Esso, de tanta presença na política brasileira, dá adeus às armas

Pedro do Coutto

Com base na excelente reportagem de Lino Rodrigues, O Globo de terça-feira, vemos todos que a Esso, uma das maiores empresas do mundo, e de tanta presença não só no plano comercial, mas no jornalismo e na própria política brasileira, retira sua bandeira do país. Exatamente setenta anos depois de tê-la fincado, treze anos antes  da criação da Petrobrás, quando ainda se discutia se a exploração do petróleo deveria ser estatal ou aberto às duas grandes empresas do setor: a Esso e a Shell.

Agora, para citar um romance famoso de Hemingway, também título de filme de George Cukor, dá adeus às armas. Não haverá mais postos Esso para abastecermos nossos carros, nem propaganda da empresa na televisão, tampouco o Prêmio Esso de Jornalismo que, ao longo de mais de 50 anos, revelou e fez justiça a tantos talentos.

O Repórter Esso, na Rádio Nacional, imortalizado por Heron Domingues, já estava fora do ar desde 68. O Ato Institucional número 5, editado pela ditadura militar, fez com que a empresa, por falta de liberdade de noticiar, se desinteressasse do patrocínio.

A Shell e a Cosan, nova sigla que já havia absorvido a Esso Brasileira de Petróleo em 2008, devem – penso eu – dar um novo nome ao prêmio, não o deixando desaparecer na memória do tempo. Foi um serviço importante prestado, não somente aos veículos de informação, mas sobretudo à opinião pública do país. As premiações nunca tiveram conotação política, diga-se a bem da verdade. Mas a atuação política da empresa no Brasil é outra história.

Fortemente contrária – como seria natural – à estatização do subsolo, onde dormia o petróleo brasileiro, empenhou-se pela privatização. Lutava, muito mais do que a Shell, por obter concessões de prospecção. Naquele tempo não havia surgido a difícil tecnologia voltada para explorar águas marítimas profundas, como ocorre hoje com a Britsh Petrolium, no Mar do Norte, Noruega, e com a Petrobrás na Bacia de Campos. Em nosso país, encontra-se também atuando a americana Chevron, uma das sete famosas irmãs do setor. A Esso uma delas. Continua a ser, nos EUA com o nome Exxon. A diferença da Exxon para Esso é pequena.

No Brasil é grande a partir de 1941, como assinala Lino Rodrigues. O repórter me conduziu a 7 de dezembro daquele ano, por volta das 16 horas, quando a transmissão de um jogo entre Botafogo e Madureira foi interrompida exatamente para entrar o Repórter Esso em edição extraordinária. O Japão acabava de bombardear a base de Pearl Harbour, no Havaí. Emocionado e indignado, o presidente Franklin Roosevelt entrou no ar direto em centenas de emissoras e anunciou a entrada dos EUA na guerra contra o eixo Alemanha de Hitler, Itália de Mussolini, Japão de Hiroito.

 Heron Domingues, naquela tarde de domingo, comoveu o país. Quatorze anos depois, já na TV Tupi, na voz de Gontijo Teodoro, o Repórter Esso destacava a demissão do general Teixeira Lott do Ministério do Exército. Pelo presidente interino Carlos Luz.

Gontijo Teodoro, que não está entre nós, destacou que “depois de esperar por duas horas e quarenta minutos para ser recebido no Palácio do Catete, Lott foi demitido da pasta”. A forma de narrar adotada pelo apresentador, vejo agora, há de ter sido importante para acentuar a reação militar que ocorreu para garantir a posse de JK, legitimamente eleito nas urnas de outubro.

Um outro lado da questão. A Esso possivelmente estava por trás da campanha contra Vargas e também ao lado de outra campanha, a de Carlos Lacerda, contra a posse de JK. Lacerda falava diariamente na Rádio Globo e tinha apoio do próprio O Globo, que agora publica a reportagem sobre a saída do nome Esso do palco da comunicação brasileira. Sete décadas depois. Como dizia seu slogan, foi testemunha ocular da história. E também personagem dela nas sombras dos bastidores.

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