Escritor (ex-garimpeiro) sugere entregar à Embrapa a gestão da floresta amazônica

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Não existe garimpo na Amazônia sem autorização dos índios

Alexandre Mansur
Época

O romance “Selva! Amazônia Confidencial” é uma ficção do escritor João Celso Toledo Hungaro. Conta uma história envolvente de garimpo ilegal, picaretagem internacional e grandes amores. O cenário é a Amazônia brasileira, que ele conhece bem. João Celso, que assina como J.C. Toledo Hungaro, trabalhou no garimpo. Através da trama aparentemente inverossímil, ele apresenta um pouco do que conhece das riquezas, das belezas, dos mistérios e dos problemas da região. Sem ingenuidades nem estereótipos. É o que ele conta nesta entrevista.

De onde vem sua experiência na Amazônia?
Eu tinha 14 anos, logo que concluí o então chamado curso ginasial, no final da década de 50, quando fugi da casa dos meus pais por pura impaciência. Embarquei no primeiro ônibus que saía de uma agência do centro velho de São Paulo (a cidade de São Paulo não tinha nenhum terminal rodoviário ainda). Parti para uma viagem de vinte e quatro horas até o ponto final, Brusque, em Santa Catarina. De lá segui naturalmente a onda da ocupação da Amazônia pelos sulistas (os mesmos que estão sendo hoje expulsos), descendentes dos colonizadores europeus que seguiam em ônibus e caminhões até onde havia qualquer simulacro de estrada. Depois, de barcos pelos rios e aberturas de caminhos à base de enxada e facão. Na selva sobrevivi e trabalhei. Os garimpos surgiram naturalmente durante o processo de ocupação. Aí vieram as corridas do ouro, do diamante, da esmeralda nas fronteiras ao norte, além de metais estratégicos, como se sabe. O sucesso do agronegócio na Amazônia vem daí, desta colonização. O ouro e demais commodities enlaçaram-se com o sistema financeiro internacional através dos compradores indianos, chineses, canadenses e europeus. Daí a sofisticação empresarial e social desta Amazônia desconhecida.

O que é realidade e o que é ficção na trama?
Toda a ambientação de fundo está embasada em acontecimentos reais que partiram da minha experiência pessoal, de situações que testemunhei e de outras que ouvi pelas minhas andanças pela Amazônia. No entanto, todos os personagens, as referências geográficas e temporais dos fatos citados na narrativa são ficcionais.

Você se baseou em algum caso real?
Em muitos casos reais, ocorridos no cotidiano da Amazônia. Além de lendas da região e do mercado, que também foram incorporadas à narrativa.

O que a sua vida no garimpo ensinou?
Ensinou-me, mais que tudo, a autodisciplina como fator de sobrevivência; a perceber o outro, o diverso, as situações novas e adaptar-me a elas imediatamente. E a despir-me de qualquer preconceito social ou religioso, tornar-me agnóstico, o que um dia alguém que conheço chamou de “ateu cauteloso”.

Uma obra de ficção inspirada nos problemas da região pode ajudar a explicar a dinâmica da ocupação e da exploração da Amazônia?
Quando acabei o livro percebi que este era o tema central. Estou certo de que a obra conta a história dos polacos vindos dos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Descendentes das colônias alemãs, austríacas, ucranianas, italianas, suíças, polonesas, etc. Todos polacos para os povos amazônidas. Novos bandeirantes que constroem um Brasil maior, a potência que já é. Quanto às “classificadoras de risco”, “ONGs preservacionistas”, “missões religiosas”, faço várias breves menções ao longo da narrativa e, de certa forma, essas considerações também ajudam a explicar essa ocupação e exploração da floresta.

Você acha que a região está ficando mais ordenada?
As novas cidades da região amazônica estão consolidadas social e economicamente. A atividade privada investe muito na melhoria do equipamento urbano e pressiona os políticos para acompanhá-los na infraestrutura. Muitos prefeitos são grandes empresários nestas cidades. Aí funciona. Eles não querem passar vergonha no clube de pesca.

Qual seria a melhor forma de acabar com o garimpo ilegal?
Conceder licença às empresas de mineração com reconhecida capacidade, sem permitir a chantagem exercida por agentes dos órgãos regionais envolvidos, como acontece nos dias atuais. Modificando o sistema de permissão de uso do subsolo por pessoas que não são donos da terra e não têm vinculação nenhuma com o negócio. Registrar as áreas no Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) através de mapas e arranjos legais, exercendo severa e honesta vigilância com o cumprimento das normas ambientais. Mas eu não creio que isto um dia possa acontecer. É uma ilusão.

Faz sentido proibir empresas legalizadas de explorar recursos minerais em terras indígenas enquanto o garimpo ilegal continua nessas áreas?
Não, em absoluto. É prioritário o controle das imensas áreas indígenas por autoridades federais capacitadas e com poder efetivo. Autorizar mineradoras profissionais capazes e ambientalmente responsáveis será uma questão até de segurança nacional. Enfatizo que o garimpo ilegal funciona sempre com a cooptação do índio local, jamais à revelia deste. E funcionará sempre com sua cumplicidade. A pureza idealizada do índio precisa ser revista. O próprio conceito de quem é índio e quem não é precisa ser reavaliado com transparência e realismo, de indivíduo a indivíduo. Devemos remover o romantismo oitocentista do nosso olhar com relação à Amazônia e realizar uma ocupação científica dotada de prevenção ambiental racional, desapaixonada e ciente de que estamos tratando de 50% do território da nação.

