Escavações para construção da linha quatro do metrô encontraram trilhos de bondes. Nenhuma surpresa.

Helio Fernandes

A partir de 1920, existiam bondes em toda a cidade. Centro, Zona Sul, Zona Norte, nos mais diversos pontos, de um lado a outro. Os bondes saíam da Galeria Cruzeiro e iam até o Leblon, passando pelo Largo do Bar 20.

Bondes do Rio na hora do rush

Na rua Voluntários da Pátria e na São Clemente, os bondes trafegavam na mão e contramão, praticamente não existiam automóveis, nem edifícios. Em 1932, com 12 anos, eu estudava à noite e trabalhava durante o dia no escritório de um advogado, na rua Senador Dantas (Cinelândia).

Ia muito ao Leblon, levar e buscar documentos. Fazia um frio terrível, os bondes eram abertos, numa parte do trajeto, circulavam pela praia, deserta e ignorada. Nessa época, o Rio se concentrava no Centro, lentamente chegava até Botafogo.

Vinte anos mais tarde, a situação se modificou, os bondes deixaram de ir até a Galeria Cruzeiro, paravam no chamado Tabuleiro da Baiana. Exibição do poder da Light, displicência e cumplicidade do Supremo Tribunal Federal.

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O PODER DA LIGHT

A Light dominava o Rio ( e o país), o Major Mac Krimon, presidente da empresa, era o homem de maior prestígio no Brasil. Mandava e desmandava. Assinou um contrato de 99 anos com o governo, e o última cláusula estipulava textualmente: “Ao final do contrato, todos os bondes
REVERTERÃO para a União”.

O contrato acabou e a Light tinha bens com valor colossal, mas nenhum deles reverteu para a União. Esta entrou no Supremo, que decidiu inacreditavelmente: “Os bens reverterão, sim, mas pagando. E tudo ficou com a Light.

Alguns destes bens: a Galeria Cruzeiro, na Avenida Rio Branco, onde foi construido o enorme edifício Avenida Central. Um terreno enorme, que ligava a rua Voluntários com a São Clemente, onde é hoje a Cobal. Uma enorme garage de bondes, no Largo do Machado, ao lado do famoso restaurante Lamas, freqUentado, durante anos, por gerações de estudantes.

Tudo ficou com a Light ( e muitas outras propriedades). Sei de memória o nome dos ministros do STF, que votaram a favor da empresa então canadense, logicamente estão todos mortos.

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BONDES POR TODO LADO

Existiam bondes nos subúrbios da Central, em Vila Isabel, no belíssimo Boulevard 28 de Setembro. Com o crescimento da cidade, abertura de túneis, foram descobrindo a Zona Sul e as praias. Botafogo e Flamengo ganharam comunicação, com a abertura da Avenida das Ligações, hoje Osvaldo Cruz, o inventor em 1904 da “vacina obrigatória”. Foi massacrado pelos jornais da época, Jornal o Brasil (1891), Correio da Manhã (1902).

Podiam ter mantido bondes locais, como existem em grandes cidades do mundo. Agora descobriram esses trilhos, ao escavar as ruas para uma linha de metrô, que chega no mínimo com 60 ou 70 anos de atraso. O metrô de Moscou foi inaugurado em plena época dos Romanoff, em 1898.

Em Boston, 10 anos depois já havia metrô. Em 1952, eu dirigia a revista Manchete e fiz reportagem sobre o metrô com deputados estaduais e vereadores. Já se foram 60 anos.

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PS – Estou escrevendo às 10 horas, ainda não se sabe se haverá sessão do mensalão. Tudo depende de um boletim médico, que Celso de Mello esteja bem.

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