Exatamente há 30 anos, no auge e no apogeu, a indústria do tabaco foi enfrentada e confrontada, ameaçou a CBS com processo BILIONÁRIO (não existia o TRILHÃO), o jogo virou, teve que pagar 256 bilhões de dólares.

Helio Fernandes

Foi uma batalha jornalística, jurídica, histórica. Até hoje lembrada nos EUA, com  a conclusão: um homem apenas, com a convicção, a determinação e a coragem, pode derrotar, como derrotou e triturou a poderosa indústria do tabaco (também até hoje conhecida e reconhecida como indústria da morte).

Naquela época, praticamente o mundo inteiro fumava, os governos ainda não haviam tomado a decisão de enfrentar essa droga. (Que era praticamente única, a droga dos traficantes ainda não aparecera, acumulando lucros e Poder inacreditáveis).

Faziam enormes gastos com publicidade. Os jovens daquela época não tinham consciência do perigo, a indústria da morte, com a publicidade faustosa e indiscriminada, consideravam que fumar “era bonito, charmoso e agradável”. Não havia um filme em que os personagens principais ou coadjuvantes não aparecessem fumando ou acendendo um cigarro, demonstrando uma satisfação que dominava e contagiava a todos.

Essa grande batalha, que começou com a arrogância da extraordinária indústria e que acabou com sua derrota inacreditável, teve um início inesperado. Pode ser dito que foi provocado pelos “donos” dessa droga maldita.

Um professor de Física e Química (e de outras matérias, também de línguas como o difícil japonês) deu entrevista ao programa “60 Minutos”. Exibido pela importante CBS, era tido como da maior credibilidade, com prestígio e audiência notáveis.

Carro-chefe da importante televisão, era admirado pela coragem e independência, a direção da CBS só via o programa praticamente quando era exibido. Mas como é (e era) impossível montar uma entrevista como essa, em silêncio, logo a indústria da morte (que tinha a seu serviço os maiores advogados dos EUA), notificou a CBS nestes termos: “Se publicar a entrevista, sofrerá processo BILIONÁRIO que levará a empresa jornalística à falência”.

A CBS ficou assustada com os termos da ameaça (BILIONÁRIA, ainda não havia o TRILHÃO), tomou uma decisão que jamais fora considerada pela sua direção: CENSUROU o programa “60 Minutos”. Um jornalista, produtor desse programa, homem de grande prestígio e repercussao profissional, reagiu, a CBS tentou propor um meio termo que não foi aceito, nem mesmo considerado.

Consistia no seguinte: publicariam a matéria sobre os males (científicos, essa palavra foi usada para satisfazer a indústria, que concordou), mas a entrevista não seria exibida. O repórter se revoltou, protestou, surpresa para ele: ficou sozinho, mesmo seus companheiros de programa, apoiaram a CBS, abandonaram o jornalista que admiravam e com quem trabalhavam há anos, diariamente.

Só que o jornalista continuou a luta, os argumentos dos antigos companheiros não foram suficientes para que desistisse. A CBS não quis demiti-lo, ficou duplamente com medo: da indústria da morte e dos círculos jornalísticos, que não aceitaram a demissão absurda. Forçaram-no então a entrar de “férias forçadas”.

Aí usou o tempo vago para enfrentar a luta, resolveu fornecer dados, detalhes e elementos sigilosos do episódio, para conseguir o apoio do New York Times e do Wall Street Journal. (Que ainda não era de propriedade do gangster australiano Rupert Murdoch, isso só aconteceria 20 anos depois).

Em troca de “informações privilegiadas” sobre o caso, a direção dos dois jornais (através de intermediários) decidiu: “Se as informações confirmassem o que o repórter dizia, publicariam”. Quando receberam os fatos que não podiam desconhecer ou esquecer, responderam: “Dentro de 48 horas publicaremos na primeira página”.

Aí o pânico se transferiu para a indústria da morte. Com a publicação do New York Times (de acordo com o compromisso) e do Wall Street Journal, que publicaram a entrevista do professor na í-n-t-e-g-r-a, a CBS ficou ultrapassada. Aí voltaram a conversar com o repórter, não havia mais nada a fazer.

Como os dois citassem o desrespeito constitucional à Emenda número 1, procuradores federais entraram em ação, a questão foi inteiramente transformada, com a indústria da morte como ré. Diga-se: nenhuma empresa foi citada ou processada, a ação era contra a indústria como um todo. Este foi o aspecto realmente GENIAL do processo.

Tentaram fazer acordo (que faz parte da rotina da Justiça dos EUA, no plano cível ou criminal), os procuradores consideraram os termos e a oferta muito modesta. Os 50 estados americanos processaram a indústria, todos ganharam. Aí a indústria passou recibo no fracasso, propuseram acordo aceitável e razoável.

O acordo foi fechado em dois tempos. 1 – A indústria pagaria de indenização, 256 BILHÕES de dólares. Em 5 parcelas de 50 bilhões, sendo que a primeira imediatamente, na assinatura do acordo. Transformada em números de hoje, calcula-se que essa indenização pioneira, teria chegado a 1 TRILHÃO E 200 BILHÕES.

 ***

PS – A CBS e o “60 Minutos” chamaram o repórter de volta, argumentaram: “A vida é assim, os fatos acontecem, são esquecidos ou ultrapassados, a vida continua”.

PS2 – O repórter não agira irrefletidamente, sua concepção era permanente e não ocasional. Respondeu: “Não tenho o menor ressentimento. Mas a força do programa com os entrevistados-denunciantes e com as FONTES, se baseia na confiança. Como vou garantir agora, que o que eles dizem será publicado?”

PS3 – Aceitou um convite, durante mais de 25 anos, foi aplaudido professor de Jornalismo em Berkeley.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *