“Eu que já corri o mundo, cavalgando a terra nua”, cantava Sidney Miller

Resultado de imagem para sidney millerPaulo Peres
Site Poemas & Canções

O compositor e cantor carioca Sidney Álvaro Miller Filho (1945-1980) escreveu um diálogo entre “A Estrada e o Violeiro”, cujo conteúdo poético é excelente, tanto que recebeu o prêmio de melhor letra em 1967, no III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record (SP). No mesmo ano, a música foi gravada no LP Sidney Miller com a participação de Nara Leão, pela Elenco.

A ESTRADA E O VIOLEIRO
Sidney Miller

Sou violeiro caminhando só,
Por uma estrada, caminhando só
Sou uma estrada procurando só
Levar o povo pra cidade só.

Parece um cordão sem ponta,
Pelo chão desenrolado,
Rasgando tudo o que encontra,
Na terra, de lado a lado,
Estrada de sul a norte,
Que eu passo, penso e peço,
Notícias de toda sorte,
De dias que eu não alcanço,
De noites que eu desconheço,
De amor, de vida ou de morte.

Eu que já corri o mundo,
Cavalgando a terra nua,
Tenho o peito mais profundo,
E a visão maior que a sua,
Muita coisa tenho visto,
Nos lugares onde eu passo,
Mas cantando agora insisto,
Neste aviso que ora faço,
Não existe um só compasso,
Pra contar o que eu assisto.

Trago comigo uma viola só,
Para dizer uma palavra só,

Para cantar o meu caminho só,
Porque sozinho vou a pé e pó.

Guarde sempre na lembrança,
Que esta estrada não é sua,
Sua vista pouco acusa,
Mas a terra continua,
Siga em frente, violeiro,
Que eu lhe dou a garantia,
De que alguém passou primeiro
Na procura da alegria,
Pois quem anda noite e dia,
Sempre encontra um companheiro.

Minha estrada, meu caminho,
Me responda de repente,
Se eu aqui não vou sozinho,
Quem vai lá na minha frente ?
Tanta gente, tão ligeiro,
Que eu até perdi a conta,
Mas lhe afirmo, violeiro,
Fora a dor que a dor não conta,
Fora a morte quando encontra,
Vai na frente um povo inteiro.

Sou uma estrada procurando só,
Levar o povo pra cidade só,
Se meu destino é ter um rumo só,
Choro e meu pranto é pau, é pedra, é pó.

Se esse rumo assim foi feito,
Sem aprumo e sem destino,
Caio fora desse leito,
Desafio e desafino,
Mudo a sorte do meu canto,
Mudo o norte dessa estrada,
Que em meu povo não há santo,
Não há força, não há forte,
Não há morte, não há nada,
Que me faça sofrer tanto.

Vá, violeiro, me leve pra outro lugar,
Que eu também quero um dia poder levar,
Toda a gente que virá,
Caminhando,
Caminhando,
Na certeza de encontrar….

5 thoughts on ““Eu que já corri o mundo, cavalgando a terra nua”, cantava Sidney Miller

  1. 1) Bela poesia, por falar em arte, compartilho a sabedoria do teatrólogo Zé Celso:

    2) “Eu sempre digo: não adianta resistir. O importante é reexistir. Resistir é ficar segurando uma ideia. Quando o inimigo muda, é preciso mudar também. A mudança exige uma nova estratégia”.

    3) http://www.correiodopovo.com.br/blogs/dialogos/2018/10/1735/nao-adianta-resistir-o-importante-e-reexistir/

    4) Esta importante entrevista é endereçada às ainda chamadas “ex-querdas”. Quem sabe um dia eles aprendem.

  2. Isto é música. Completa, diz muito e soa bem nos ouvidos.
    Quando se fala em cultura, é preciso conhecer o ontem para avaliar o hoje.
    Bela lembrança. Em meus arquivos musicais (muito grande) esta pérola está em vários tons. Obrigado paulo Peres.
    Um ótimo domingo, a todo nós e ao autor, esteja onde estiver!
    Fallavena

  3. Concordo com Fallavena: isso é que é música. Me levou às músicas do Vandré; Merecidamente, recebeu o prêmio de melhor letra no Festival da Record.
    A gente fica com a imagem da solidão do violeiro cantando só, por uma estrada como um cordão sem ponta. Grande Sidney Miller.

  4. Poeta Paulo Peres, não houve um engano de digitação? em vez de
    Mora a dor que a dor não conta,
    Mora a morte quando encontra,

    Não seria Fora a dor que a dor não conta
    Fora a morte quando encontra

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *