Esclarecimentos sobre o poema de Marcus Accioly e personagens que dominavam a vida política do Brasil em 1967. Passados 44 anos.

Helio Fernandes

Compreendo que muitos leitores não tivessem transportado para 5 de agosto de 1967, o que publiquei agora. Fica a impressão, quando agradeço “ao poeta genial que não conheço”, que esse fato fosse verdadeiro ainda hoje. Alguns gentilmente foram buscar na Wikipedia a biografia do Marcus Accioly.

Assim que cheguei de Fernando de Noronha e de outros sequestros, confinamentos ou prisões, me procurou para agradecer. Disse a ele que não tinha nada a agradecer, Hoje, 44 anos depois, não posso dizer quem estava mais emocionado. Só que conforme esclareceram, ele tinha 24 anos, o poema publicado pela primeira vez em julho de 1967, chegou às minhas mãos menos de um mês depois.

Ricardo Sales pergunta por que não publico o livro agora. E diz que nem sabe o nome do livro. Não teria sentido, até existe quem queira editar. O título, simples e objetivo: “Recordações de um desterrado em Fernando de Noronha”. Veja, quando cito o incompetente ministro da Justiça, Gama e Silva, provavelmente surpresa geral.

Mariposa acerta em cheio, já fiz a mesma indagação: “O poema não seria uma tradução de você mesmo? É possível, é possível. Talvez tenha me identificado imediatamente com o poema, a sensibilidade de um poema atingindo fortemente a minha própria sensibilidade. Parabéns pela observação.

O também grande poeta Waldemar Penna Filho, da geração de Accioly, escreve com o mesmo fervor sobre ele, diz que continua “poetando” com a mesma grandeza do poema que eu descobri e revelei”.

José Guilherme Schossland se debruça na intuição, e faz um comentário excelente: “Até parece que o exemplar tinha sido endereçado a ti e levado pelo vento para você, que foi o primeiro a publicá-lo. Marcus Accioly, até fisionomicamente, é parecido com você”.

Obrigado a Silvio Negreiros, pelas palavras: “Esplêndido, belo e tocante, esse poema trazido a público por intermédio de sua singular e magnífica presença jornalística e literária”.

Sem se repetir, Ofelia Alvarenga registra: “Esqueci de dizer que adorei isto, “como provavelmente não gastei Deus com a mesma intensidade do Carlos Heitor Cony”. Lembro de uma frase que cita Deus de forma diferente, mas exata.

Durante a campanha eleitoral de 1955, os discursos de JK eram escritos por este repórter, por Álvaro Lins (editorialista do Correio da Manhã) e pelo famoso poeta Augusto Frederico Schmidt. Como quem viajava com ele pelo Brasil todo (era o melhor de tudo), eu entregava ao candidato o que havíamos escrito. Juscelino dava uma lida, botava no bolso e falava de improviso.

Uma noite, em Jacarepaguá, na Escola Souza Marques (hoje, Universidade Souza Marques), entreguei a ele um texto escrito pelo grande poeta. Leu, viu uma frase de poucas palavras: “Deus poupou-me o sentimento do medo”. Magistral, e que era a própria história do candidato. Não leu o discurso todo, improvisou, encaixou a frase, que leu com a naturalidade de quem tivesse acabado de escrevê-la.

*** 

PS – Quando falo no ministro Gama e Silva, e cito o “Balaio” e digo que ele adorava “iê-iê-iê”, 44 anos separam o que foi escrito e o que ninguém saberia hoje.

PS2 – “Balaio” era uma boate da moda, frequentada por quem gostava da noite. E esse “iê-iê-iê”, música que tocava muito na época, hoje não teria sentido. Para completar, vejamos o perfil do ministro da In-Justiça da ditadura.

PS3 – Teve que ser demitido, inutilidade completa. Implorou aos generais de plantão, “estou ameaçado de morte, preciso ir para o exterior como embaixador”.

PS4 – Sabiam que não era verdade, mas não quiseram assumir a responsabilidade. E se fosse realmente assassinado? A repercussão seria muito grande.

PS5 – Perguntaram a ele, “o senhor tem preferência por algum país?” Gama e Silva respondeu imediatamente: “Portugal”.

PS6 – Foi nomeado, mas o SNI investigou por que a preferência por Portugal. Descobriram: não era PREFERÊNCIA e sim EXIGÊNCIA da sua condição de MONOGLOTA.

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