Falta de responsabilidade social predomina nos grandes clubes cariocas

Paulo Peres

Os grandes clubes cariocas, Vasco da Gama, Flamengo, Fluminense e Botafogo sempre tiveram uma preocupação muito grande com as crianças, ou seja, com seus atletas da categoria de base, onde o futebol predomina. Entretanto, estes clubes estão na mira do Ministério Público devido às péssimas condições oferecidas aos jovens, muitos deles residentes nos clubes, pois vêm de outros municípios e estados.

O Vasco da Gama, pode servir de exemplo, pois convive, atualmente, com água racionada, alimentação inadequada e insalubridade: adolescentes que sonham em se tornar ídolos do futebol na categoria de base do Vasco são obrigados a enfrentar dificuldades antes mesmo de entrar em campo. Com sede, muitos chegam a beber água do chuveiro, segundo promotores de Justiça da Infância e da Juventude da capital.

Devido à precariedade, a Justiça determinou que “as atividades do CT do clube, em Itaguaí, estão suspensas. Como se sabe, em fevereiro o adolescente Wendel Junior Venâncio da Silva morreu após passar mal no local”.

“As condições do alojamento de São Januário e do CT são piores do que as da maioria das unidades destinadas a adolescentes em conflito com a lei. O alojamento tem péssimas condições de higiene e conforto, com infiltrações, camas sem estrado, colchões velhos e armários quebrados. Diariamente, a vida desses jovens é colocada em risco quando são transportados para treinar em um ônibus velho, sem cinto de segurança e com buracos no painel devido à falta de instrumentos”, afirma a promotora Clisânger Ferreira Gonçalves Luzes, da Infância e Juventude.

O clube terá que cumprir uma série de determinações no alojamento de São Januário em 30 dias, a partir do último dia 19, e caso descumpra o determinado pelo MP, corre o risco de pagar multas de R$ 30 mil.
Os adolescentes também reclamavam de fome e se alimentam em refeitório separado dos funcionários do clube, onde a alimentação é inferior. “As condições são insalubres. Os alimentos, como a carne, não são bem armazenados, a geladeira tem ferrugem”, conta Clisânger.

Entre as medidas da Justiça está a interdição do refeitório. Cerca de 60 jovens foram obrigados a tomar banho com garrafas pet por falta de chuveiro e usar um único um vaso sanitário com descarga. A escola Vasco da Gama, que funciona dentro de São Januário, também está na mira da Justiça.

A Juíza da 1ª Vara da Infância, da Juventude e do Idoso, Ivone Ferreira Caetana comparou na sentença as condições enfrentadas pelos adolescentes da categoria de base do Vasco à escravidão. “A postura da agremiação (…) é merecedora do mais veemente repúdio, podendo ser equiparada ao delito de redução à condição análoga à de escravo, o que igualmente malfere e ofende todo o sistema de organização do trabalho”

O clube omitiu a existência do CT em Itaguaí, que só foi descoberto após a morte de Wendel. “No dia em que o adolescente morreu, não havia médico no local. Como o lugar é distante, isso pode ter contribuído para morte. O conjunto de elementos, como a falta de alimentação adequada, de hidratação e exames prévios pode ter contribuído para esse trágico acontecimento”, explica Clisânger.

Os promotores estão fiscalizando ainda as categorias de base do Fla, Flu e Botafogo. “No Flamengo, tem adolescente que guarda seus pertences na mala há um ano porque não tem armário, além de terem sido detectados problemas no Ninho do Urubu”, conta a promotora Rosana Cipriano Simão.

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MENTALIDADE ERRADA

A promotora Ana Cristina Macedo critica o tratamento dado pelas agremiações aos adolescentes que sonham com uma carreira profissional no futebol. Para ela, a mentalidade dos clubes é a seguinte: “Nós estamos fazendo um favor aos adolescentes, então nós podemos fazer o que nós quisermos com eles.

“É uma mentalidade futebolística que não serve para a infância. Se o clube aceita que aquele adolescente esteja ali, ele vai ter que proporcionar a ele tudo o que ele teria em sua casa. Eles (clubes) têm muita dificuldade em entender isso “.

Ana Cristina Macedo ainda ressaltou o papel dos pais dos atletas que ingressam em categorias de base. Segundo a promotora, nem todos estão cientes da forma como os filhos são tratados. “Por outro lado, também tem a resistência dos pais. Eu tive que abordar uma mãe em uma das inspeções, pedi para conversar com ela, expliquei qual era o papel do MP, que nós éramos promotores da infância e adolescência, que estávamos ali para exigir a segurança daquele espaço. Essa mãe se recusou a falar comigo e arrancou com o carro e me deixou na poeira do CT”.

Lamentavelmente, esta triste realidade que acontece nos grandes clubes cariocas, certamente, existe na maioria dos clubes do país e com maior gravidade naqueles de médio e de pequeno porte. A intervenção do Ministério Público, portanto, deveria ocorrer em todo o Brasil.

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