Esta nação corrompida

Carlos Chagas

Sempre foi assim? Com certeza. Nem vale à pena, hoje, descer aos meandros das duas ditaduras mais recentes que nos assolaram, a do Estado Novo, de 1937 a 1945, e a Militar, de 1964 a 1985. Horrores se sucederam nos dois períodos, do massacre das estruturas democráticas aos crimes praticados por agentes do poder público contra quantos se insurgiam diante da distorção dos valores devidos a uma sociedade iludida pelo sonho de tornar-se dona dos seus próprios destinos. Fica para outro dia abordar a abominável violência praticada contra o ser humano e contra as instituições duramente construídas através dos anos, nessas duas fases da vida nacional.

Importa, acima e além dos passados regimes geridos pela exceção, focalizar o nosso comportamento em tempos ditos normais, à maneira do atual, que os detentores do poder exaltam como ímpar em nossa História, 28 anos de democracia, jamais registrados desde a proclamação da República…

Vamos começar de baixo. Qual o pintor de paredes que, contratado para reformar uma casa, deixa de misturar mais água na tinta, para o serviço precisar ser refeito muito antes do que deveria valer o preço cobrado pela pintura? Qual o mecânico que, contratado para consertar um motor, supre a deficiência à vista, mas deixa outra encoberta, ou até a engatilha, para o freguês voltar no mês seguinte? Qual o operário que, podendo valer-se de um atestado médico, mesmo sem corresponder a uma doença real, deixa de apresentá-lo para gozar de um ócio imerecido?

O “seu” Manoel ali do açougue da esquina bota osso enrustido na balança, em vez de carne, para tapear a dona de casa. O dono do supermercado põe 900 gramas de arroz num plástico que anuncia conter um quilo. Ele e o seu fornecedor, é claro.

Subindo sempre, um banco apregoa lucros fantásticos para o correntista se ele investir num de seus mirabolantes planos, mas deixa de alertá-lo para impostos e até comissões ocultas no sorriso de seus vendedores. Uma empreiteira candidata-se a obras públicas oferecendo preços mais baixos, ainda que depois de ganhar a concorrência, imponha reajustes capazes de tornar seu trabalho muito mais caro do que os vigentes no mercado.

Claro que o funcionário ou o partido político que aprovaram o contrato recebem presentes e propinas bem acima de seus vencimentos ou contribuições. Quando se trata dos grandes servidores públicos, que por razões variadas precisaram deixar o cargo, não resistem à tentação de tornarem-se consultores das empresas que privilegiaram. Ou até programaram toda a equação.

No caso dos partidos, se conseguem galgar o poder, esquecem propostas éticas dos tempos de oposição para transformar-se em quadrilhas empenhadas no enriquecimento de seus dirigentes.

O deputado aquinhoado com vultosas doações para sua campanha eleitoral jamais deixará de aprovar projetos favoráveis ao doador, mesmo duvidosos. Quantos juízes arquivam processos ou decidem de acordo com os interesses do escritório de advocacia que, por coincidência, pertence a seus filhos ou sócios antigos e futuros?

Mas tem mais. Qual a organização religiosa que não recolhe fortunas ameaçando os incautos com o fogo do inferno ou prometendo o passaporte para o paraíso? Qual o meio de comunicação, grande ou pequeno, que não subordina a notícia aos interesses de seu proprietário? Ou à inclinação política e ideológica de seus artífices?

Longe de ser exceções, tornaram-se regra os toscos exemplos acima referidos. Verticalizando as situações, não escapa ninguém, tanto faz se nas democracias ou nas ditaduras, nos trópicos ou nas estepes. A corrupção deixou de ser periférica para tornar-se parte obrigatória nas entranhas de todos nós. O pior é que não tem saída. Somos uma nação corrompida.

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