Exército rebate Bolsonaro e afirma que suspender eleições não está na Constituição do país

General Paulo Sérgio Nogueira avisou que vai cumprir a Constituição

Pedro do Coutto

Ao discursar ontem na solenidade de 25 de agosto, Dia do Soldado, o general Paulo Sérgio Nogueira, comandante do Exército, rebateu o posicionamento assumido por mais de uma vez pelo presidente Jair Bolsonaro de suspender as eleições de 2022, caso o voto impresso não fosse reincorporado à legislação brasileira.

Reportagem de Daniel Gullino e Evandro Éboli destaca nitidamente o episódio ao focalizar trechos principais do discurso do general Sérgio Nogueira, inclusive feito ao lado do presidente da República. Conforme digo sempre, em matéria política não é suficiente ver o fato, mas também ver o que está no fato. O general Paulo Sérgio Nogueira sustentou que as Forças Armadas devem atuar respeitando a missão atribuída pelo texto constitucional.

CARTA MAGNA – Logo, rebateu diretamente a solução inconstitucional defendida pelo presidente Bolsonaro de suspender as eleições de 2022. O comandante do Exército acentuou que junto com a Marinha e a FAB, o Exército mantém-se sempre pronto a cumprir a sua missão delegada pelos brasileiros e consagrada na Carta Magna. Portanto, suspender as eleições por causa da derrota do voto impresso é tão absurdo quanto frontalmente inconstitucional.

O discurso do general Paulo Sérgio Nogueira, a meu ver, reveste-se de extraordinária importância, principalmente no momento em que o presidente da República sequer distingue se somente as eleições presidenciais seriam suspensas por sua vontade ou se seriam sustadas também as eleições para governador, senador, deputados federais e estaduais.

Tenho a impressão de que nem o próprio Bolsonaro chegou a uma conclusão relativa à ameaça que praticou, sobretudo contra a democracia brasileira que se distingue pelo respeito à vontade das urnas e não em função do pensamento individual do chefe do Executivo.

GAFE – A reportagem de Daniel Gullino e Evandro Éboli assinala um fato que constitui uma grande gafe do deputado Arthur Lira, presidente da Câmara Federal. Retirou-se da solenidade antes dela terminar alegando ter um compromisso. Um absurdo. Se ele tinha um compromisso coincidente em matéria de horário, não deveria ter comparecido ao Dia de Caxias, patrono do Exército. Ou então, principalmente, deveria ter adiado o compromisso alegado.

Uma autoridade não pode se retirar no meio de um evento desta ordem. Pode não comparecer, isso é diferente. Mas tampouco pode se fazer representar porque em uma solenidade que contou com a presença do presidente da República, nenhum ministro ou autoridade parlamentar pode enviar um representante para substituí-lo.

Foi uma atitude lamentável do deputado Arthur Lira. A comemoração do Dia do Soldado não permite que os que dela estavam participando possam se ausentar antes do seu término.  O cerimonial do Planalto deveria ter alertado o deputado Arthur Lira.

RENÚNCIA DE JÂNIO QUADROS   – Excelente a matéria histórica de Fernanda Canofre, Folha de S. Paulo desta quinta-feira, sobre a renúncia de Jânio Quadros à Presidência da República e que abriu uma crise política e institucional no Brasil que até hoje ainda não terminou. Jânio Quadros, na antevéspera, havia condecorado Che Guevara com a Ordem do Cruzeiro do Sul.

E, também na antevéspera, portanto em 23 de agosto, numa entrevista à TV Tupi que se tornou manchete principal do Jornal do Brasil no dia seguinte, o governador da Guanabara, Carlos Lacerda, revelou ter sido convidado por Jânio Quadros e pelo ministro da Justiça,  Oscar Pedroso Horta, para um golpe no país.

A repercussão da entrevista foi enorme. Escrevi sobre ela no Correio da Manhã. Jânio Quadros perdia com a condecoração de Guevara o apoio das correntes conservadoras e ao tentar um golpe perdeu o apoio nacional. Nos bastidores circulou a notícia de que Jânio dirigiu-se ao general Odílio Denys, então ministro do Exército, buscando apoio para intervenção federal da Guanabara. Não conseguindo apoio, renunciou.

SEM APOIO – O seu objetivo era o de contar com o apoio da população, mas não obteve êxito. Prevenido da intenção de Jânio, o deputado Ranieri Mazzilli definiu que renúncia é um ato pessoal, não dependendo de homologação de poder algum. Encerrava-se mais um capítulo da história do Brasil. Fernanda Canofre compara a atmosfera de 1961 com a que envolve hoje o presidente Jair Bolsonaro em 2021, 60 anos depois.

Jânio Quadros destruiu a obra política de Juscelino Kubitschek de reconstruir a democracia brasileira. No discurso em que transmitiu o cargo, JK lembrou a Jânio que estava entregando o poder a ele em condições muito diversas daqueles que marcaram a sua posse em janeiro de 1956.

