Episódio Verônica abala Mantega e Cartaxo

Pedro do Coutto

O reflexo político administrativo do estúpido crime praticado através do contador Antonio Carlos Atella Ferreira, profissional suspeito e pouquíssimo responsável, sobretudo pelo impacto que o episódio causou, é inevitável. A culpa pela pratica sórdida tem que recair sobre alguém. Pelo menos um, o secretário da Receita Federal, Otacílio Cartaxo. Talvez dois. O segundo, o ministro da Fazenda, Guido Mantega. Não que este vá ser demitido agora. Cartaxo sim. Mas provavelmente Mantega perdeu a chance de vir a ser aproveitado pelo governo Dilma Rousseff, caso ela chegue ao Palácio do Planalto como todas as pesquisas de intenção de voto sinalizam como certa.

Pois o que aconteceu agora com a Sra. Verônica Serra, filha do candidato José Serra, foi demais. Não houve somente – o que já seria gravíssimo – o vazamento de dados fiscais absolutamente garantidos por sigilo que só poderia ser quebrado por decisão da Justiça. Ocorreu também a falsificação de sua assinatura, o reconhecimento fraudulento de procuração forjada, como denunciou o próprio Fábio Tadeu Bisognin, titular do cartório que foi escolhido como fonte de ação coletiva criminosa. Criminosa e torpe.

O contador Antonio Carlos, sombrio personagem, em entrevista ao repórter de O Globo, Roberto Maltchik, disse não conhecer os solicitantes da declaração de Verônica. E que considera tal prática comum. Está no corpo do jornal de 2 de setembro. Aliás, a melhor cobertura de todas editadas na imprensa, disparado, foi a de O Globo.

O essencial é indagar se é possível alguém utilizar uma procuração para extrair informações confidenciais e não saber – ele disse isso – o nome de quem lhe pediu tal trabalho. O nome ou os nomes. Essa não. É muito cinismo. Dose para dinossauro.

Igual à desfaçatez da Receita Federal e de seu titular, Otacílio Cartaxo. Este, então, por suas próprias declarações, deixou no ar a existência de uma descoordenação total dos  órgãos regionais subordinados.

Primeiro foi o vazamento da delegacia de Mauá, São Paulo. Agora na unidade Santo André. Ora, porque cargas d’água alguém iria obter cópias das declarações de Imposto de Renda de Mendonça de Barros, Ricardo de Oliveira e Jorge Eduardo Caldas Pereira em Mauá? Pela mesma razão, qual o motivo que levou um personagem de mistério apoderar-se da declaração de renda de Verônica Serra? Não faz o menor sentido. Tampouco o envolvimento da analista tributária Lúcia Gonçalves Milan, que entregou as informações de Verônica a Carlos Atella, nesta altura o homem que sabia demais, de Alfred Hitchcock. Enfim mais um desastre, mais uma derrota dos falsários.

A primeira foi no episódio do mensalão, que culminou com a queda do ministro José Dirceu e a cassação de seu mandato parlamentar. A segunda culminou com a demissão do ministro Antonio Palocci da Fazenda, e do presidente da Caixa Econômica, Jorge Matoso, pela violação da conta bancária do caseiro Francelino Pereira. A terceira teve como desfecho a prisão dos que Lula chamou de aloprados, efetuada num hotel de São Paulo, com malas cheias de dinheiro. A quarta começou com a ruptura do sigilo de Eduardo Jorge, Mendonça de Barros e Ricardo Oliveira, este diretor do Banco do Brasil. Acabou com a imunda investida contra a filha de José Serra.

Se os autores de todas essas tramas sinistras queriam prejudicar a campanha de Dilma Rousseff não poderiam ter escolhido uma teia melhor. O maucaratismo humano já é eterno e enorme. Mas a burrice não tem limites. É capaz de tudo.

***

Entrevistado por um repórter de “A Tarde” de Salvador, sobre o aspecto político da quebra de sigilo bancário e fiscal da filha de José Serra, o ex-presidente e conselheiro aposentado do TCE-RJ, Humberto Braga, afirmou que “tudo faz crer que Verônica Serra, filha do candidato do PSDB é tão honesta quanto ele. Se não fosse e houvesse acumulado fortuna ilícita, graças às posições ocupadas pelo pai, não a depositaria em bancos. Valer-se-ia dos vários paraísos fiscais que há no exterior”.

“Então” – acrescentou indagando – “que proveito poderia colher Dilma com a quebra do sigilo bancário daquela senhora? Armou-se um escândalo, isso sim. A quem ele aproveita?” – concluiu.

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