Estão sendo exibidas na TV duas publicidades que são indevidas e que deveriam sair do ar

Jorge Béja

Os leitores já assistiram na televisão ao vídeo em que a Agência de Refugiados da ONU pede a contribuição de 1 real por dia para cuidar de crianças abandonadas, enfermas, desnutridas,  pobres e sem ninguém por elas,  em todos os cantões deste mundo? Certamente, sim. As tevês exibem sempre, todos os dias, repetida e incansavelmente.

É uma campanha justa e devida? É claro que sim. Precisamos ajudar. E a instituição (ACNUR) da Organização das Nações Unidas (ONU) precisa muito de nós. De todos nós. De toda a Humanidade. Tanto quanto uma outra organização chamada Médicos Sem Fronteiras, que conheço de perto e que presta serviço de atendimento médico inestimável onde existem guerras, conflitos, vitimados, fome, desnutrição… Desgraças, enfim.

MOSTRAR A REALIDADE – Sabemos que as campanhas publicitárias, para tocar nossos corações e ter a ajuda que tanto merecem, as campanhas precisam mostrar as situações que seus agentes enfrentam, as pessoas que as instituições delas cuidam, os ambientes, seus médicos, corpos de enfermagem… os lugares e as pessoas vítimas das tragédias.

Precisa mostrar a realidade. Mas não precisa expor a desgraça que sofre uma criança, expondo-a de corpo inteiro, em lágrimas, em sofrimento, relatando o que aconteceu na sua vida.

É o caso na menina Anna. Uma criança negra que perdeu os pais e restou sozinha no mundo. Anna é filmada chorando. Anna e sua história nos fazem chorar também. Anna é traumatizada. Um trauma que nunca ais se apagará na sua vida. Olhar triste, expressão de dor, semblante fechado…Em Anna, tudo é dolorido. Tudo é sofrimento.

HÁ ALGO ERRADO – Posso estar enganado. Mas a exposição, no Brasil e no mundo, da desgraça que se abateu sobre a vida de Anna não era e não é para ser mostrada, nem contada, ainda que o objetivo, a causa, a finalidade da exposição sejam nobres, coletivas e benéficas para todas as “Annas” que aparecem no mesmo vídeo publicitário, ou que não aparecem mas que se encontram na mesma situação da menina.

Aqui no Brasil a publicidade da ACNUR da ONU, no meu sentir, fere o artigo 17 do Estatuto da Criança e Do Adolescente que preconiza, sem exceção alguma, “que todas as crianças e os adolescentes têm o integral direito à sua inviolabilidade física, psíquica e moral, abrangendo a preservação da imagem, da identidade, da autonomia, dos valores, idéias e crenças, dos espaços e objetos pessoais”.

INVIOLABILIDADE – São justamente as garantias à inviolabilidade psíquica, à preservação da imagem, da identidade e dos valores que Anna possui que estão sendo desprotegidas com a exposição da imagem, do nome e da desgraça que a vida reservou para a pequena Anna, desgraça que viola seus valores que são inerentes a qualquer pessoa humana, mormente os infantes, os infantes expostos, as crianças desvalidas, sofridas, rigorosamente sozinhas no mundo.

Crianças mais mortas do que vivas. Crianças que não podem ser alvos de exposição pública, porque são crianças, não têm o discernimento dos adultos, suas vontades próprias não prevalecem, são moribundas. Que sejam criativos.

E criatividade é o que não falta aos agentes e agências publicitárias, mormente as brasileiras, as melhores do mundo. Mas não façam a pequena Anna sofrer mais do que ela sofre. A vida lhe causou um trauma. E ao ter seu trauma exposto para milhões e milhões de pessoas, é um outro trauma que nunca se apagará.

PLANO DE SAÚDE – Já que estamos falando desta campanha publicitária que fere os direitos da pequena Anna, vamos a uma outra, nada ética e nada oportuna.

Um plano de saúde faz sua propaganda. Até aí, nada de mais. O capitalismo é assim.  Mas nesta época de pandemia, não. Não é para plano de saúde veicular propaganda alguma. Ainda mais “felicitando seus médicos, hospitais, centros médicos e corpos clínicos pelo atendimento que presta aos clientes vitimados pelo Covid-19”!!. Ora, meu Deus, campanha para felicitar, aplaudir, exaltar o que é para ser obrigação e dever comezinhos?. 

Nobreza e solidariedade seriam se o tal plano divulgasse que seus hospitais estão de portas abertas para seus filiados ou não filiados. Para atender a todos os vitimados pela pandemia. Para quem precisar. Mas infelizmente a publicidade não é assim, quando assim é que deveria ser. Mas assim não é, por ensejar angariar clientela numa época de flagelo que atinge a Humanidade. 

