Expansão do crédito no país disparou 25% de 2004 a 2011

Pedro do Coutto

Excelente a reportagem de Ronaldo D’Ercole sobre a expansão do crédito bancário no país, O Globo, Caderno Econômico, edição de 2 de abril. Disparou na velocidade de 250% no período 2004 a 2011, atingindo o Everest de 2 trilhões e 30 bilhões de reais. Os dados são da Consultora Austin que traduziu em números e palavras o crescimento muito acima da taxa de inflação identificada pelo IBGE e bem maior do que a soma dos reajustes salariais no mesmo espaço de tempo.

O presidente da empresa, Erivelto Rodrigues, sustenta que, em consequência, o lucro dos bancos nunca subiu tanto. Escolheu a Selic como ponto de referência.Ele compara o spread bancário (margem de operação) com a Selic, instrumento governamental de remuneração à rede bancária pela rolagem da dívida interna do país, que supera até o movimento das operações de crédito. Enquanto estas foram, como vimos há pouco, de 2 trilhões e 30 bilhões no exercício passado, a margem dos estabelecimentos de crédito foi de 26,9% contra apenas 11% da Selic, média de 2011.

A disparada do crédito, a meu ver, fornece a explicação para o crescimento do consumo, interpretado equivocadamente pela FGV, estudo de Marcelo Neri, como passagem de milhões de brasileiros da classe pobre para a classe média. É o caminho para a verdade. Pois para que se concretizasse tal elevação era indispensável que os reajustes salariais efetuados vencessem a inflação, pelo menos a oficial. Que, inclusive, é a única que pode ser cotejada com o bolso de todos nós. Não tendo ocorrido esse fenômeno salvador de alavancagem, não é possível registrar-se ascensão – aí sim, a palavra vale – sustentável.

Trata-se de um processo de comprometimento da renda. Em matéria de dinheiro, não existem milagres.O volume de crédito negociado através dos bancos, em 2004, assinala Ronaldo D’Ercole, foi de 498,7 bilhões, como o gráfico da editoria de arte do Globo acentua. Em 2005, passou a ser de 607 bilhões. No ano seguinte, foi para 732. Em 2007, o salto atingiu 935 bilhões de reais. Alcançou 1 trilhão e 227 bilhões em 2008. Daí foi para 1 trilhão e 414 bilhões em 2009. No ano de 2010, avançou para 1 trilhão e 705 bilhões. Finalmente, no topo da escala, 2011, chegou a 2 trilhões e 30 bilhões.

Como se observa, enquanto a Selic baixava, o volume de crédito subia. Mais do que a inflação do período, muito mais, como afirmei, do que os salários. Mas onde ficou a valorização do trabalho humano no período? Onde ficou a redistribuição de renda.

Os lucros do capital venceram disparado as reposições das perdas do trabalho. As perdas atingiram o máximo no governo FHC. Equilibraram-se diante dos índices inflacionários durante o governo Lula. Estão mantendo este equilíbrio na fase inicial do governo da presidente Dilma Rousseff.

Como tudo é relativo, em termos de voto na urna, a comparação beneficia as administrações do PT, apesar das tempestades que desabaram a partir do mensalão. O povo procura o crédito. Encontra. Ao contrário de antes. Este crédito ilumina a passagem do não consumo para o consumo possível. Os bancos estão com dinheiro demais. Basta ver que o crédito negociado em 2011 foi quase igual ao nível da dívida interna. Quase igual ao orçamento da União para 2012. Ligeiramente inferior ao PIB do país.

O empréstimo e o financiamento formam um binômio que explica porque o consumo está crescendo. O endividamento também. Onde estará o limite de ambos?

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