Ernesto Geisel de saia?

Carlos Chagas

Ainda bem que falta apenas uma semana para o segundo turno das eleições  presidenciais e de alguns governadores. Do jeito que as coisas  continuarão indo até o próximo domingo, o mínimo a esperar será  José Serra  fazendo campanha com capacete de aço e Dilma Rousseff de guarda-chuva, mesmo com tempo seco.

O episódio da bolinha de papel e do rolo de fita durex arremessados sobre o tucano só foi igualado pelas bolas de água  jogadas sobre a comitiva da companheira. Baixaria óbvia, prenúncio de entreveros mais graves caso estivéssemos no início da corrida eleitoral, não na reta final.

São essas contradições que fazem do Brasil um país singular: dispomos do mais avançado sistema de votação e apuração em todo o planeta, mas, ao mesmo tempo, demonstramos selvageria explícita na luta pelo poder. Nem se fala das intervenções esdrúxulas do presidente da República em todo o processo eleitoral e, agora,  nesse episódio infantil e inconcluso das brigas de rua.

A pergunta que se faz é a partir do day after.  Se vencer a candidata, como indicam as pesquisas, haverá apenas festa comandada pela militância do PT? Ou vão  multiplicar-se as bolinhas de papel e os rolos de fita durex lançados sobre  a tucanagem?

Se confirmada a continuação do lulismo, maior do que o petismo, no palácio do Planalto, deve-se esperar apenas a  continuação do atual  modelo de governar? Há quem preveja surpresas por parte de Dilma. A primeira, de que deixará o palco aquela senhora sorridente e bem-educada que  nos últimos meses  andou atrás de votos, substituída  pela implacável madre-superiora do convento, empenhada em enquadrar as  noviças em que seremos todos transformados.

A população que aplaude e se delicia com os improvisos, as gafes e a tolerância do Lula será levada a trocar o humor pela severidade. Pode parecer exagero, mas viveremos um período de severidade e de cobranças permanentes, onde os primeiros a sofrer serão  os ministros  e altos auxiliares presidenciais, estendendo-se o clima de colégio interno a toda a máquina administrativa federal.

Da vitória até a posse acontecerá a metamorfose, ou melhor, a volta da personagem ao implacável  figurino  anterior, de rígida  ministra e coordenadora da ação oficial a comandante em chefe do convento.  O país desaprenderá do sorriso fácil  e sentirá  saudade dos tempos em que “jeitinhos” pautavam a vida da grande maioria.

É claro que a presença do rei permanecerá balizando as iniciativas da sucessora, mas caberá ao Lula preparar-se para o refúgio, isolando-se  em cones de sombra do tamanho de São Bernardo, se não quiser aborrecer-se. Diminuirá a tolerância do governo  com os ricos, aqueles “que jamais  ganharam tanto dinheiro como agora”. E os políticos profissionais que se cuidem: a  nova presidente não admitirá  feudos ou capitanias hereditárias na máquina pública. Servirá como exemplo o primeiro que escrever e não souber ler. Que tome cuidado  o vice-presidente Michel Temer, se pretende servir de interlocutor entre facilidades do Congresso e necessidades do  Executivo. Ou, mais grave ainda, se o ainda presidente da Câmara  pretende mesmo repartir o pão com seus partidários.

A realização do segundo turno terá sido  cruel para a candidata, mas serve para que a nova presidente da República venha a instrumentalizar-se conforme uma evidência maior: apoio nas próprias  forças, sem que essa diretriz exprima algum refrigério para o PT. Muito pelo contrário. Nomeações fisiológicas estarão na alça de mira, tanto quanto indicações meramente  políticas.

Em suma, a Dilma candidata ficará no meio da estrada, substituída pela Dilma presidente, com contas a ajustar em seu próprio pano de fundo. Como se dizia décadas atrás, “é melhor comprar galochas, porque vai chover”.

Nenhum  perfil se adaptaria  melhor para definir o futuro próximo  que o do general Ernesto Geisel, que Deus o tenha lá nos espaços  mais profundos…

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