EUA e al-Qaeda: estranhos companheiros de cama?

Hassan N. Gardezi (Countercurrents)

Há guerra, nos dias que correm, ainda, entre uma coalizão de estados liderada pelos EUA e al-Qaeda, que já entra na segunda década. Um dos lados em guerra, os EUA, dispensa introdução. Depois do colapso da União Soviética, passou a ser a única superpotência e é conhecida nos quatro cantos do mundo como a nação mais poderosa em termos políticos, militares, econômicos e socioculturais. A al-Qaeda, contudo, não é vista assim tão claramente como força global e exige definições e alguma introdução.

A al-Qaeda surgiu da jihad dos anos 1980s contra o Partido Popular Democrático do Afeganistão em Kabul. Essa jihad foi mobilizada pelos EUA, em colaboração com a realeza saudita e o ditador military paquistanês general Zia. Os sauditas financiaram abundantemente a jihad com a riqueza advinda de seu petróleo, mas a contribuição dos sauditas que, ao final, revelou-se a mais decisiva, foi Osama bin Laden, cuja chegada ao Afeganistão foi acertada entre a CIA e o chefe do serviço secreto saudita, príncepe Faisal al Turki.

Depois que a União Soviética retirou suas tropas do Afeganistão, em 1989, Osama, figura encarnada do guerreiro jihadista perfeito, e alguns de seus companheiros árabes fundaram a organização chamada al-Qaeda, com o objetivo de prosseguir sua jihad contra o “infiel” norte-americano, o qual, para eles, desnaturava a terra santa do Islã com seus soldados já se implantando na Arábia Saudita, no início da primeira Guerra do Golfo.

Mas, depois do início, a organização passara por modificações na constituição, na esfera geográfica de atividade e nas crenças e objetivos. A al-Qaeda que há hoje, seja como construto político brotado de dentro do establishment norte-americano, seja como realidade existencial, reúne, por laços fluidos de associação, uma pluralidade de grupos e indivíduos, que operam num plano transnacional, com missão partilhada e táticas comuns a todos, com vistas a cumprir aquela missão. Os grupos associados à al-Qaeda hoje vão do Talibã afegão e paquistanês, aos grupos Ansar al Sharia da Líbia e Frente Al Nusra síria.

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A MISSÃO DA AL-QAEDA

A principal missão da al-Qaeda é dominar o mundo, em particular o mundo muçulmano, impondo sua específica ‘griffe’ de ordem sociopolítica baseada nas leis da Xaria sunita-salafista da Arábia Saudita. Assim, a al-Qaeda pôs-se em conflito com os EUA, que também têm projeto para dominar o mundo, embora por razões diferentes que, no caso dos EUA, têm a ver com posse e controle imperiais.

A al-Qaeda não tem qualquer interesse em domínio imperial, nem no fenômeno imperial, porque crê que não alcançará seu objetivo de dominar o mundo sem superar os “inimigos do Islã”, definidos, em primeiro lugar, como infiéis. Os EUA, na posição de potência global líder, é o principal dos inimigos infiéis da al-Qaeda. George W. Bush declarou formalmente sua Guerra ao Terror, em 2001, em retaliação contra a declaração, pela a-Qaeda, de que seu alvo passava a ser os EUA, “inimigo do Islã”.

A “guerra ao terror”, apesar da denominação ambígua, é essencialmente guerra de dominação, como as duas guerras mundiais anteriores, embora com alguns trações anômalos específicos. A primeira e principal anomalis dessa guerra é o fato de que um dos combatentes não é entidade estatal: é uma entidade transnacional denominada al-Qaeda.

Como o presidente Obama gosta de repetir, o objetivo da guerra ao terror é “desmontar, desmantelar e derrotar a al-Qaeda.” Embora, com sua política para o “AfPak”, Obama tenha expandido o teatro da guerra para incluir o Paquistão com o Afeganistão, as operações da al-Qaeda não se limitam a esses dois países. Nenhum continente ou país parece hoje livre de ataques reais ou potenciais dos guerreiros flutuantes da al-Qaeda.

O problema complica-se imensamente, quando os EUA passam a entender, como hoje, que seria necessário fazer pactos com a chamada al-Qaeda inimiga quando parece conveniente aos EUA – exatamente o que se viu acontecer na Líbia e está acontecendo hoje, novamente, na Síria.

(Transcrito do site Pátria Latina, de Valter Xéu)

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