4 thoughts on “Estão sendo exibidas na TV duas publicidades que são indevidas e que deveriam sair do ar

  1. Como tem sido rotineiro, o excelso dr.Béja traz a lume um tema delicado e, do modo como colocou, com inteligência, perspicácia, sensibilidade e ampla visão do sofrimento humano, o articulista aborda a propaganda que seria a antítese da veiculação de produtos que se colocaria para vender!

    Em outras palavras:
    Se, para comercializar qualquer mercadoria esta precisa se mostrar útil, agradável, bonita em certos casos, elegante, prática, adequada ao que se tem em mente, logo, um sentimento bom com relação à aquisição, precisamos ter satisfação nessa despesa.

    Andam de mãos dadas – então a antítese – o repúdio de uma propaganda mal feita, mal dirigida, que desagrada, que jamais alguém seria comprador daquele produto oferecido, mesmo veiculado na mídia com pompa e circunstância.

    Evidente que não está a venda o suplício, a dor, o sofrimento, o abandono, os males ocasionados pelo capitalismo desenfreado e desumano, todavia, as duas propagandas que o nosso brilhante articulista gostaria que fossem retiradas da imprensa, mostram com extrema crueldade o descaso da espécie humana por ela mesma!

    As imagens mostram, indiscutivelmente, que a humanidade se transformou em algoz de si mesma.
    Não importa se vemos crianças, mulheres, idosos, adultos, penando, desesperados.
    Afinal das contas, o problema não é meu, pensa a maioria!

    Dessa forma, com cada um de nós se eximindo de responsabilidades inerentes ao ser humano – no mínimo a compaixão e a solidariedade, a caridade e a preservação da espécie -, atingimos o inacreditável patamar de insensibilidade, de desprezo pelo próximo, de distanciamento incalculável do sofrimento alheio, mesmo sendo crianças mostradas nas telas de TV mundo afora em cenas degradantes e pungentes.

    As propagandas foram subliminares, pois não desejam mostrar a dor, a vida depreciada de crianças, a miséria e a pobreza, não.
    O recado aborda a máquina que estamos nos transformando;
    A essência da mensagem, propositadamente sub-reptícia, tenta nos fazer ver que, se existem tais sofrimentos indescritíveis, somos as causas e, ao mesmo tempo, os efeitos desses padecimentos de seres humanos!

    Tenho insistido em demasia que o Deus atual, cultuado e adorado, é o deus mercado.
    O dinheiro passou a ser o norte para muitos de nós.
    O lucro, a ganância, o apetite voraz por ganhos nababescos, privilégios, regalias, mordomias, aumentam as distâncias entre as pessoas, ocasionando que essas desgraças demonstradas pouco ou nada surtirão resultados desejados, no caso, recursos pecuniários para ajudar os necessitados e carentes.

    A ideia é mostrar o que fizemos de mal para nós mesmos;
    A intenção é nos fazer constatar que, na razão direta do nosso desdém pelos que clamam por comida, a felicidade, a alegria, a satisfação, jamais serão encontradas no dinheiro, no capital, no patrimônio, muito menos na aplicação de fortunas gerando fortunas, e não o trabalho gerando capital.

    As consequências são estas:
    Trilhões de dólares depositados em paraísos fiscais ou nas mãos de poderosos investidores capitalistas – que aumentam seus bens jogando nas ações das Bolsas de Valores -, e o ser humano – a maioria deles -, sem ter o que comer, doente, sem teto, sem roupa, pés descalços, e vítima ainda de revoluções internas ou religiosas ou ideológicas.

    O mundo capitalista não pode afirmar que o caminho escolhido é o correto, mas não pode mesmo!
    Igualmente estão errados o socialismo e o comunismo, que percorreram estradas matando milhões de pessoas por onde transitaram, e ainda querem percorrer.
    A propagandas nos mostram tais erros clamorosos de todos nós:
    Esquerda, direita, socialista, comunista, capitalista, ateu ou não, budista ou espiritualista, judeu ou muçulmano, politeísta ou monoteísta, cristão ou xintoísta … não vem ao caso a religião, a política, a ideologia, as questões sociais, pelo fato de que está sendo jogado em nossas caras que somos os culpados pelas crianças nessas condições, que deveriam nos cortam o coração ao vê-las nesse estado, porém não nos importamos mais.

