Equipe que descobriu a corrupção na Petrobras tinha apenas um delegado e dois agentes

10 - 9- Marcio Anselmo 2

Delegado Marcio Anselmo puxou o fio da meada

Pedro Cifuentes
El País

Na sede regional da Polícia Federal em Curitiba, onde trabalham os agentes que deram início à Operação Lava Jato, o ambiente é de prudente satisfação. “Jamais imaginamos um caso tão grande… Nem em sonho”, admite Marcio Adriano Anselmo, o delegado que iniciou a maior investigação por corrupção na história brasileira. Anselmo tampouco imaginaria que uma modesta investigação contra três especialistas em lavagem de dinheiro, em Brasília e São Paulo, acabaria por conduzi-lo a Londrina (sua cidade natal, a 400 quilômetros de Curitiba), feudo do contrabandista Alberto Youssef, um velho conhecido da PF, cujas confissões acabariam detonando um escândalo de ressonância mundial.

Há 16 meses, em julho de 2013, Anselmo havia voltado seu foco para Carlos Habib Chater, um doleiro que havia anos operava em Brasília. Chater havia sido recentemente vinculado a um polêmico ex-deputado de Londrina, José Janene (PP-PR), morto em 2010. Mantinha uma rede de lavagem de dinheiro criada por seu pai (preso, como ele, há dois meses), e a PF sabia que fazia contatos em São Paulo com outro doleiro, Raúl Henrique Srour, que havia sido condenado em 2005 na chamada Operação Banestado, mas já terminara de cumprir pena.

A partir de agosto, quando a Justiça autorizou escutas telefônicas, descobriu-se também que Chater trocava continuamente mensagens telefônicas sobre suas atividades com um desconhecido. “Era uma operação de pequena para média”, diz Anselmo. “Não tínhamos nem ideia do que iríamos encontrar.”

ERA YOUSSEF, DE NOVO

A equipe de Anselmo era formada por mais dois agentes. A investigação prosseguiu de forma discreta durante várias semanas. Depois de analisar milhares de operações bancárias, os três policiais vislumbraram um esquema com empresas fantasmas e transferências injustificadas. Avançaram lentamente, até que no começo de outubro o caso teve seu primeiro ponto de inflexão: a pessoa que tantas mensagens trocava com Charter via smartphone era Alberto Youssef, o mesmo especialista em lavagem de dinheiro que, num acordo de colaboração em 2004, havia se livrado de uma pena muito mais longa na Operação Banestado – por coincidência, o primeiro caso financeiro importante julgado pelo jovem juiz Sergio Moro, da 13ª. Vara Criminal Federal de Curitiba.

“Não podíamos acreditar que fosse Youssef”, conta Anselmo. “Foi um momento inesquecível.” Além de levar o caso para Curitiba, a descoberta significava que o doleiro e contrabandista havia violado seu acordo de delação premiada; estava novamente na ativa. Continuaria em operação o esquema supostamente desbaratado anos antes?

A palavra Petrobras, até então, não aparecia nem remotamente no caso. Mas o reaparecimento de Youssef aproximava os policiais de outro foco importante da investigação: a escorregadia figura de Nelma Kodama, “a Dama do Mercado”, influente doleira paulista que, além do mais, era amante de Youssef. Kodama havia se safado do caso Banestado porque “foi a única pessoa a quem Youssef não delatou”, segundo os policiais, “seja por amor ou para que continuasse o negócio”. “Ela sempre havia movimentado grandes quantias de dinheiro, somas muito elevadas vinculadas a grandes comerciantes do setor de importação e exportação. Mas até aquele momento havia conseguido se livrar. […] Era uma pessoa muito complicada, considerava-se inalcançável, mostrava muita confiança em si mesma.”

FALTAVAM AS PROVAS

“Continuávamos sendo uma equipe muito pequena, mas mesmo assim continuamos puxando o fio”, recorda outro agente. Mas faltavam as provas… “Era possível que se tornasse um caso maior do que o esperado, mas nem isso.” A palavra ‘Petrobras’ só apareceu pela primeira vez nos autos da Operação Lava-Jato em janeiro deste ano. Foi, como tantas vezes, por um descuido: especificamente um presente. Os agentes comprovaram que Youssef acabava de comprar um carro de luxo (300 mil reais) em nome de Paulo Roberto Costa, ex-diretor de Abastecimento da empresa petroleira de capital misto.

“Achamos isso muito estranho”, afirma um agente. “O salário de um diretor da Petrobras pode superar os 100 mil reais (40 mil dólares) mensais.” Com um meio-sorriso, Anselmo relembra que “foi aí que a temperatura começou a subir de verdade”. Os policiais se lembraram de que o falecido ex-deputado Janene, sócio de Chater, havia sido o responsável por colocar Paulo Roberto Costa à frente da Diretoria de Abastecimento da empresa, em 2004. E ampliaram o campo de atuação: “Começamos a investigar outras pessoas e, pela primeira vez, compreendemos que podia se tratar de um caso histórico”.

O carro dado por Youssef a Costa era justificado como sendo o pagamento por supostos “serviços de consultoria”. Havia milhares de notas fiscais por “serviços de consultoria”.

MÁQUINA DE LAVAR

Poucas semanas depois, veio à tona uma gigantesca máquina de lavagem de dinheiro. Os suspeitos transferiam somas elevadas ao estrangeiro, usando uma rede com mais de cem empresas de fachada e centenas de contas bancárias que remetiam milhões de dólares para a China e Hong Kong. As companhias, pura cosmética financeira, simulavam importações e exportações com o único propósito de receber e mandar dinheiro, sem comércio algum de produtos ou serviços reais.

