Essa nação corrompida

Carlos Chagas

Em quatro anos, o então deputado e ex-ministro da Fazenda, Antônio Palocci, prestou tão ricas consultorias que pode comprar um apartamento de 6,6 milhões de reais e um conjunto de escritórios valendo 800 mil reais. Supõe-se que  tenha faturado  mais, porque nenhum empresário vitorioso como ele colocaria todos os ovos  numa cesta só.   No mínimo,  faturou uns 10 milhões, mas vale ficar apenas nos números conhecidos. 

Como deputado, recebeu no máximo 13 mil reais mensais. São 156 mil por ano, 624 mil  durante o mandato, se não tiver tido despesas de espécie alguma para manter-se. Por baixo, o  total de rendimentos dá 7 milhões e 424 mil reais no período.  Claro que  tem banqueiro, empreiteiro e  especulador  ganhando muito mais. Como também  não é proibido que parlamentares mantenham atividades empresariais.
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O que espanta é um ex e atual ministro do Partido dos Trabalhadores  ganhar, de barato, 1 milhão e 856 mil reais  por ano, ou seja,  154 mil reais por mês. Enquanto isso um trabalhador recebe 545 reais nos mesmos trinta dias.
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A palavra de ordem no governo é de  que ex-ministros valem muito no  mercado. Pela experiência, a capacidade, as informações privilegiadas de que dispõem e, em especial, a influência e a intimidade com antigos companheiros ainda ministros. Todas essas qualidades levam empresas privadas a buscar  consultá-los, porque elas, afinal, precisam continuar  ampliando seus negócios. Em especial se negociam com o governo, executando obras e prestando serviços.
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Fecha-se o círculo. Somos uma nação corrompida, mesmo sem a fulanização de corruptos e corruptores, geralmente acobertados pela lei feita por eles mesmo.�
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Nem é preciso lembrar que o ex-presidente Lula cobra 200 mil dólares por palestra,  realizando três ou quatro por mês, valendo o mesmo para Fernando Henrique Cardoso, só que recebendo a metade, para horror de seu ego. Tais faturamentos são eticamente  inexplicáveis porque  ofendem  a classe média que um procura seduzir e mais ainda  o trabalhador, que elevou o outro ao poder.
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O mal, assim, não está nas consultorias oferecidas por Palocci, nem nas conferências pronunciadas pelo torneiro-mecânico ou pelo sociólogo. Está no sistema que nos assola. Nessa falsa livre concorrência que privilegia uns poucos e maltrata o resto. Com o PT acontece a mesma coisa acontecida com o PSDB e acontecerá, com todo o respeito, até com o Psol. Enquanto prevalecer esse modelo perverso, adiantará muito pouco a alternância no poder.   São e serão todos iguais.

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A MESA DOS QUIXOTES

Quarta-feira o senador Jarbas Vasconcelos ofereceu jantar aos inconformados do PMDB. Pedro Simon, Roberto Requião, Luiz Henrique, Eduardo Braga, Ricardo Ferraço, Cacildo Maldaner, Vital do Rego  e outros reuniram-se para lamentar a ditadura exercida no  Senado por José Sarney e Renan Calheiros. Menos pela   indicação de  apenas  apadrinhados deles  para cargos no governo e nas empresas públicas, mais pela transformação do partido numa agência de empregos. O preço dessa evidência tem sido o afastamento do PMDB dos grandes debates nacionais. E dos pequenos,  também.

Na atual Legislatura prevalece  o fisiologismo  como rumo principal ditado pelos seus dirigentes, bem como o afastamento sistemático  de quantos discordam dessa estratégia. À maneira de D. Quixote, os dissidentes continuarão investindo contra os  moinhos de vento.

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TOMA LÁ, DÁ CÁ

Pode acontecer uma inusitada aliança na Câmara: a bancada ruralista, mesmo aparentemente vitoriosa na futura  votação do Código Florestal, gostaria de contar com o maior número possível de votos da bancada evangélica, podendo, assim, no reverso da medalha,  apoiar a corrente infensa a recusar a  criminalização da homofobia. 

É no interior que mais se reage contra a nova visão do homossexualismo, podendo os ruralistas aliar-se aos evangélicos e, nessa salada mista, também ao deputado Jair Bolsonaro.  Nesse caso,  os ambientalistas se uniriam  aos partidários da supressão de  restrições aos homossexuais. Trata-se de uma demonstração a mais da falência dos partidos.

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ACOMODAÇÃO

Salvo inusitado, José Serra desistiu de disputar a presidência do PSDB, ciente de que Sérgio Guerra será reeleito na convenção nacional do dia 28. Mesmo assim, joga com uma carta poderosa, a de poder examinar a hipótese de candidatar-se à prefeitura de São Paulo, ano que vem. Nesse caso, cresceria seu cacife junto ao governador Geraldo Alckmin.

A alternativa, para Serra, estará na criação de um conselho político no âmbito da Executiva Nacional do partido,  capaz de limitar os espaços de Sérgio Guerra e, por tabela, de Aécio Neves. É complicada a equação no ninho dos tucanos, mas uma coisa parece  certa: unidade,  mesmo, só depois de escolhido o candidato presidencial para 2014.

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