    Se a empresa que veicula essas propagandas utilizar o pedido do nosso dr.Béja, e retirá-las da mídia, ela deveria voltar com outra campanha muito mais poderosa. Apenas e tão somente dizeres, constando:

    “Imagens mostradas anteriormente não tinham como intenção chocar as pessoas.
    O objetivo era mostrar ao mundo como estamos agindo com elas!
    Se continuarmos com esse desprezo pelo próximo – então um mundo vazio, sem nada e ninguém, um planeta qualquer do nosso sistema solar sem vida ( surge a imagem do desalento, do inóspito).
    Agora, se queremos continuar vivos, e aproveitar o que este belo planeta nos oferece – imagens esfuziantes da natureza, das pessoas rindo, passeando, andando juntas, saudáveis, praticando esportes, beijando-se -, precisamos agir e impedir que continuem sofrendo!”

    Recado final da propaganda ( a minha, claro, dr.Béja):
    “Ou resgatamos nossos sentimentos humanos – a mãe feliz com o seu filho nos braços- ou poderemos desde já nos conscientizar que somos iguais aos predadores – imagens de hienas, tigres, leões, águias, devorando suas presas vivas!”

    Assim sendo, meus repetitivos aplausos ao nosso excelso advogado e dileto amigo, nesse blog incomparável, dr.Béja.

    Na condição de articulista, lembrou-me Guilherme Tell, herói suíço, que por desobedecer cumprimentar um chapéu que significava a autoridade local, teve como punição acertar a maçã colocada na cabeça do seu filho!
    Hábil no manejo da besta, acertou a fruta, sem causar um arranhão à criança!.

    Pois bem, sagaz, sensível, de grande visão humanitária, o nosso mestre em Direito não quer ver essas tragédias na TV DESSA FORMA, que mais ainda nos tornarão insensíveis, a verdade é esta.

    Béja dá a entender que deveria ser veiculado o que PERDEREMOS em um futuro próximo, se nada fizermos em benefício de quem sofre e pena, ou seja, acertaremos o dardo mortal em nossos próprios corações!

    Abração, dr.Béja.
    Saúde e paz.
    Cuide-se!

  2. Caro Dr. Béja,
    Data vênia, ao mesmo tempo em que o elogio por nos proporcionar mais uma abordagem bem oportuna, quero registrar uma leve discordância quanto a uma das peças publicitárias do M.S.F. Médicos Sem Fronteiras.
    Dificilmente me atenho às repetições da veiculação dos comerciais, mas quando se trata do M.S.F., paro o que estou fazendo para ver, pela enésima vez, a sequência de imagens, tendo ao fundo uma trilha musical de qualidade e muito bem apropriada.
    Observe, com sua permissão, que a direção do filme mostra o sofrimento das crianças, sim, mas fecha as cenas com o sorriso de cada uma delas.
    É esta a mensagem que me emociona e que consegue transmitir a fé e a esperança, enquanto a caridade fica por nossa conta.
    Em resumo: um comercial de extrema qualidade.
    Atenciosamente,
    Seu frequente leitor, Jared Calheiros.
    Saúde e paz, plagiando o meu guru Francisco Bendl.

  3. Prezado Jared.
    Por favor, leia outra vez o artigo. Nas 9ª, 10ª e 11ª linhas me refiro a Médicos Sem Fronteiras com a máxima reverência. A organização tem um brado, um lema, um alerta que, numa frase só, mostra a importância do ser humano:

    “Só uma pessoa humana pode salvar outra pessoa humana”.

    Nada mais verdadeiro. Sou contribuidor de Médicos Sem Fronteiras. E participei de recital de piano, no magnífico Concertgebaum de Amsterdã (Holanda), tocando junto com o pianista José Feghali e o pianista-cravista-e-organista padre Marcello Martiniano Ferreira. Tocamos juntos. Seis mãos em três pianos. E toda a bilheteria reverteu para Les Médicins Sans Frontières.

    Defendo Médicos Sem Fronteiras, defendo a Acnur da ONU. Só não me conformo com a utilização da imagem, do nome, da figura, da pessoa de uma criança chorando, criança sofrida, tendo o seu sofrimento narrado, a espalhar pelo mundo em busca da contribuição para a instituição. Contribuição que precisa muito. Todos devem contribuir. Temos o dever de ajudar financeiramente. Mas sem que eles usem a imagem de uma criança sofredora e ainda narre o sofrimento pelo qual a criança passa. Aqui no Brasil o Estatuto da Criança e do Adolescente proibe isso. Por favor, leia todo o artigo novamente e depois me escreva.
    Grato, prezado Jared.

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