Extorsão por telefone, um rastro de mistério

Pedro do Coutto

A tentativa de extorsão por telefone da qual o vice-presidente José Alencar foi o alvo mais recente, e que ganhou repercussão enorme em função de seu cargo político, deixa um rastro de mistério que necessita ser investigado devidamente e esclarecido de forma concreta. Esse crime imundo, como todas as chantagens, seqüestros e extorsões, tem atingido muitas famílias pelo impacto inicial de que se reveste. Os extorquidores telefonam anunciando terem seqüestrado filhos e filhas de uma família. Algo tenebroso que, infelizmente, tem feito com que pessoas entreguem dinheiro e jóias para resgatar jovens que, na realidade, não foram raptados.

Mas falava eu em rastro de mistério. Eis a questão: no seu jornal da manhã de quarta-feira, a TV Record ouviu fontes policiais informando que o telefonema dirigido ao vice presidente partiu de um presídio no Rio de Janeiro. Esta informação, aliás, aplica-se a inúmeros outros casos semelhantes. A reportagem da Record cobrou das autoridades o prometido bloqueio ao uso de celulares por pessoas presas. Uma pergunta importante. Mas existe outra.

Esta outra – que faço- é como de dentro de um presídio os extorquidores conseguem introduzir voz feminina jovem que se passava como filha de José Alencar? Este, creio, pode se tornar um caminho para elucidar diversos mistérios que permanecem como enigmas que atravessam o tempo sem resposta. No caso de José Alencar, era uma falsa seqüestradora que iniciou a ligação. Voz feminina de uma casa de detenção para homens? Como se explica isso? E não é só. Outra voz, esta de mulher jovem, tentando convencer a vítima de que se tratava de sua filha? O que está se passando no sistema prisional?

Há uma atmosfera de conivência no ar. Não só no uso do telefone, mas no sistema policial como um todo. Pois há fatos que se sucedem contra os quais não são tomadas providências efetivas. Como explicar, por exemplo, a presença de armamentos nos morros da cidade na posse de bandos criminosos? Possuem até armas voltadas para abater helicópteros como aconteceu recentemente. E mais de uma vez. Impossível omitir a conivência, já que para impedir isso bastava a Polícia realizar um cerco permanente às vias de acesso.

As armas e as drogas vêm do exterior, afirmação já feita por vários governadores. Vamos aceitar essa crítica indireta à Polícia Federal e até às forças militares escaladas para vigiar as fronteiras. Perfeito. Mas – aí outra pergunta – como as armas e as drogas chegam ao topo das favelas? Têm que subir pelas encostas, não existe outro meio. Então, por qual motivo não se fecha um anel de segurança nessas áreas que são fontes de insegurança? Não há explicação. Há isso sim, omissão.

E contradição. Pois os que permitem a subida das armas agem na base do imediatismo. Esquecem que tais armamentos terminam sempre se voltando contra os próprios autores da conivência, nítida e clara, mortal para eles e para tantas outras pessoas. Os jornais já publicaram até que existe um comércio de aluguel de armas para assaltos. Em muitos casos terminam em confrontos que incluem rajadas de metralhadora. O que significa isso? Simplesmente que as armas deixadas passar, à base da vista grossa, transformam-se em instrumento de violência e assassinatos. Evitáveis. Se os criminosos não pudessem ser reabastecidos para desenvolver seus projetos sinistros e tenebrosos. Na área da segurança pública, antes de mais nada, é preciso decifrar os enigmas e iluminar os mistérios. A tentativa de extorsão que atingiu José Alencar é um exemplo bastante forte.

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