Erenice deve entregar cargo para não pesar contra Dilma

Pedro do Coutto

São tão grandes e tão fortes os indícios de irregularidades – para se dizer o mínimo – envolvendo a ministra Erenice Guerra, que o melhor que deve fazer é colocar o cargo à disposição para não constranger ainda mais o presidente Lula e não pesar de forma mais acentuadamente, em matéria de votos, contra a candidata Dilma Roussef. A matéria publicada na edição da revista Veja, de sábado, assinada por Diogo Escosteguy, já fora um violento torpedo no casco da Casa Civil. Porém as reportagens de Evandro Spineli e Bruno Costa (Folha de São Paulo), de Leandro Colón (O Estado de São Paulo) e a de Geralda Doca e Fábio Fabrini, O Globo, todas três publicadas ontem, segunda-feira, tornaram-se arrasadoras. Em seu conjunto incluem não só a denúncia de empresário Fábio Baracat, mas também declarações do diretor de Operações dos Correios, Artur Rodrigues da Silva.

A posição de Erenice Guerra, sobretudo pelo primarismo das articulações colocadas em primeiro plano, tornou-se insustentável. Pedidos de demissão ou afastamento “para não prejudicar as investigações” são comuns no universo político. Nenhum governo até hoje, pelo menos de 1945 a 2010, conseguiu atravessar um mandato sem que houvesse alguma substituição ministerial. Nem os governos da ditadura militar -1964 a 1985- escaparam desta regra. Pelo contrário. As razões são as mais diversas, mas os que, por este ou aquele motivo, perdem as condições para permanecer devem saber cair. Acontece. É do jogo.

A demissão, em várias ocasiões, destina-se a impedir um mal maior, uma repercussão mais prolongada. Erenice Guerra não será a primeira, tampouco a última numa longa galeria de episódios. No governo Lula mesmo, a ministra da Igualdade Racial (título que sinaliza para a perspectiva de não haver tal igualdade), teve que deixar a pasta  pelo uso e abuso do cartão de crédito corporativo.

Acontecimento centenas de vezes menor do que os que afundam agora  a ainda ministra – pelo menos até a hora em que escrevo – Erenice Guerra. A pessoa politicamente atingida ou rebate de plano as acusações de forma firme e convincente, ou então deixa o palco para que as reações negativas da platéia, no caso o eleitorado, não abranjam o governo e a candidata do partido à sucessão presidencial. É mais coerente, mais hábil, mais político. O poder embriaga, sem dúvida, aliás tema de um filme americano famoso com Burt Lancaster e Tony Curtis, A Embriaguez do Sucesso, tradução literal do inglês.

A tendência de alguns que se deixam envolver pelo aparentemente doce perfume do poder, equivocadamente, é sentirem-se imunes aos limites da lei e da ética. É um erro. A lei e a ética são limites inultrapassáveis, principalmente quando os culpados adotam modos primários de atuação, deixando provas em cima de provas, que dá margem a um rastro de certezas óbvias.

Substituições ministeriais povoam a história, não só a do Brasil, mas a universal. A política, partidária ou econômica, tem os seus momentos. É necessário conviver com eles, as motivações e os reflexos. No governo JK, por exemplo, fatos que ocorreram na administração de Mario Pinotti levaram a sua demissão do Ministério da Saúde, no início de 60, substituído por Souto Maior, pai do piloto Nelson Piquet. Ernesto Geisel demitiu Silvio Frota, do Ministério do Exército, e Hugo de Abreu, da chefia da Casa Militar. Os motivos variam.  Mas as demissões decorrem sempre da perda da confiança. Erenice Guerra está neste caso até prova em contrário. A menos que Lula deseje, por absurdo, que Dilma perca votos na reta de chegada, que está à vista.

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