Faixa de miséria no país é muito maior que os 8,5% do IBGE

Pedro do Coutto

Com base em levantamento do IBGE, o governo Dilma Roussef vai elaborar, ou já está elaborando, de acordo com o que anuncia a ministra Tereza Campello, do Desenvolvimento Social, um plano para erradicar a miséria absoluta no país. Claro, a tarefa é dificílima e demanda, segundo a vontade da presidente da República, pelo menos um período de quatro anos.

Entretanto, o diretor do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Eduardo Nunes, como base para a jornada, informa a existência de 16 milhões e 300 mil pessoas, ou 8,5% da população brasileira, abaixo da linha de pobreza. Qual o critério para tal classificação?
A renda per capita de 70 reais por mês. Absolutamente incrível. Mesmo levando-se em conta que tal valor decorre da divisão da renda familiar pelo número de seus integrantes. Como a média é de 3,3 pessoas por unidade, como o próprio IBGE divulgou nacionalmente há poucos dias, verifica-se que são miseráveis os que conseguem perceber por mês cerca de 240 reais. Basta multiplicar 70 por 3,3 para, segundo as lentes do IBGE, fotografar-se a miséria. Esta parcela não chega a obter meio salário mínimo, 545 reais em vigor no país. O que se conclui? Que o nível de miséria, o nível real, é muito maior que a percentagem de 8,5% do total de habitantes.

Pois como é possível alguém viver com 70 reais? O salário mínimo é de 545. E abrange, de acordo com o próprio IBGE, 27% da mão de obra ativa nacional. Não tem cabimento considerar-se que o Brasil reúna apenas 16,3 milhões de miseráveis, se 52% dos que trabalham ganham mensalmente até 2 salários mínimos. E a parcela amplamente majoritária daqueles cujos salários alcançam até 3 pisos é de 61%. O contingente de miséria só pode ser, pelo menos, o dobro da escala de 16,3 milhões de pessoas. Ou seja: 17% do total de habitantes.
Todos devem ler a reportagem de Marta Salomon, O Estado de São Paulo de quarta-feira 4, sustentada por ótima edição gráfica, para fixar uma noção clara e ampla do quadro social brasileiro. Não se pode brigar com os fatos e contestar uma realidade que se afirma sensível e perceptível aos olhos da maioria pensante. Pois se no país 45% dos domicílios não possuem rede de esgoto nem sistema de fossas sépticas, a miséria não pode englobar apenas 8,5%. Se assim fosse, o índice percentual das moradias com sistema sanitário seria muito maior do que é.

O esforço a que se propõe a presidente Dilma Rousseff é louvável e positivo. Uma questão inclusive de consciência e de responsabilidade humana. Mas tem que se voltar para um número muito maior de pessoas do que o estimado pelo IBGE. Caso contrário, não estará operando um universo real. E sim virtual, para se usar a linguagem moderna, a do universo da informatização.

O déficit de esgotos é enorme. O de água tratada também. Quatorze por cento dos brasileiros não contam com ela. Surge uma fonte de doenças, inclusive contagiosas, em consequência. E o déficit de residências? Muito grande, inclusive no Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília. São doze milhões de unidades no país, pelo menos, envolvendo em torno de 40 milhões de habitantes.

O quadro real da miséria, da pobreza, da carência intensa, é muito mais amplo do que parece e se anuncia. Muito profundo. A miséria, na qual percentagem acentuada da população está submersa, tem implicações negativas muito profundas. Em suas raízes, evidentemente, está a fome, gerando desespero e desesperança. Qual o peso destes fatores?

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