As autoridades judiciais calculam que a quantia desviada chega a 10 bilhões de reais. O dinheiro provinha principalmente do tráfico de drogas, do contrabando de diamantes e do desvio de recursos públicos (nesse caso, como seria posteriormente revelado, em obras encomendadas pela Petrobras a grandes empreiteiras, com orçamentos de bilhões de reais, dos quais eram sistematicamente desviados pelo menos 3% em subornos). Posteriormente, e independentemente da origem do dinheiro lavado, os valores eram reintroduzidos no sistema mediante negócios de postos de gasolina, lavanderias e hotéis.

AÍ O CASO EXPLODIU

O chamado Petrolão veio a público em 17 de março, quando a Polícia Federal deteve 24 pessoas (entre eles os doleiros mencionados nesta reportagem) por evasão de divisas em seis Estados. A imprensa brasileira ainda não citava o nome da Petrobras no noticiário. Ele só apareceria três dias depois, quando Paulo Roberto Costa foi detido, após a comprovação de que estava destruindo documentos relativos à sua longa relação com Youssef. Ambos chegaram a um acordo de colaboração com a Justiça e se tornaram delatores em troca de uma redução da pena.

“Aí é que o caso explodiu”, admite Anselmo. Os três policiais passaram a ser quinze (cinco delegados e dez agentes). A investigação ganhou proporções gigantescas, com suspeitas crescentes sobre a implicação de altos executivos de empresas e políticos que eram citados nos depoimentos dos arrependidos.

Youssef, Costa e um diretor da empresa de engenharia Toyo-Setal, Julio Camargo, revelaram a existência de um clube de 13 empreiteiras que dividiam entre si os contratos com a Petrobras. As revelações indicavam que parte do dinheiro pago em subornos durante 10 ou 15 anos se destinava aos cofres de vários partidos políticos.

Um duro golpe no establishment empresarial, político (e possivelmente bancário) do Brasil: as construtoras investigadas são responsáveis por oito das dez maiores obras do país. O presidente do Tribunal de Contas da União, Augusto Nardes, afirmou com preocupação que o caso tem potencial para parar o Brasil, caso as nove maiores empresas sob suspeita sejam finalmente declaradas inidôneas para assinar contratos com o setor público.

(artigo enviado por Mário Assis)

LEIA AMANHÃ: Youssef, um vendedor de salgados que virou poderoso chefão 

8 thoughts on “Equipe que descobriu a corrupção na Petrobras tinha apenas um delegado e dois agentes

  1. Parabéns, delegado Anselmo.

    Imagino que quando segurou uma das pontas, nunca poderia ter calculado o tamanho do novelo.
    Grande, muito grande.
    Enorme…
    A cada semana, com nomes e mais nomes de protagonistas que se diziam estar acima de qualquer suspeita.

    Não resta dúvida a falta que representou para o PT a figura de Márcio Thomaz Lopes, como ministro da Justiça. Com todo respeito ao falecido.
    Justiça seja feita, verdade seja dita, sabia, pelo faro, o tamanho da podridão e tinha, como profissional, as soluções que atendiam aos momentos desastrosos provocados pelos aloprados, como os denominava o poderoso chefão.

    Todavia, até chegar o instante em que o novelo estiver totalmente desenrolado, é provável que o Pizolatto na Itália, venha a ter como vizinho, personagem até agora ainda blindada, meio sumida, pedindo para ser esquecido…

  2. Parabenizo aos nobres policiais pela difícil empreitada, em se tratando de Brasil, de PT, de lula e de Dilma, os valorosos fizeram uma façanha sem precedentes chegando onde chegaram. O que milhares de brasileiros esperam é que todo o serviço feito por voces não acabe em pizza como tudo que se trata de política nesse país.

  3. Queridos delegados.agentes e profissionais afim torço por Vcs para termos um Pais melhor, meu filho colega de Vcs era orgulhoso de suas conquistas e certamente de onde está vai ajudá-los melhor ,bjs no coração de Vcs

  4. Senhoras e Senhores, bom dia sempre.
    Quero registrar a opinião de um Policial Federal aposentado, com mais de trinta anos prestados ao Brasil, concursado em 1972.
    Quanto as separações de classes dentro das organizações policiais no Brasil. São altamente danosas ao trabalho das Organizações oficiais como o DPF/MJ.
    Policial deve ser unisex, sem distinção de tamanho, idade, cor, raca, religiao, preferência esportiva, opção sexual, e tudo mais que segrega um grupo que se compromete prestar serviços incondicionais a quem lhes paga os salários; a população do Brasil.
    Delegados, Agentes, Escrivães, Peritos, Papiloscopistas, Administrativos e possíveis terceirizados, todos JUNTOS arriscam suas vidas, sem valer nenhuma bênção a mais ou menos quando der errado.
    Assim seremos muito mais fortes, quando juntos. Agentes separados dos demais não prestam bom serviço. Peritos separados dos colegas são inócuos. Delegados sem equipe não é ninguém. E assim por diante. A malvada vaidade. A luta pelo poder, leva a um grande desperdício de energia vital.
    Polícia é Polícia. Policial é Policial. Simples assim. Não podemos dizer que esses ou aqueles valorosos (Delegados) fizeram isso ou aquilo. Por quê, os demais da equipe são covardes sem valor?
    É muito prejudicial esta separação de cargos. Só serve de fato para separar o que por natureza é JUNTO.
    Carinhoso e esperançoso abraço a todos.
    lauro Trapp.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *