tem que ser consequência de uma reação econômica produtiva que ainda não ocorreu. O universo financeiro, esta que é a verdade, não pode se impor à realidade econômica e social de qualquer país. É uma farsa achar que investimentos financeiros possam gerar empregos e elevar o consumo,  sobretudo de alimentos. A gravidade da situação brasileira está refletida na queda do movimento nos supermercados do país.

DUDA MENDONÇA  – A Folha de S. Paulo e O Globo, nas edições de segunda e terça-feira, focalizaram com o destaque merecido a morte de Duda Mendonça, um marqueteiro que como seu maior resultado apresentou a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva nas urnas de 2002.

É verdade que o governo FHC encontrava-se em franco declínio, consequência de sua política salarial e dos cortes praticados em direitos de aposentados e pensionistas. Lembro que eu estava no Jornal do Brasil, escalado por Nilo Dante, então editor geral, para cobrir e analisar as eleições presidenciais daquele ano.

Numa entrevista que fiz com Carlos Augusto Montenegro, que o JB publicou com destaque, ele me disse ter avisado a Fernando Henrique Cardoso que ele perderia as eleições, uma vez que o seu candidato José Serra encontrava-se muito atrás do líder do PT. Mas, de qualquer forma, Duda Mendonça destacou um ângulo importante que envolvia o embate. A proposta de “Lulinha, paz e amor”, no fundo, era um projeto de conciliação com o empresariado brasileiro e também com o sistema internacional.

RELACIONAMENTOS – Lula cumpriu à risca e foi até além se levarmos em conta os seus relacionamentos com a Odebrecht, a OAS e Andrade Gutierrez, para ficarmos só nesses exemplos. O fantasma de Lula como anticapitalista que, aliás, nunca existiu na prática, no caminho das urnas foi afastado da ficção. Os empresários aceitaram a sua candidatura como um fato normal, situação que agora se repete e se reflete na pesquisa do Datafolha que apontou para ele 46% contra 25% de Bolsonaro na rota de 2022.

Duda Mendonça comprovou, inclusive, que os termos dominantes no mercado econômico e financeiro não estão separados por aparentes barreiras ideológicas. Ele flutuou na esquerda com Lula e José Alencar e na direita com Paulo Maluf e Celso Pitta em duas eleições para prefeito de São Paulo. Esteve com Mário Kertész, do MDB, que na luta por prefeito de Salvador derrotou o candidato de Antônio Carlos de Magalhães. Nem sempre foi vitorioso, porém. Perdeu com Paulo Skaf, presidente da Fiesp, que disputou o governo paulista.

Venceu no início da carreira com Miguel Arraes no Recife. Era 1962, e um super capitalista brasileiro, José Ermírio de Moraes, que se elegeu senador por Pernambuco, investiu uma fortuna contra João Cleofas e garantiu a vitória da esquerda por 10 mil sufrágios. Contradições? Nem tanto. Quem aponta contradição em política terá pela frente a tarefa de preencher uma verdadeira enciclopédia.

8 thoughts on “Episódio Alexandre Figueiredo: Desorientação, ilegalidade e recorde absoluto no desgoverno Bolsonaro

  1. Mais um bom texto do mestre Pedro, atual, analítico e incisivo num ponto, o desgoverno Bolsonaro. Os futuros historiadores terão, com certeza, amplo material para explicar o maior estelionato eleitoral da história.
    Lembram do ministério de técnicos prometido na campanha, chega a ser cómico se não fosse trágico, ver, depois de dois anos e meio, a indigência profissional de um ministério batendo cabeça na gestão dos problemas nacionais e se coordenando somente para formar a claque de apoio ao Mito nos seus desvarios.

    • Se refletirmos friamente, teremos que concordar que não é possível governar no meio de uma campanha eleitoral que começou no 1º de janeiro de 2019, com o discurso da posse e se estende até hoje.

  2. Lula como um autêntico maragato, segue a mesma linha nacionalista de Getúlio Vargas que era estancieiro, de João Goulart, também muito rico.
    Ser maragato ou seja, desejar o bem do brasileiro, mas sem ser contra banqueiro, latifundiario ou capitalista.
    A luta de classes não interessa a ninguém todos saem perdendo.

  3. Um dos pontos mais ridículos dessa farsa é que o auditor repassou para o pai – evidentemente, para que este incauto repassasse ao Bozo – uma informação que ele mesmo já havia declarado não ser confiável ou relevante, conclusão a que chegou em conjunto com a coordenadora dele.

    Para que repassou, então?

    Creio que os concursos públicos no Brasil precisam de uma revisão de critérios. Gente assim não tem condições de representar ou presentar importantes órgãos governamentais.

    Há tempos, existia um professor, no Rio de Janeiro, chamado Paulo de Tarso, capaz de adestrar indivíduos para que ingressassem nos mais diversos cargos públicos, alguns de alta relevância, como auditores fiscais, delegados etc.

    A contribuição desse senhor para a precarização da mão-de-obra pública é inestimável.

    Graças a ele, do qual não se nega a capacidade de adestrar indivíduos como se fossem cachorros, coelhos ou cavalos, diversos brasileiros sem muito raciocínio, mas com forte intenção de se acomodar nos desvãos de um serviço público mal prestado, foram contemplados com cargos perpétuos, vitalícios, enquanto a escumalha, do lado de fora, anseia por serviços públicos pelo menos razoáveis.

    • O concurso público, como qualquer outra prática ou instituição humana, está sujeito a desvios e espertezas por partes de indivíduos oportunistas, mas é como a democracia, ainda não se inventou uma forma melhor para desempenhar função pública com retidão e independência, agora! o que não consegue qualificar, é o caráter dos candidatos.
      Não cabe a menor dúvida que o sistema é infinitamente superior àquele do QI, que fornece os ocupantes das Funções Comissionadas e Cargos de Confiança.

  4. Certamente que outros especialistas encontrariam o inverso: que os números foram subestimados. Pelo menos durante todo o período foi isso que especialistas falaram. Aqui e no mundo. De subnotificações de casos. O estudo desse auditor aí parece mais que está para uma fraude.

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