Exatamente h 47 anos, (HOJE) em 31 de julho de 1963, o Supremo me julgava pelo fato de ter publicado circular que um ministro da Guerra intil, decidira que era SIGILOSA-CONFIDENCIAL

ltimas horas no Rio. Na vspera, Sobral Pinto e Prado Kelly, foram a Braslia, entregaram pessoalmente ao presidente do Supremo o pedido de habeas corpus, protestaram: O jornalista est INCOMUNICVEL, mas isso no pode valer para os advogados. O presidente Ribeiro da Costa imediatamente determinou (de forma oficial, atravs de documento escrito) que os advogados pudessem FALAR COM O PRESO, IMEDIATAMENTE.

Voltaram para o Rio, entregaram o ofcio ao comandante da Polcia do Exrcito, ele agiu corretamente. Pediu para os advogados (estavam os quatro) esperarem, tenho que telefonar para o ministro da Guerra, cumpro ordens dele. Telefonou, o ministro autorizou a conversa, que se realizou na mesma hora. O coronel Ventura foi me buscar na cela, me deixou com os advogados.

A conversa foi rpida, formal, interessante pela revelao. Sobral Pinto me disse: Helio, fomos procurados pelo general Cordeiro de Farias, que assumiu inteiramente a condio de teu informante, e que entregara o documento a voc, na tua casa, e dar entrevista confirmando o fato.

Sem qualquer dvida ou opo, respondi, no podia de maneira alguma ter comportamento diferente: No conheo esse general, no sei quem , como o caso est tendo grande repercusso, no sai das manchetes, est querendo aparecer.

O que eu poderia fazer? Entregar minha fonte?

Prudente de Moraes, neto, o nico que era grande amigo do reprter, tambm jornalista, me abraou satisfeito, Adauto e Prado Kelly em silncio. S o doutor Sobral no gostou e revelou isso na hora.

Palavras do Dr, Sobral, nada amistoso: Helio, voc no pode insistir nessa posio suicida. (Textual). O general nos disse que a ele no ACONTECER NADA, mas o que esto mobilizando para TE CONDENAR, quase invencvel. Insisti que no conhecia o general, desistiram, foram embora, confirmando: Tudo agora depende do Supremo e do ministro da Guerra.

No dia seguinte, 26 de julho de 1963, pela manh, fui levado para Braslia, no sabia nada do processo. O coronel Ventura me levou at o carro, e como eu j no era mais seu prisioneiro, me mostrou a manchete de dois jornais, a prpria Tribuna e um jornal de Minas, onde fui preso: O general Cordeiro de Farias confirma que ENTREGOU a circular CONFIDENCIAL do ministro da Guerra ao jornalista Helio Fernandes.

Como dissera aos advogados, a ele nada aconteceu, o reprter estava jogado em pleno vendaval, perdo, era um furaco.

Por determinao do ministro da Guerra, fui mandado para o BGP (Batalho de Guardas Presidenciais). Ficaria l at o julgamento. O governo, v l, o ministro da Guerra, marionete de grupos poderosos, no descansava nem recuava da deciso, (OBRIGAO?) de me condenar.

Comparem estas duas posies, do ministro Ribeiro da Costa e do ministro Dantas Ribeiro. (O sobrenome, coincidncia nada agradvel para o presidente do Supremo). Este, para despachar o hbeas corpus pedido pelos meus advogados, isenta e constitucionalmente, oficiou ao ministro da Guerra, para saber QUEM DETERMINARA A MINHA PRISO E QUAL A MOTIVAO OU JUSTIFICAO.

O ministro da Guerra recebeu o ofcio do presidente do Supremo, e poderia facilmente se livrar de tudo, respondendo simplesmente, no tenho nada a ver com isso, o jornalista deve estar RESPONDENDO A ALGUM IPM (Inqurito Policial Militar), presidido por um coronel. A o Supremo no poderia fazer o julgamento, o ministro que tinha foro privilegiado.

Mas no. Arrogantemente e de acordo com os planos que j movimentavam os mais diversos setores dos TRS PODERES, respondeu na hora e devolveu para o presidente do Supremo: O jornalista est preso minha ordem, enquadrado na Lei de Segurana. REVELOU OPINIO PBLICA, documento que eu mesmo considerara SIGILOSO-CONFIDENCIAL“.

“Diante disso, o presidente Ribeiro da Costa fez o que tinha que fazer: colocou o processo na pauta de julgamento, e nada surpreendente, acontecia muito, ficou como RELATOR.

Comeou ento a corrida para que o julgamento ocorresse no dia 31. Uma parte porque consideravam, neste momento temos maioria para condenar o jornalista. Outra parte, PURA SUPERSTIO, no queriam que ficasse para agosto, ms considerado fatdico na nossa Histria. (Tolice e ignorncia, em todos os meses existem ou acontecem fatos litigiosos e at desagradveis).

Mas transformaram a maratona, numa corrida de 100 metros, realizada numa capital ainda improvisada, onde tudo iria ser, ainda no era. No esqueam: no meio desse 1963, a capital no completara a mudana, tambm no completara 3 anos de existncia.

Eu podia receber visitas, (minha mulher estava em Braslia) conversava com polticos e jornalistas do primeiro time. Os jornalistas por necessidade e obrigao profissional, mais bem informados. No aliviavam para me agradar, falavam o que estava acontecendo mesmo, e no o que alguns diziam para me agradar.

Esse 1963 comeara com fatos importantssimos, e quase todos INEXPLICVEIS ou SURPREENDENTES, s que nem todos chegaram ao conhecimento pblico. Vou citar alguns, s para mostrar o clima desse 1963, que desembocaria naturalmente na ditadura de 1964.

Mas com desfecho inteiramente contrrio ao que esperavam os governadores dos principais estados e o prprio presidente Joo Goulart).

1 Logo no dia 6 de janeiro, o PLEBISCITO para saber se continuava o PARLAMENTARISMO imposto pelos militares na RENNCIA de Jnio, ou se voltaramos ao PRESIDENCIALISMO. Foi a mais espantosa e desavergonhada exibio de dinheiro, fbulas mesmo. Os que mais gastaram: empreiteiras, bancos, seguradoras, indstria naval, imobilirias, as Confederaes da Indstria e do Comrcio. (A indstria atomobilstica ainda se instalava, no era a potncia de hoje).

(Esse desperdcio s seria superado pelas DOAES de FHC, o PROER (dos bancos) e o MENSALO).

2 Brizola j estava eleito deputado federal pela Guanabara (eu ainda no o conhecia pessoalmente), tomava posse em 31 de janeiro desse 63, com Joo Goulart presidente de fato. Em maro, depois de conversar demoradamente com o marechal Lott, Brizola procurou o cunhado presidente.

3 Levava a proposta, (publiquei na poca) nos seguintes termos: Jango, voc me nomeia ministro da Fazenda, e o marechal Lott, ministro da Guerra. Ele fica como avalista, no caso de voc considerar que estou fazendo alguma loucura.

4 Jango pediu tempo, e cometeu a imprudncia (a palavra ser essa?) de tratar do assunto com Roberto Marinho e o embaixador dos EUA, Lincoln Gordon. Disseram a ele: Se voc nomear o Brizola ministro da Fazenda, no terminar o mandato.

5 No nomeou e no terminou. Pouco depois, ainda em 1963, Brizola disse na televiso: No vou mais ao Palcio, toda vez que vou conversar com o presidente, tenho que ver esse Roberto Marinho.

6 Jango comea decises estapafrdias, a palavra rigorosamente essa. Deixa Roberto Campos como embaixador nos EUA. Esse famoso entreguista, fica at a derrubada de Jango. Dias depois passa a ser o civil mais importante do governo militar que se instala.

