Ex-diretor da Editora Globo mostra como Palocci foi inocentado equivocadamente pelo Supremo no caso Francenildo

Carlos Newton

Sempre atento, o comentarista mineiro Carlo Germani manda à Tribuna da Imprensa uma preciosa entrevista, postada há alguns dias no site Brasil 247, mostrando que foi o próprio Antonio Palocci quem entregou à família Marinho, proprietária da Organização Globo, o dossiê caluniando o caseiro Francenildo e denunciando que ele estaria recebendo dinheiro para acusar o então ministro da Fazenda.

Vale a pena reproduzir aqui na Tribuna a matéria assinada pelo jornalista Leonardo Attuch. Mostra de fato o caráter de Palocci, tentando esmagar um trabalhador humilde, um simples empregado da mansão no Lago onde os amigos do ministro promoviam grandes festas de conteúdo erótico. Vamos ao texto, na íntegra:

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PALOCCI BOTOU A CULPA NOS ASSESSORES

No dia 27 de agosto de 2009, Antonio Palocci tirou um peso enorme das costas. Graças à competente atuação de seu advogado, o criminalista José Roberto Batochio, Palocci foi inocentado no Supremo Tribunal Federal, por cinco votos a quatro, da acusação de quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa. A culpa recaiu sobre dois outros réus: seu assessor de imprensa, Marcelo Netto, e o presidente da Caixa Econômica Federal, Jorge Mattoso.

Os dados bancários de Francenildo, expostos pela revista “Época”, permitiram uma devassa na vida privada do caseiro e revelaram até que ele era um filho não reconhecido – os depósitos atípicos, de R$ 24 mil (ardilosamente denunciados à família Marinho por Palocci), foram feitos pelo pai biológico para tentar encerrar uma ação de reconhecimento de paternidade.

O caso Francenildo será sempre um símbolo da violência do Estado contra um indivíduo, mas Palocci escapou. No fim, tudo ficou na conta dos assessores “aloprados”, como se eles agissem à la Gregório Fortunato – personagem que, para salvar o chefe Getúlio Vargas, era capaz de cometer qualquer crime, inclusive o atentado da Rua Toneleros.

Palocci foi absolvido, o caso foi encerrado e fogos de artifício foram disparados no meio empresarial. Aos poucos, ele começou a se recolocar no jogo político, até assumir a coordenação de campanha da presidente Dilma Rousseff. Mas o crime do passado, agora, volta a assombrá-lo.

De Londres, o jornalista Paulo Nogueira, que era diretor editorial das Organizações Globo, respondendo por revistas como “Época”, “Época Negócios”, “Marie Claire” e “Quem”, tem publicado posts sobre uma das feridas abertas da casa da família Marinho.

“Foi o Palocci quem passou para nós o dossiê calunioso”, diz Nogueira. “Palocci foi quem fez chegar a nós, na redação da “Época”, informações que supostamente desqualificariam o caseiro de Brasília que dissera que ele frequentava uma mansão pouco recomendável quando ele era ministro da Fazenda.”

“Na época, eu era diretor editorial das revistas da Globo, a principal das quais era e é a “Época”. Foi um dos episódios mais desagradáveis de minha carreira”, continua o jornalista.

De acordo com o relato do ex-diretor da “Época”, o dossiê não foi levado diretamente aos jornalistas, mas sim à cúpula das Organizações Globo. “Muitos políticos preferem conversar diretamente com os donos, e não com os jornalistas. Não é uma peculiaridade brasileira. Churchill só falava com os proprietários, quando era primeiro-ministro do Reino Unido”, diz Nogueira.

“Foi um momento particularmente penoso em minha carreira de editor, por motivos óbvios. Ninguém vai fazer jornalismo para depois ajudar um ministro a desmoralizar um caseiro de forma fraudulenta. Nossos sonhos e ilusões são bem mais elevados”, salienta.