Naquele momento, relembrou, houve a necessidade de dois movimentos políticos-militares para assegurar o respeito à vontade das urnas. “Vossa excelência assume hoje com a democracia fortalecida. Portanto em condições muito adversas daqueles em que assumi há cinco anos”, afirmava. A história se escreve com episódios assim, mas JK não poderia imaginar que Jânio fosse renunciar. Política é assim.

CENSURA –  A desembargadora Ana Maria Ferreira, do Tribunal de Justiça de Brasília mandou retirar do site do O Globo, publicou o próprio jornal ontem, informações sobre movimentações financeiras da VTCLOG, empresa investigada pela CPI da Pandemia. A matéria encontrava-se na edição online e terminou sendo publicada na edição impressa do jornal nesta quinta-feira. Um absurdo completo o despacho.

Na realidade, ela não censurou apenas O Globo  ou a TV Globo, mas sim o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) que forneceu as informações à reportagem. Se o Coaf forneceu as informações, por que a desembargadora não culpou o Conselho mas o jornal ? Impressionante  a repetição de episódios desse tipo.

O jornal recorreu e lembrou que a informação tem como fonte o próprio Coaf. Se a desembargadora tentava bloquear a repercussão, sua atitude, na realidade, até a ampliou. Censura é inconstitucional, inclusive como se vê pela circulação de fake news nas redes sociais da internet.

14 thoughts on “Exército rebate Bolsonaro e afirma que suspender eleições não está na Constituição do país

  1. Calma pessoal, em 31/12/2022 este dramalhão vai acabar.
    Desde já fico pensando como será o “Gran Finale”.
    O último ato. “a entrega da Faixa Presidencial”.
    Bolsonaro no alto do seu ego colocando a faixa no Lula seu arquiinimigo.
    Imaginem a cena!

    • I beg to disagree. Que tal passar a faixa para o Mandeta, a Tebet, ou qualquer um que seja bipede sem penas, mas que pelo menos saiba ler e escrever. Em verdade, até um moirão seria bom.

    • PS.

      Metade da população, segundo o IBGE, “Sobrevive” com 15,00 contos por dia.

      Enquanto isso………no Tucanistão, o Chefão fecha tudo, pega seu jatinho de 100 milhões e vair curtir a linda e maravilhosa Miami com sua amada

  2. A história só se repete como farsa. Os fatos políticos são parecidos, porque a vida humana é uma repetição enfadonha. Nesse mês de agosto em 1961, Jânio Quadros renunciou. Queria ser ditador e se deu mal, o povo não embarcou na sua aventura. Mas, gerou uma crise trágica para seu vice, João Goulart, que foi derrubado numa quartelada apoiada pelos empresários, a Igreja e os EUA, em 31 de março de 1964.
    Nesse 2021, o mês de setembro, notadamente o dia sete, vem com uma carga perigosa para a democracia. O presidente já se sente sozinho, na sua briga com o STF, querendo impeachment de ministros, que decidem contra os seus desejos. Como seria bom, um paraíso, até, se tivéssemos Ministros que monocraticamente ou pelos votos do Colegiado, seguissem nossos mais reconditos desejos, em suas decisões de última instância.
    O presidente procura inimigos diariamente, vive no confronto como meta política e portanto, deixa de governar, legando essa tarefa para auxiliares, muitos deles fracos e incompetentes, pior, não foram eleitos para tal, inclusive para dizer que não adianta o povo chorar, porque vai pagar os tubos, com o aumento da conta de luz, que vai gerar inflação e corroer o bolso dos brasileiros.

  3. Manchete da Folha: Bolsonaro diz que hidrelétricas podem parar e pede que se apague ‘um ponto de luz em casa’

    Mas o Flavinho, que enriqueceu da luta
    E descende do presidente filho da labuta
    Pode gastar á vontade na sua mansão
    E nós temos que agradecer por ter o pão!

  4. Interprete de generais ou cambono de pai de santo?
    Voltaire se vangloriava de que podia, se quisesse, subverter o pai nosso, Prece Dominical, começaria afirmando que o Pai, Deus, estaria em todo lugar e não só no céu, e por aí vai.
    Quem já esteve na caserna sabe que se algum general tivesse que fazer tal admoestação, não faria ali de publico, eles tem códigos de honra e que infelizmente falta a muita gente.

  5. O mito acredita que por ser o chefe das Forças Armadas elas farão tudo aquilo que ele mandar, mas está confundindo militares com policiais militares, aí está o grande equívoco do cara. Esperar que os canhões se virem para a suprema corte só porque o mito se acha ameaçado por ela é muita piração. O que vemos é um ocaso de um governo que podia ter dado certo, mas que deu errado por causa de um cara que se convenceu que tinha uma missão divina à frente da presidência da república.

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