7 Em abril de 1963, Jango manda mensagem, ao Congresso, propondo INTERVENO na Guanabara e em So Paulo. (fato, fato, nenhuma inveno). E se sabe que pretende fechar a Tribuna da Imprensa, acredita que ainda de Carlos Lacerda, que em 1961 vendera para o JB, ento riqussimo.

8 Em vez de como queria Brizola, nomear o marechal Lott ministro da Guerra, mantm no cargo esse Jair Dantas Ribeiro, que me prende ARBITRARIAMENTE. V l: ARBITRARIAMENTE, no h dvida, mas por ordem de quem?

9 Respondam vontade, concordem, discordem, examinem, analisem: Como que um Ministro, MESMO DA GUERRA, pode fazer o que ele fez sem o PRESIDENTE DA REPBLICA, saber ou autorizar?

10 Com esse CLIMA, digamos, SURPREENDENTE, se aproxima o dia 31, do julgamento. No dia 29, um dos maiores jornalistas da poca, vai me visitar, pergunta, aqui voc est sabendo das coisas?. Digo que no, bem informadssimo ele garante: No momento voc est CONDENADO por 6 a 2, mas o MEDO geral. Condenar um jornalista como voc, com a tua repercusso, a 15 anos de priso? Ningum acredita, mas a irresponsabilidade foi to longe que difcil voltar.

11 Chega o dia 31, me apanham no Batalho, s faltam perguntar qual a ltima refeio, o ambiente inteiramente parecido com isso. Meus advogados presentes, chega Ribeiro da Costa, abre a sesso, o outros ministros j esto em seus lugares. O presidente relata, vota pela inconstitucionalidade da priso, no levou nem 20 minutos, ainda no existia a TV Senado.

12 Mas em seguida, trs ministros contra mim, fico perdendo de 3 a 1. Um outro, a meu favor, 3 a 2, mas logo fica 4 a 2 contra mim, faltam votar apenas dois ministros. Ningum acredita, votam a meu favor, 4 a 4.

***

PS So 6 da tarde, suspendem a sesso para lanche, na verdade, o governo, perdo, o ministro da Guerra, do Rio, comanda tudo. Querem suspender a questo, marc-la para outro dia. Justificativa: trs ministros no esto presentes, um de licena mdica, dois de frias.

PS2 Ribeiro da Costa no concorda, reabre a sesso, e declara: Esto presentes 8 ministros, podemos deliberar, vou desempatar. E num voto de 15 ou 16 minutos, DESEMPATA A MEU FAVOR. Podia DESEMPATAR CONTRA MIM.

PS3 O presidente declara que estou livre, o general-ministro comunicado, diz ao subordinado de Braslia: Temos que respeitar o julgamento, o jornalista pode viajar. s 20,30 entro no avio com Rosinha e Millor, voltando para o Rio.

PS4 Carlos Castelo Branco, o grande jornalista daquela poca, me diz: Voc comeou a ganhar quando ficou 4 a 2 contra. Dos dois que faltavam votar, pelo menos um ia votar contra voc, me disse, FIQUEI COM MEDO DE DECIDIR UM JULGAMENTO COMO ESSE.

PS5 Parece contradio, mas o MEDO (que domina a humanidade) pode ser positivo.

PS6 Fiquei 10 dias sem escrever, reassumo e recomeo no dia seguinte. S interrompo para receber telefonema de Abelardo Jurema (ministro da Justia e meu amigo), falo com Waldir Pires, meu amigo e consultor geral da Repblica. Almoo com Evandro Lins, meu primeiro advogado, que vai para o Supremo. Infelizmente por menos de 1 ano.

PS7 A irresponsabilidade geral de 1963, termina NO 1964. 1889 se repetia. Os Propagandistas da Repblica e os Abolicionistas, eram derrotados pelos militares. (Isso outra histria)

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