Paulo Nogueira, no entanto, afirma que “Época” não se envolveu nessa operação totalmente ciente da fraude. “Imaginávamos, ao publicar a história, que de fato tinham sido feitos depósitos na conta do caseiro. Logo ficou claro que não. Também ficou clara em pouco tempo a desfaçatez de Palocci ao dizer que não fizera o que fez”.

Mas, por que só agora vir a público e fazer tais revelações, Paulo Nogueira? Esta foi a pergunta feita por um de seus leitores. Paulo responde: “Ora, contei que foi o Palocci porque a ocasião é propícia. Lá está ele num cargo importante de novo sem as qualificações morais necessárias. Claro que ele não teve nada a ver com minha saída da Globo”. O jornalista foi afastado do comando das revistas, numa disputa interna, há pouco mais de dois anos.

Lá atrás, a reportagem de “Época” que tentou virar o jogo do caso Francenildo chamava-se “Quem está dizendo a verdade?”. Foi assinada pelos jornalistas Andrei Meirelles e Gustavo Krieger – este, hoje, está trabalhando do outro lado do balcão, participando da “gestão de crise” do caso Palocci, em Brasília, como diretor da FSB  (empresa de assessoria jornalística, contratada para ajudar na defesa do ministro).

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UMA QUESTÃO DE “DECÊNCIA BÁSICA”

 

 

 

 

De Londres, o jornalista Paulo Nogueira, ex-diretor das Organizações Globo, que foi responsável por todas as revistas do grupo, concedeu uma entrevista telefônica ao jornalista Leonardo Attuch, do site Brasil 247. Ele conta como foi a operação, pilotada pelo ex-ministro Antonio Palocci, para desqualificar o caseiro Francenildo Costa em 2006. Leia:

Brasil 247 – Como chegou à redação da Época o dossiê Francenildo?

PAULO NOGUEIRA – O assunto foi levado diretamente pelo ministro Palocci à cúpula das Organizações Globo.

– Quando você diz cúpula, a quem se refere? Ao Ali Kamel, o diretor de jornalismo?

– Não, o Ali Kamel respondia pela televisão. Eu me refiro aos acionistas.

– À família Marinho, portanto.

– Isso.

– E qual foi a motivação?

– Estávamos todos naquela briga das semanais, competindo pelo furo da semana. Só depois ficou claro que a revista “Época” foi usada como instrumento do ministro Palocci.

– Mas, quando surgiu também um crime, uma quebra de sigilo bancário de um indivíduo pelo Estado, você não pensou em abrir uma discussão sobre quebrar o sigilo da fonte e revelar que o ministro Palocci estava por trás de tudo?

– Aquilo seria um constrangimento para todos nós, e para a própria revista. E em qualquer empresa existem limitações. Além do mais, tem a vida que segue, a semana seguinte, o projeto de uma nova revista…

– Mas por que só agora você decidiu trazer este caso a público?

– Uma indignação, o desejo de que meus filhos vivam num país melhor. Tem um conceito do George Orwell que eu admiro muito: decência básica. Só isso. E agora, aqui em Londres, num período sabático, tenho mais liberdade. A História brasileira precisa ser escrita com correção. E fato é: o dossiê Francenildo foi levado à cúpula da Globo pelo ministro Palocci.

– O ministro Palocci foi inocentado no caso e a maior parte da culpa recaiu sobre os ombros do seu assessor Marcelo Netto.

– O Marcelo Netto tratou do assunto com a sucursal Brasília da “Época”. Todos sabiam que ele agia a mando do Palocci.

– Mas o fato é que Palocci foi inocentado no Supremo e voltou à vida pública. Se esse processo fosse reaberto, a pedido, por exemplo, do caseiro, você diria as mesmas coisas em juízo?

– Evidentemente, eu respondo pelo que eu escrevo. Estou em Londres e no próximo ano estarei de volta ao Brasil.

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DETALHE IMPORTANTÍSSIMO

Como esta entrevista do Brasil 247 também está sendo reproduzida hoje pelo site Conversa Afiada, que só “extraordinariamente” publica críticas ao governo, tudo indica que os dias de Palocci estão contados na chefia da Casa Civil.

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