Existe alguma forma de conter a exploração predatória dos recursos naturais em um território tão grande e pouco fiscalizado?
Enquanto for pouco e mal fiscalizado, absolutamente não.

Devemos temer interesses internacionais na nossa Amazônia?
Algumas expressões ditas por aí como verdade, como “a Amazônia é o pulmão do mundo”, “se cortar uma árvore, nunca mais cresce nada ali”, “patrimônio do planeta”, “só chove porque tem árvores”, definitivamente não foram inventadas por brasileiros. Acho que é fundamental estarmos atentos a esses interesses, sim. O problema é que alguns idiotas (úteis) nacionais ajudam em muito neste golpe.

Você pretende escrever mais ficção ambientada na região?
Ainda não sei. Estou terminando dois outros livros que de certa maneira estão ligados à Amazônia. Conheci o sistema financeiro e comercial internacional através do garimpo. A selva do hemisfério norte é bem mais incivilizada e implacável. Mas usa gravata e tem bem menos arvores. Só isso.”

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ALGUMAS REFLEXÕES PROPOSTAS PELO ESCRITOR

  1. A estrada transamazônica foi construída com máquinas pesadas que removeram todo o húmus acumulado por milênios para chegar à terra firme e vermelha. Compactaram esta terra para suportar o trânsito de grandes caminhões de carga pesada. Pois bem: passados menos de três anos, nos trechos pouco usados, a floresta retomou o espaço, fez desaparecer a estrada e incorporou árvores de grande porte no leito raspado e compactado.
  2. Milhões de árvores são derrubadas anualmente por… cupins. Assim que tombam, dezesseis mudas ao seu redor vão disputar o espaço para se alimentar de luz. Uma ou duas alcançarão a altura de sessenta metros. A tal da fotossíntese…
  3. A Malásia e o interior do estado de São Paulo produzem muitíssimo mais látex de qualidade superior, sem a menor queima, por coagulação induzida, do que meia dúzia de loucos politicamente corretos caminhando na mata e queimando rolos de látex no fogo.
  4. A floresta existe porque chove; não chove porque a floresta existe. São fatores climáticos globais que fazem da região uma das mais úmidas do planeta. Ou seja, será sempre uma floresta renovada, se explorada com inteligência e método. É só uma questão de capacidade tecnológica, transparência e honestidade.

Eu entregaria tudo à Embrapa, com dinheiro e poder de polícia. Já disse em uma conferência, inclusive, que um país que tem a Embrapa não precisa de bombas atômicas para mandar no planeta.

(Entrevista enviada por Francisco Vieira)

7 thoughts on “Escritor (ex-garimpeiro) sugere entregar à Embrapa a gestão da floresta amazônica

  1. Perfeito!
    “Eu entregaria tudo à Embrapa, com dinheiro e poder de polícia. Já disse em uma conferência, inclusive, que um país que tem a Embrapa não precisa de bombas atômicas para mandar no planeta.”

  2. A EMBRAPA é empresa séria e eficiente porém “Amazônia” é algo muito grande, representativo e complexo para chamar a EMBRAPA para cuidar. Alguém tem que cuidar, isso é fato! Mourão terá a chance de colocar seu none na história mais uma vez. Conhece o tema, é preparado e honesto. Vamos ver ate onde deixarão $$$$ ele chegar. O mundo quer a Amazônia.

  3. Excelente artigo e coincide com o óbvio ululante de que empresas grandes não farão mal à amazônia, pois elas são muito mais fáceis de fiscalizar, além de empregar mais e com isso evitar turba de invasores que , com razão buscam sobreviver, mas infelizmente de maneira a prejudicar o meio ambiente.

    Os índios estão certos: querem também ganhar dinheiro com suas terras, coisa que nos EUA já se faz isso desde o início do século XX, dando ao índio de lá uma condição financeira invejável.

  4. -Você tá pensando que índio é burro?

    “Polícia Federal investiga fraude em demarcação de terra indígena em área nobre de Brasília.
    Policiais federais cumprem, na manhã desta terça-feira (18), seis mandados judiciais no Santuário dos Pajés, no Distrito Federal. A operação investiga uma suposta fraude processual na demarcação do território.
    A área – considerada sagrada pelos indígenas – está localizada no Noroeste, área nobre de Brasília a 11 quilômetros do Congresso Nacional.”
    “Ao todo, 55 famílias indígenas se dividem em uma área de 35 hectares no setor Noroeste. ”

    https://g1.globo.com/df/distrito-federal/noticia/2020/02/18/policia-federal-investiga-fraude-em-demarcacao-de-terra-indigena-em-brasilia.ghtml

    “Com valor médio de R$ 7.879 por metro quadrado, Brasilia tem Noroeste como o bairro mais caro, a R$ 9.847, e Lago Norte como bairro mais barato, a R$ 7.990 por m².”

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