Fachin rebate Bolsonaro, que assume ser candidato de um inexistente “partido militar”

Bolsonaro fez colocações absurdas para o TSE através de Nogueira

Pedro do Coutto

Uma excelente reportagem de Mateus Vargas e Matheus Teixeira, Folha de S. Paulo de terça-feira destaca os pontos principais e sensíveis da resposta do presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Edson Fachin, abrindo à opinião pública perguntas e respostas sobre o sistema eleitoral de outubro, inclusive destacando erros contidos em questões apresentadas ao Tribunal, rejeitando propostas inviáveis para as eleições presidenciais. Em O Globo, a reportagem sobre o assunto é de André de Souza e Jussara Soares.

Analisando-se o conteúdo das perguntas, verifica-se nitidamente que mais do que indagações enviadas pelas Forças Armadas, elas são de fato tópicos de desconfiança sobre um resultado eleitoral que ainda não ocorreu, dando a impressão de que o governo desconfia de uma trama arquitetada na Justiça Eleitoral para prejudicá-lo da computação dos votos dos eleitores e eleitoras do país.

EQUÍVOCOS – Fachin enumera os equívocos e eles flutuam junto à opinião pública como uma acusação destinada a prejudicar a reeleição do próprio Bolsonaro.  A investida do que podemos chamar de partido militar inclui também um comunicado do general Paulo Sérgio Nogueira a Edson Fachin solicitando que o diálogo e, portanto, quaisquer respostas do TSE que possam se tornar um diálogo com as Forças Armadas sejam enviadas diretamente a ele próprio, general Paulo Sérgio Nogueira.

Como se constata, a atmosfera se tornou densa e as prerrogativas levantadas pelo ministro da Defesa pertencem aos partidos políticos, conforme a legislação brasileira. Paulo Sérgio Nogueira admite inclusive, certamente representando o pensamento de Bolsonaro, a contratação de uma auditoria para certificar ou contestar os trabalhos e as computações do TSE. Um absurdo.

Aliás, como observou Demétrio Magnoli, sexta-feira, no programa Em Pauta da GloboNews, participar do processo eleitoral não é tarefa que cabe às Forças Armadas. Na minha opinião, entretanto, está no ar um projeto de intimidação e, pior do que isso ainda, de subversão na medida em que fica claro que o governo Bolsonaro se dispõe a não respeitar o resultado das urnas se ele lhe for desfavorável. Para isso, conta com o partido militar, o que além de ilegal é inconstitucional.

COLOCAÇÕES ABSURDAS – Bolsonaro, através do general Paulo Sérgio Nogueira, faz colocações absurdas para a Presidência do TSE. Uma delas seria o fornecimento dos índices de abstenção e de óbitos ocorridos entre as eleições de 2018 e as que serão realizadas agora em 2022.

A abstenção, na realidade, no Brasil não existe, já que o voto é obrigatório a partir dos 18 anos de idade. A abstenção decorre em parte dos óbitos ocorridos nos últimos quatro anos que não são, na maioria dos casos, informados à Justiça Eleitoral pelos parentes. Como o índice de mortalidade anual no país é de 0.7%, em quatro anos os falecimentos atingem 2,8%. Mas os casos de doenças graves impossibilitam o eleitor de comparecer às urnas para votar. Não se trata de uma abstenção intencional ou de ilegalidade.

TESTES DE AMOSTRAGEM – Há também outro fato rebatido por Fachin, que é sobre os testes de amostragem das urnas. O documento dos militares pede uma amostragem mais ampla porque acha que os índices de 5% são muito pequenos. Fachin contesta esse aspecto, e lembro que com um índice infinitamente menor de entrevistados, o Datafolha acerta a colocação dos candidatos. Cinco por cento, logo, representa uma amostragem gigantesca.

O problema final disso tudo é apenas a sombra de uma ofensiva que vai ganhando corpo e objetivo a cada dia que passa. O objetivo claro do governo Bolsonaro é não respeitar o resultado das urnas se eles colocarem à sua frente Lula da Silva. Esse é o enigma, é o desafio e o lance decisivo para a democracia brasileira.

PETROBRAS –  Na noite de domingo, a Petrobras anunciou mais um reajuste, desta vez no óleo diesel, de 8,8%, apesar de o presidente Bolsonaro ter reagido fortemente contra o aumento da gasolina e do mesmo diesel, além do gás encanado apenas uma semana atrás, no momento em que o presidente da estatal, José Mauro Ferreira Coelho, iniciava a sua administração.

Ferreira Coelho rebateu Bolsonaro no dia seguinte, afirmando que a política de preços iria permanecer. E permaneceu mesmo, com base em mais um aumento seguido do óleo diesel que representa 50% do consumo brasileiro de petróleo. O transporte de cargas é feito em caminhão a diesel e também os ônibus urbanos e interestaduais que trafegam pelo país.

O presidente da República, portanto, não manda mais do que José Mauro Ferreira Coelho no comando da Petrobras. Tanto que ele diz uma coisa e a Petrobras pratica outra. Este é um exemplo concreto. E não para aí a contradição. A Petrobras anunciou que apesar do aumento do diesel, ainda existe uma defasagem de 11% a ser compensada.

VENDA DA ELETROBRAS –  O ministro Paulo Guedes – reportagem de Julio Wiziack e Fábio Pupo –  afirmou que a venda da Eletrobras, que ele pretende concretizar este ano, contribuirá para evitar o aumento nas tarifas de energia antes das eleições. O tema, entretanto, está sob exame no Tribunal de Contas da União e, como tenho observado, existe uma enorme confusão sobre preços e forma de pagamentos que conduzem a questão a um lance de dados  que ameaça ficar na história do Brasil.

Os que comprarem o controle majoritário das ações pagarão somente R$ 25 bilhões à vista. E, agora, mais R$ 32 bilhões num prazo de cinco anos.  Constata-se assim que o preço de R$ 67 bilhões já foi reduzido para R$ 57 bilhões. De qualquer forma, os R$ 67 bilhões seriam quase nada. Afinal de contas são 49 hidrelétricas, 40 eólicas, uma usina solar e o acervo de Furnas, da Chesf, da EletroSul e da EletroNorte. Isso de um lado.

De outro, as tarifas jamais seriam reduzidas ou congeladas. Pelo contrário. As empresas que assumissem o controle acionário não concordavam em não ser remuneradas pelo investimento feito. Paulo Guedes é um excêntrico e suas ações  desvairadas ocorrem uma atrás da outra.

DEMISSÃO DE ALBUQUERQUE – Na manhã de hoje, a GloboNews informou que o presidente Jair Bolsonaro demitiu o almirante Bento Albuquerque do Ministério de Minas e Energia. A demissão só pode ter sido em decorrência de mais um aumento do óleo diesel estabelecido ontem pela Petrobras.

Com a saída de Bento Albuquerque é provável que José Mauro Ferreira Coelho deixe a Presidência da Petrobras porque ele foi indicado para o cargo exatamente pelo almirante e cuja equipe ele integrou.

7 thoughts on “Fachin rebate Bolsonaro, que assume ser candidato de um inexistente “partido militar”

  1. Ministro do STF não tem que ficar fazendo política e muito menos debatendo na imprensa. Ministro do STF deve apenas se limitar a Constituição. Mas, no Brasil não existe um STF e sim uma pocilga cheia de estrume e porcos.

  2. Muitas ações danosas ao Brasil nunca mais poderão ser desfeitas.
    Até concordo que há atividades econômicas que podem ser privatizadas. Mas as formas de fazê-lo já se mostraram absurdamente danosas.
    A Embraer foi vendida por US$ 145 mi! A Vale foi vendida por US$ 3,3 bi!
    Em ambos os casos os compradores “pagaram” a compra em menos de dois anos.
    São uns verdadeiros traidores da pátria.

  3. Quanto ao propalado congelamento de tarifas, é conversa pra boi dormir.
    O Sistema Eletrobrás tem sido inibido em investir pois faz uma politica de atendimento da demanda futura.
    O “mercado”, tem como politica atender a demanda reprimida!
    Logo, o que se verá em prazo curto, será um aumento de tarifa e falta de energia. Será inexorável.
    Alias, discordo do articulista ao denominar de excêntrico o Guedes. É um oportunista clássico. Está devendo explicações quanto a investimentos feitos com recursos de fundos de pensão!

    • O simples fato de ter trabalhado junto com o sanguinário Pinochet pra arrasar de vez com os direitos sociais dos Chilenos já era suficiente para inferir como seria sua gestão.

  4. Setor elétrico é estratégico para qualquer pais do mundo, até nos Estados Unidos as usinas hidroelétricas pertencem e são exploradas por entidades públicas. Além disso, na Inglaterra, 77% dos ingleses querem que as empresas de energia elétrica, que foram privatizadas durante a administração Tatcher, sejam reestatizadas, motivadas pela baixa qualidade dos serviços e pelas altas tarifas.
    A herança do PauloJegusimo vai ser pior que a herança do próprio Bolsonaro.

  5. As análises do jornalista Pedro do Coutto estão cada vez mais delirantes, já que são baseadas nas invencionices da imprensa narco-socialista e não em fatos concretos.

    Ele toma como absurdo o pedido do representante LEGAL das Forças Armadas sobre as estatísticas de eleitores. Se consultasse outros meios de informações, saberia das milhares de denúncias de CANCELAMENTOS de títulos eleitorais de IDOSOS vivos, por parte dos marginais do TSE. Imediatamente após a revelação da safadeza, o TSE suspendeu os cancelamentos. Isto é fato, não boato, Sr Pedro do Coutto.

    Por falar em “partido militar inconstitucional”, como será que o experiente jornalista Pedro do Coutto sentiu-se quando o “constitucional” partido de marginais do STF, para não cumprir lei aprovada no Congresso, declarou que todos os votos impressos que ele, Pedro do Coutto, depositou nas urnas, desde a Constituição de 1946, foram inconstitucionais?

  6. Ele tem o direito de não querer sair, logo como sabe que pelo método atual ‘já perdeu’, está querendo encontrar outro modo de permanecer no poder; simples assim.

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