Epitacio Pessoa derrota Rui Barbosa em 1919, eleição direta e não indireta. Recebe a Presidência, não de Hermes e sim de Delfim Moreira, via Afrânio de Mello Franco.

Helio Fernandes

Desculpem se não atendo a todos os pedidos de esclarecimento sobre figuras históricas. Muitos não gostam quando trato de História. Além do mais, preciso escrever a respeito do que acontece ou deixa de acontecer no dia-a-dia. Eurico Reis me pede que escreva sobre Epitácio Pessoa, vou escrever principalmente por causa de alguns fatos em que serviu à elite, contra Rui Barbosa.

  Ruy perdeu por pouco

Epitácio foi tudo na Paraíba, menos governador. Deputado estadual, federal, senador, Procurador da República, Ministro do Supremo. Em 1918 quase foi candidato a presidente da República. O Partido Republicano, apavorado, procurava alguém para derrotar Rui Barbosa. Acharam que Epitácio não ganharia, preferiram Rodrigues Alves, de grande biografia e que já fora presidente de 1902 a 1906, sucedendo Campos Salles.

Rodrigues Alves admitiu constrangido, não aceitaram a recusa. Doente, com 70 anos, (o que era muito para aquela época) não saiu de seu sitio em Guaratinguetá. Eleito, não tomou posse, embora só morresse no início de 1919. Mas tomou algumas providências pessoais.

RUI NÃO QUIS IR PARA VERSALHES

Chamou Rui Barbosa e convidou-o para chefiar a Delegação Brasileira que teria que ir para Versalhes. Motivo: no dia 11 de novembro de 1918, assinar o Tratado de Rendição Incondicional da Alemanha na Primeira Guerra Mundial. (O mesmo aconteceria em 8 de maio de 1945, no mesmo vagão, na mesma Versalhes, a mesma Alemanha assinando o mesmo Tratado da mesma Rendição Incondicional).

Rui, sabendo que Rodrigues Alves estava morrendo e que teria que haver nova eleição, se desculpou e disse que era impossível sair do Brasil. O presidente eleito chamou e convidou Epitácio Pessoa, que aceitou na hora. Esse 11 de novembro durou pouco, constrangimento dos dois lados. A presença valia para a biografia e pela beleza de Versalhes. Só que para Epitácio foi muito importante.

Ficou em Paris, logo Hemingway faria a frase repercutida, “depois da guerra, Paris é uma festa”. Não demorou muito, Rodrigues Alves morreu, as articulações já estavam em curso, se aprofundaram. O grande problema: São Paulo e Minas queriam “fazer” o presidente. O que não tomou posse era de São Paulo, o vice que ficou poucos meses sem Poder algum, Delfim Moreira, de Minas.

Sugeriram, então, o nome de alguém de um estado pequeno. Mais em evidência e biografia consistente, apareceu Epitácio Pessoa. Alguém lembrou que estava em Paris, constataram: a Constituição permitia candidatos presidenciais eleitos fora do país. As viagens de ida e volta eram longas, não havia avião, sempre de navio, e a eleição deveria ser logo, em 1º de março.

DERROTA DE RUI, VITÓRIA DE EPITÁCIO

O adversário de Epitácio foi Rui Barbosa. (A citação deveria ser ao contrário: o adversário de Rui foi Epitácio). Rui não podia ganhar, mas perdeu por margem insignificante. Com 69 anos, cansado, sem recursos, assim mesmo Rui correu o Brasil inteiro. Nada a ver com a genial campanha de 1910, (contra o general Hermes da Fonseca) quando combateu as três forças mais poderosas do Brasil: Exército, Igreja e Partido Republicano.

Terminada a campanha, exausto, Rui abandonou a vida pública, morreria em 1923 com 73 anos. No mesmo ano morreria Hermes da Fonseca, já marechal, entrando na História, não pelo que realizou como presidente.

EPITACIO, GOVERNO MONÓTONO

O governo Epitácio foi tumultuado, o país todo era um incêndio assustador, impossível de apagar. E a família Pessoa era conhecida como impetuosa e nada conciliadora. Seu governo não acrescentou coisa alguma. Ficou no Poder 1919, 20, 21. Em 1º de março de 1922, a eleição de seu sucessor, que só tomaria posse em 15 de novembro, por causa da dificuldade da votação e apuração.

Também existiam os recursos, (chamados de “referendo”) deles só o presidente da República escapava. Por isso a diferença de oito meses e meio entre a eleição e a posse, de 1º de março a 15 de novembro. Dessa forma, em 1º de março de 1922, Bernardes foi eleito, mas quem estava no Poder no histórico 5 de julho de 1922, era Epitácio e não Bernardes.

O 5 de julho de 1922 era contra Bernardes e o 5 de julho de 1924 (comemoração do primeiro, se eternizou na História como Coluna Prestes) também. Mas do movimento de 1922, quem teve que cuidar foi Epitácio.

Conhecido como “Os 18 do Forte”, 17 tenentes e um civil, Otavio Correa, que é o último na belíssima foto histórica, horizontal, com os 18 enfileirados. Não lembro o nome do autor da foto. Muitos tenentes, metralhados nas areias de Copacabana. Ainda vazias, o Rio foi fundado no centro da cidade, as praias não se constituíam em atração.

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PS – Uma tarde, o presidente Epitácio Pessoa foi ao Quartel Central do Exército visitar os feridos. Parou na beira da cama onde estava o tenente Newton Prado, gravemente ferido, com a barriga toda enfaixada.

PS2 – Epitácio, com um tom de voz entre o terno e o carinhoso, exclamou: “Tanta bravura por uma causa inglória”. Newton Prado imediatamente arrancou as faixas, morreu na hora. Perplexo e horrorizado, Epitácio teve que ser atendido por um cardiologista.

PS3 – Depois que deixou o governo, moveu processo contra o que escreveu um jornalista, e que Epitácio considerou injurioso. Mas como cidadão, com advogado próprio. Estão todos mortos, das duas família, não me aprofundo na questão.

PS4 – Para terminar, uma referência ao seu sobrinho, João Pessoa, com o mesmo temperamento. Chegou a governador da Paraíba. Quando Washington Luiz escolheu o governador de São Paulo, Julio Prestes, para presidente, mandou telegrama a todos os governadores, “peço seu apoio para a candidatura Prestes”. (Nenhum parentesco)

PS5 – João Pessoa respondeu com outro telegrama e apenas uma palavra: “NEGO”. Quando foi assassinado numa confeitaria do Recife, essa palavra foi incorporada à bandeira da Paraíba.

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