Estruturalismo de Dilma choca-se com estilo Meirelles

Pedro do Coutto 

Numa excelente reportagem publicada na edição de domingo de O Estado de São Paulo, o jornalista João Domingos, com base em informações que colheu e sintomas que percebeu, sustenta que a presidente eleita Dilma Rousseff deve afastar Henrique Meirelles do Banco Central e substituí-lo por alguém sintonizado com a política desenvolvimentista que pretende colocar em prática. Novamente, ao longo do tempo, antevê-se um novo choque entre estruturalismo e monetarismo, a exemplo do ocorrido na segunda fase do período Juscelino. Além disso, enquanto o presidente Lula – acentua João Domingos – deu carta branca às medidas antinflacionárias do Banco Central, Rousseff volta-se, ela própria, para comandar mais diretamente o processo econômico financeiro.

Dilma, como já afirmou em suas primeiras entrevistas, tem como alvo fixar os juros para rolagem da dívida interna, que atinge 2,3 trilhões de reais, em 2% (reais) ao ano. Ou seja: 2 pontos acima da taxa inflacionária calculada pelo IBGE. Na escala de  hoje, com a inflação de 5% para os últimos doze meses, os juros desceriam de 10,75 anuais para 7%. Fácil avaliar o efeito da diferença de 3,75 pontos sobre um montante de 2,3 trilhões de reais. Dilma Roussef projeta atingir o progresso pela caminho do incentivo direto à produção de bens, deixando para segundo plano  o aspecto de conter a inflação.

Meirelles, pelo que se pode sentir, é um homem de visão mais financeira conservadora, sua atuação repousa na defesa da moeda, em primeiro lugar. A diferença entre ambos reflete a divergência de rotas para alcançar o desenvolvimento. A contradição começou a tomar um corpo mais nítido a partir do governo constitucional de Vargas.

Diante da crise financeira e cambial, em 53, resultante da suspensão de financiamentos estrangeiros, represália à criação da Petrobrás, Getúlio Vargas reincorporou Osvaldo Aranha, seu amigo de tanto tempo, nomeando-o ministro da Fazenda. Foi no dia 24 de agosto, um ano antes de sua morte. Aranha designou Marcos Souza Dantas para a então SUMOC, que antecedeu o Banco Central. Aranha e Souza Dantas instituíram a Instrução 70 que implantou a categoria dos ágios para importações. Eram 5. Os dólares mais baixos para importações essenciais, de valor mais alto para os considerados supérfluos. Os resultados foram positivos. Reduziram o déficit externo e legaram a JK os recursos para tocar seu governo no rumo do desenvolvimento. Foi o primeiro embate entre as duas correntes.

O segundo aconteceu no governo Kubitschek, quando este rompeu com o FMI. A dívida externa era somente 1 bilhão e 600 milhões de dólares, mas as torneiras se fecharam. A Petrobrás era novamente o alvo. As tentativas eram fortes para privatizá-la. O general Lott, entretanto, em palestra no Clube Militar, em 58, afirmou que a empresa era intocável.

O capitalismo internacional representado pelo Fundo Monetário decidiu apertar o cerco. O ministro da Fazenda, Lucas Lopes, e o presidente do BNDES (na época BNDE), Roberto Campos, propuseram a JK suspender as obras de Brasília e várias outras que ele impulsionava. Neste ponto cito o livro Luz e Trevas, do deputado Hermógenes Príncipe.

Juscelino demitiu Lucas Lopes e Roberto Campos. Afirmou: não vou passar à história como construtor de elefantes brancos, obras inacabadas. Rompeu totalmente com Roberto Campos, anunciando sua demissão em abril de 59, quando realizou conferência, exatamente sobre petróleo, no Clube Militar. O choque de ontem entre estruturalismo e monetarismo agora se repete entre Dilma e Meirelles. Versão 2010.

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