Esperando por Lula, Dilma dividia o governo e o poder. Mas acontece que poder não se divide.

Pedro do Coutto

Ao aguardar a opinião do ex-presidente Lula para definir o destino do ministro Antonio Palocci, a presidente Dilma Rousseff deixava claro que aceitara tacitamente dividir o governo e o poder com seu antecessor. Reportagens primorosas de Maria Lima, Adriana Vasconcelos, Luiza Tomé e Cristiane Jungblut, em O Globo, e de Fernando Rodrigues na Folha de Sâo Paulo, edições de terça-feira, deixaram claro a dualidade que, sem dúvida, abala o comando político da vitoriosa nas urnas de outubro.

Isso porque, pesando-se serenamente os fatos do processo Palocci, chega-se à conclusão inevitável: o desgaste que estava predominando no Planalto não atingia o antecessor, mas a sucessora. Assim, cabia a ela, somente a ela, decidir os rumos de seu governo. Até porque Lula constitui uma reserva, não só do PT, mas da aliança PT-PMDB, para 2014. Olhando-se o horizonte com as lentes de hoje, não se encontra qualquer outro nome, nem na primeira legenda, tampouco na segunda, capaz de se justapor ao vencedor de 2002, 2006 e na realidade também 2010. Fica para a oposição escolher entre Aécio Neves ou novamente José Serra. Pode ser – estamos falando de política – que o caminho se altere amanhã, porém hoje a perspectiva não ilumina qualquer outra opção. Mas estas são outras questões.

Condicionando sua definição ao conselho que Lula parecia estar demorando a fornecer, Dilma não reduzia seu campo de ação apenas em relação ao PT, mas também ampliava  sua dependência do PMDB. Ela parecia não ter analisado o problema com a profundidade que ele merece. Enquanto Palocci permanecesse à frente da Casa Civil, a presidente dependeria cada vez mais de José Sarney e principalmente do vice Michel Temer. Claro. Porque a qualquer momento a dissidência pode surgir e fornecer as assinaturas necessárias à convocação de Palocci ou à abertura de uma CPI contra Palocci, como já estava acontecendo.

Com tal movimento de translação, o comando  do Palácio do Planalto se desequilibrava. E abria as cortinas do palco para o fortalecimento de Michel Temer, inclusive porque foi este quem manteve um forte atrito com Palocci quando da aprovação do Código Florestal pela Câmara, contra a vontade da presidente da República.

Sob a ótica estritamente partidária, a condicionante criada por Dilma Rousseff de ouvir a opinião de Lula, foi ótima solução para o PMDB. A participação do partido no Executivo tende a se ampliar e não reduzir. Na minha impressão, Michel Temer e José Sarney iriam até articular o prolongamento do impasse. Quanto mais demorasse, melhor para o número dois da aliança que garante arrasadora maioria parlamentar a Dilma no Congresso.

O equilíbrio relativo dessa forma se recompõe, mas não a imagem pública de Palocci, que se tornou muito ruim. O Procurador Geral, Roberto Gurgel, mandou arquivar o caso. Foi uma solução difícil para ele, sobretudo porque, mais votado na lista dos candidatos do Ministério Público, sua recondução depende, em última instância, de um decreto presidencial. Ele sabe bem, aliás como sabemos todos, que ninguém na vida pode ser ao mesmo tempo juiz e parte. Roberto Gurgel deveria, isso sim, dar-se como impedido. Não o fez. Mas nem por isso diluiu a atmosfera de constrangimento que está reduzindo a atuação do governo e até dividindo aliados, inclusive dos próprios quadros do PT.

Um enigma, principalmente quanto à forma, aguardava e rondava o desfecho. Com a dúvida hamletiana, Dilma Rousseff dividia o poder. E sobretudo na política, o poder não se divide.

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