Falta conhecer os planos e programas de Dilma

Carlos Chagas

Diplomada que foi, Dilma Rousseff falou pouco na cerimônia.  Acontecerá no dia da posse, quando receber a faixa presidencial, o seu pronunciamento mais denso? Pouco provável, tendo em vista o local, no caso o saguão principal do palácio do Planalto, o número de convidados e a emoção que marca esse tipo de solenidade.  Assim, aguardam-se as diretrizes de governo da nova presidente no atual  interregno entre a diplomação e a posse. Mas também pode ser que no primeiro dia de janeiro, à noite, ela se  dirija à nação, não propriamente para prestar contas, mas para adiantar planos,  programas e concepções.

Cada sucessão envolve características distintas. A atual vem cercada de alegria e transcorrerá sob o signo da continuidade, dos abraços, dos monumentais elogios entre os que saem e os que chegam, na maioria  os mesmos. O Lula poderá chegar às lágrimas, concentrando as atenções até o momento de descer a rampa. O que ele realizou, já sabemos. Falta conhecer, de viva voz, o que pretende realizar  a sucessora.

HÁ CINQUENTA ANOS FOI DIFERENTE

Vale lembrar como as sucessões são diferentes. Há cinqüenta anos Jânio Quadros tinha sido eleito por incontestável maioria e prendia as atenções tanto pelo seu histrionismo quanto pela falta de definições, excetuadas as tiradas demagógicas dos palanques. Juscelino Kubitschek, de  malas prontas, também era popularíssimo, mas desconfiava do sucessor.

Um amigo comum do que saía e do que entrava, o poeta Augusto Frederico Schmidt, procurou JK  dias antes da posse e confidenciou a má notícia: Jânio havia preparado  violento ataque ao antecessor, acusando-o de deixar a economia nacional em frangalhos, falando até  de improbidade. Leria a catilinária  no momento da transmissão da faixa.

Juscelino mandou chamar o chefe do Cerimonial, embaixador Aloysio Napoleão, pedindo para ver o planejamento da solenidade.  Mudou tudo, fazendo com que os dois presidentes ficassem frente a frente no meio do salão,  não mais do que um metro separando-os, e  os respectivos ministros e auxiliares bem atrás, muito atrás. E disse a Augusto Frederico Schmidt que se Jânio atingisse a sua honra, daria um passo adiante e um soco na cara dele. Seria um escândalo internacional,  comentou, mas estava firmemente decidido a reagir assim.

O poeta deu o recado, ainda que ficasse a expectativa de como as coisas transcorreriam. Na hora, Jânio não discursou, fazendo uma  saudação cheia de elogios a Juscelino, que foi embora feliz para a Europa, naquela noite mesmo. Quando o avião da Panair já sobrevoava o Atlântico, o piloto chamou-o à cabine, e passou-lhe os fones de ouvido para que tomasse conhecimento do discurso do novo presidente,  transmitido em  cadeia de  rádio e televisão. Era a peça raivosa e cheia de acusações virulentas.

Essa história tem mais um capítulo. Anos depois, ambos cassados pelo movimento militar, jamais se tinham encontrado quando JK foi ao Guarujá fazer uma palestra. Descansava no quarto do hotel quando Jânio irrompe pela porta, nem lhe dando tempo para levantar.  Senta-se na beirada da cama, segura os braços de Juscelino e exclama: “Errei, meu amigo, errei! Também, eu nem tinha lido antes o discurso que o Schmidt escreveu para mim…”

PASSOU DOS LIMITES

Louve-se o senador Eduardo Suplicy pela  coragem e  franqueza com que se pronuncia sobre todos os assuntos em debate no Congresso. O eleitorado lhe faz justiça, reelegendo-o sempre com a maior votação de São Paulo. Só que de vez em quando ele exagera. Ontem, pegou o microfone para cantar, todo desafinado, uma das composições de Noel Rosa, no plenário, durante sessão em que o compositor foi homenageado. Convenhamos, assim é demais…

INJUSTIÇA

Tem tucano que mais parece urubu. No PSDB, estão criticando os oito governadores do partido por se terem reunido em Sergipe, esta semana, para definir uma estratégia comum no  relacionamento com o governo Dilma Rousseff. Alguns líderes chegam a dizer que os governadores aderiram, abrindo mão da postura oposicionista, traindo o partido.

Não é nada disso. O que eles decidiram foi manter relações republicanas com o palácio do Planalto porque precisam do governo federal,  tanto quanto o governo federal precisa deles. Não farão de seus estados trincheiras políticas para alvejar Brasília. Mas continuam integrando o partido, respeitando suas posições e apoiando suas bancadas, naquilo que lhes couber.



This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *