Espanha: socialistas perdem porque se afastaram do socialismo

Pedro do Coutto

Foi uma derrota fragorosa nas urnas de domingo, a maior da história, a que sofreu o Partido Socialista Espanhol do primeiro ministro José Zapatero, perdendo em onze das treze comunidades autônomas que equivalem a estados de nosso país. O Partido Popular, principal corrente conservadora de oposição, alcançou 37,5% dos votos contra 27,8 dados à legenda do governo. Os conservadores venceram em Madri e – surpresa total – em Barcelona, na Catalunha, que mesmo na ditadura do passado sempre se opôs ao general Franco.

Nas prefeituras em disputa a derrota do PSOE não foi menor. Reportagem de Luisa Belchior, correspondente da Folha de São Paulo, focalizou ampla e detalhadamente o tema na edição de segunda-feira 23. Clóvis Rossi, em coluna inserida no contexto da matéria comentou o desfecho, assinalando que o resultado pode levar o primeiro ministro a antecipar as eleições  previstas para 2012. Uma bela foto da multidão oposicionista concentrada na Porta do Sol, lugar central da capital espanhola, acrescenta cores e intensidade ao texto.

Que teria acontecido para uma virada tão intensa? Foi um desastre para o governo que vive um impasse econômico social. Legenda menor, como a Convergência e União, arrebatou o principal reduto socialista de Barcelona. Teria o socialismo perdido sua força, o seu potencial? Não é provável. A derrota, a meu ver, foi dos socialistas, porque, como assinalo no título, se afastaram do socialismo. Basta ler o artigo de Luisa Belchior, claro como água da fonte.

O total, 40% são jovens. O valor médio das aposentadorias é de 785 euros, um dos mais baixos da Europa, acrescenta a repórter. Cinco candidatos a postos eletivos foram processados. A corrupção segue altíssima, providências não são tomadas. O governo Zapatero não dá resposta às demandas sociais.

Promessas de campanhas anteriores se acumulam nos arquivos da omissão e portanto do esquecimento. Toda ação motiva uma reação. Se a inércia e a falta de solução aos desafios predominam, o eleitorado responde pelo voto. Nada mais natural. Aconteceu no Brasil exatamente o mesmo processo substitutivo causando a vitória de Luís Inácio Lula da Silva sobre José Serra em 2002. Seu grande eleitor? O fracasso da administração de Fernando Henrique no seu segundo mandato. Lula voou alto em matéria de popularidade em decorrência da política salarial que colocou em  prática, ao lado da flexibilização do crédito. Reelegeu-se em 2006 e assegurou a vitória de Dilma Roussef em 2010.

Na França, a falta de resposta de Nicolas Sarkozy aos anseios populares o está abatendo no rumo da reeleição. Pesquisa recente do Instituto IPSOS publicada no Estado de São Paulo, edição da semana passada, apontou 23 pontos para François Hollande (socialista) contra 22 de Sarkozy e 20% das intenções de voto para a direitista Marine Le Pen. O resultado é significativo, na minha opinião revela que o escândalo Dominique levou o PS a se fixar em outro candidato, mas não comprometeu a legenda. Nem a ideia para 2014.

Porque é generosa e popular a ideia do socialismo, da mesma forma que é forte a estrutura do centro conservador francês. Suficiente dizer, para comprovar a afirmação que faço, a realidade eleitoral francesa de 1965 a 2008. Nesses 43 anos, apenas uma única vez o Partido Socialista não levou a decisão para o segundo turno. Foi quando Lionel Jospin perdeu para Chirac e Jean Marie Le Pen, pai de Marine. Jospin havia sido ministro de Chirac. Como poderia ir às urnas contra o governo do qual ele próprio participou?Agora a situação é diversa. Quando estive na capital francesa, em março, o jornal Liberacion publicou pesquisa apontando rejeição de 71% contra Sarkozy. Mesmo com a gravidez agora de Carla Bruni, a recuperação é difícil.
Tenho a impressão que a rosa vermelha do PS vai florescer de novo em Paris.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *