Estado Islâmico é uma ameaça cada vez mais forte

Jihadistas já formam uma frente que atua em vários países

Felipe Benjamin
O Globo

Especialista em terrorismo e autora do recém-lançado “A Fênix Islamista: o Estado Islâmico e a reconfiguração do Oriente Médio” (Ed. Bertrand Brasil), a italiana Loretta Napoleoni afirma que o Estado Islâmico (EI) está em fase de expansão, aglutinando outros grupos jihadistas sob sua influência.

Quase um ano se passou desde o anúncio da criação do califado na Síria e no Iraque. Já é possível ter uma ideia do quão grande e poderoso o Estado Islâmico pode ficar nos próximos anos?

Sim, o que vemos agora é a formação de uma frente global no mundo muçulmano com o grupos como o Boko Haram, os grupos líbios e parte da al-Qaeda na Península Arábica jurando aliança ao Estado Islâmico. Acho que nos próximos meses teremos uma expansão dessa frente para o Cáucaso, a Ásia Central, países como o Afeganistão e o Paquistão, e o Sudeste Asiático. As características dessa frente não seriam necessariamente ligadas ao salafismo radical, mas sim uma forma do Estado Islâmico se apresentar como um elemento anti-imperialista contra as oligarquias corruptas do mundo muçulmano e os poderes estrangeiros que os apoiam.

O Estado Islâmico recebeu apoio de grupos de diversas partes do mundo como a Nigéria, o Iêmen e as Filipinas. Esse apoio fortalece a posição do grupo na Síria e no Iraque ou podemos ver o início de “colônias do califado” se espalhando pelo planeta?

A aliança dos grupos funciona como uma espécie de federação. O Boko Haram não vai receber ordens diretas do califa, mas eles estarão ligados ideologicamente, combinarão estratégias e estarão em constante comunicação, ainda que definitivamente não estejamos falando dos Estados Unidos do Estado Islâmico. A meta é nos assustar, já que somos o inimigo comum, e essas alianças fazem o Estado Islâmico parecer muito mais forte do que ele realmente é. Será uma federação sob o nome do califado, mas na qual todas os envolvidos serão independentes, até porque qualquer um pode abraçar a bandeira do grupo.

O Estado Islâmico recebeu um enorme contingente de jihadistas europeus. Como esses combatentes, que cresceram em sociedades com valores ocidentais, podem influenciar a formação do novo Estado na Síria e no Iraque?

Os jihadistas europeus saem de um cenário de enorme marginalização e se tornam importantes no combate, mas é isso o que eles fazem: combater. Há uma clara divisão de trabalho na estrutura do Estado Islâmico. Os estrangeiros estão envolvidos na luta e nas negociações de reféns ocidentais, mas não têm poder de comando. A administração, se é que podemos chamá-la assim, está toda nas mãos de iraquianos, e a parte burocrática do Estado Islâmico está toda nas mãos de locais. Nenhum estrangeiro vai impactar as políticas do grupo.

Ao contrário da al-Qaeda, que realizava atentados em países ocidentais, o Estado Islâmico tem se mostrado menos atuante no chamado “terrorismo clássico”, ainda que ataques de “lobos solitários” aliados ao grupo tenham acontecido no Canadá, na França e na Tunísia. Até que ponto o Estado Islâmico é uma verdeira ameaça para a segurança dos países ocidentais?

O Estado Islâmico em si não é uma ameaça. Não estamos falando da possibilidade de invasões em países ocidentais. A ameaça real são mais ataques como esses, que o grupo saberá explorar, como aconteceu na Tunísia, onde os atiradores tinham turistas estrangeiros como alvos. A narrativa apresentada pelos políticos é muito semelhante à usada pelo governo britânico contra o IRA nos anos 1970. Havia centenas de pessoas morrendo todos os anos, é verdade, mas a percepção que o Reino Unido tinha na época e que o Ocidente tem hoje, de que as estruturas políticas estão ameaçadas, é errada.

No livro, o Estado Islâmico é apresentado como um grupo capaz de equilibrar a violência e a barbárie com programas assistencialistas e um cuidado pela infraestrutura dos territórios dominados. Como acontece esse equilíbrio?

Há perseguição contra as minorias, mas não chamaria a relação que o Estado Islâmico mantém hoje com a população sob seu controle, de opressão, uma vez que são sunitas lidando com sunitas ou membros de minorias que se converteram. É uma população muito homogênea, e isso facilita o controle sobre o território. Há muito envolvimento dos líderes tribais locais, e sem a permissão desses líderes, o Estado Islâmico não teria chegado a lugar nenhum. Os líderes tribais perceberam que poderiam se beneficiar da ascensão do Estado Islâmico e foram muito eficazes ao estabelecer sua liderança junto ao grupo.

Em “A Fênix Islamista”, você destaca a habilidade do Estado Islâmico de se tornar independente de seus financiadores ao assumir o controle da região. É possível dizer que a guerra contra o grupo não é apenas militar, mas também econômica?

Não, porque agora já é tarde demais para uma batalha econômica. Cometemos erros gravíssimos. Deveríamos estar atentos ao que estava acontecendo na Síria e nos países do Golfo Pérsico, mas não prestamos atenção suficiente. O Estado Islâmico tem o controle do petróleo e do contrabando nas mãos. Agora, a única maneira de derrotá-los economicamente seria arrasar o território, mas para isso seria necessário atingir a população civil, o que de certa forma já é o que estamos fazendo agora. No entanto, essa nunca poderia ser uma política oficial.

Os curdos da Síria acusam a Turquia de apoiar o Estado Islâmico. A mesma acusação foi feita pelo ex-presidente iraquiano Nouri al-Maliki com relação aos sauditas, e o secretário americano de Estado, John Kerry, afirmou que as tropas de Assad evitaram enfrentar o grupo para enfraquecer o Exército Livre da Síria. Quem realmente está apoiando o Estado Islâmico?

É um movimento jihadista global. Não há nenhum poder estabelecido patrocinando o Estado Islâmico e o motivo para isso é simples: o grupo é uma ameaça a todos eles. O califa é encarado como um descendente direto de Maomé, e acima dele só estariam Alá e seu profeta. Apesar das acusações, o clã dos Saud sabe que, uma vez estabelecido, o califado não se relacionará com ninguém em níveis de igualdade. Certamente há pessoas poderosas que acreditam que possam um dia se beneficiar com o crescimento do Estado Islâmico, mas nenhuma delas representa um governo.

O fato do combate ao Estado Islâmico ter colocado lado a lado inimigos como os Estados Unidos e o Irã pode trazer melhorias a essas relações?

Acho que negociar com o Irã neste caso foi um enorme erro. Não há nenhum estratégia de longo prazo e trazer os iranianos para o combate é uma medida muito perigosa. Esse é o tipo de política externa que nos levou à situação que vivemos hoje. O que você acha que acontecerá quando as forças iranianas se instalarem no Iraque? Elas irão galvanizar toda a resistência sunita, e fortalecer o Estado Islâmico fazendo com que a situação no Norte do Iraque se degenere em uma nova guerra.

O Estado Islâmico não precisa que Assad perca a guerra. Ele já provou que pode se estabelecer sozinho, e isso é um exemplo do fracasso de liderança global do Ocidente. Todos seguem os Estados Unidos, e os países europeus não parecem ter noção do que estão fazendo.

8 thoughts on “Estado Islâmico é uma ameaça cada vez mais forte

  1. A gerra no Iraque, na Líbia e na Síria, teve início com patrocínio
    do EUA para atender seus interesses imperialistas, isso fez surgir
    um monstro: o chamado Estado Islâmico.

  2. Ainda sobre a questão da religião: http://www.aleteia.org/pt/religiao/artigo/lider-hinduista-ameaca-mais-ataques-contra-a-igreja-na-india-se-as-conversoes-continuarem-5874509034815488

    Indubitavelmente condenáveis as atrocidades cometidas pelos extremistas, mas as medidas de protecionismo da cultura local – também defendidas na Noruega, onde só permitem a construção de uma mesquita se for permitida a construção de uma igreja cristã no país de maioria islâmica do solicitante – estas devem ser estimuladas, a fim de que não se estabeleça o totalitarismo religioso de uma determinada crença no país que for.

  3. Quem está apoiando o Estado Islâmico, Sr. Felipe Benjamin? Parece que a autora italiana se esqueceu de investigar quem está comprando o petróleo que eles roubam no Iraque e vendem a preços abaixo do mercado. Só para começar. O estado islâmico NÃO colocou lado a lado inimigos como os EUA e Irã, pois as sanções aplicadas ao Iran pelo Conselho de Segurança da ONU foram impostas há 7 anos, anteriormente à criação do chamado DAISH ou ISIL e também à guerra civil síria. Desde então, EUA e IRAN negociam em foros internacionais. Os únicos contrários às negociações são Israel e seus lobistas sionistas da AIPAC nos EUA que compram parlamentares, como esses mais de 40 senadores que redigiram recentemente uma carta endereçada ao Iran, se elegeram às custas da AIPAC e querem forçar uma guerra contrária aos interesses dos EUA. As relações entre o Iraque e o Irã são de vizinhos que professam majoritariamente a mesma seita religiosa muçulmana e que se movimentam nas fronteiras para grandes peregrinações religiosas em seus respectivos lugares santos. Esse relacionamento antecede o descobrimento do Brasil e só sofreu interrupção a partir da queda do Xá e com a guerra de Saddan contra o Iran patrocinada por Bush pai e seu aliado saudita. Os xiitas voluntários iraquianos poderão muito bem dar conta dos terroristas do Estado Islâmico sem tropas iranianas em seu território, como no momento estão fazendo com êxito em Tikrit e em Mosul, ombro a ombro com os Peshmergas curdos iraquianos que os EUA se negam a armar por causa dos turcos, da mesma maneira que a resistência xiita libanesa pode hoje dar conta no sul do Líbano de qualquer agressão israelense ao seu território e até vir a expulsá-los definitivamente das fazendas de Sheba que ocupam ilegalmente. Os governantes e principalmente o povo europeu têm noção de tudo isso, mas são vassalos dos EUA e seus governos são influenciados por sionistas, que até impõem aprovação de lei que criminaliza liberdade de expressão. São obrigados a contragosto a seguirem de cabeças baixas o cerco militar norte americano à Russia, como integrantes sem força da OTAN, e aceitarem CALADOS a repressão colonialista vergonhosa de Israel ao povo palestino.

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