Falta denunciar a nudez do rei

Carlos Chagas

Todo mundo conhece a história do menininho que denunciou  a nudez do rei. Com todo o respeito, falta um pimpolho no governo para alertar o presidente Lula da bobagem que vem fazendo ao exigir dos partidos que o apóiam candidaturas únicas a governador, nos estados. O desgaste já é grande e muito maior ficará quando o primeiro-companheiro tenta enquadrar o próprio PT, assim como os demais associados, impondo que  sacrifiquem candidaturas próprias em favor  de alianças artificiais.  Enfiar num mesmo saco gatos, caranguejos, baratas, cobras e macacos nunca deu certo.

Alguém precisa dizer ao presidente que quanto mais palanques, melhor, desde que os diversos candidatos se comprometam em apoiar Dilma Rousseff. Equivale a enfraquecer o PT  obrigar Patrus Ananias e Fernando Pimentel a renunciar às  suas pretensões em  Minas, abrindo mão da disputa  pelo palácio da Liberdade em favor de Hélio Costa.  Em São Paulo, porque insistir em Ciro Gomes, em detrimento de Eduardo e Marta Suplicy, Aloísio Mercadante, Antônio Palocci e outros? No Rio, como explicar o abandono de Lindberg Farias em favor de Sérgio Cabral? Por que desagradar Geddel Vieira Lima e o PMDB, na Bahia, em favor de Jacques Wagner? E assim por diante.

Salta aos olhos que quanto mais candidatos nos estados,  melhor. Exprimirão mais votos. A única exceção vai para as eleições presidenciais, quando dividir poderá ser fatal, como parece que aconteceu no Chile. Mas nas escolhas de governadores, nem pensar.   Depressa, um menininho…

A marcha de quatro milhões

Sem ser militar, o ministro Reinhold Stephanes mostra ser bom de guerra. Ou de guerrilha, porque ainda esta semana voltou a criticar, de público, aspectos do Plano Nacional dos Direito Humanos. Reafirmou não ter sido consultado, nem a agricultura,  a respeito da recomendação inconstitucional de que invasões de terra devem ser submetidas a acordo entre invasores e proprietários, antes que a Justiça se pronuncie.

O ministro lembrou que seu colega da Defesa, Nelson Jobim, conseguiu reverter parte do plano porque tinha atrás dele o Exército. Mas completou, dizendo que uma tropa de quatro  milhões de produtores rurais poderia muito bem marchar sobre Brasília. Resta saber se com ele de general, à frente.

Visão distorcida

Na abertura dos trabalhos do Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, escorregou o dirigente  maior do MST, João Pedro Stédile, ao exortar os sem-terra a   não votarem  em José Serra,  porque o governador paulista  seria a volta ao neoliberalismo e aos tempos de Fernando Henrique Cardoso. Escorregou por dois motivos: primeiro porque Serra pode muito bem não ser neoliberal, capaz de surpreender. Depois, porque o neoliberalismo não precisa voltar, porque  nunca foi embora.  Ou a política econômica do governo Lula não é, sem tirar nem pôr, a mesma do sociólogo?

Stédile não teve coragem, ainda, de recomendar o voto em Dilma Rousseff, talvez porque o governo dela, se eleita, significará a continuação do governo Lula, ou seja, a permanência do neoliberalismo…

A crise de Brasília

Na capital federal, o dia seguinte sempre consegue ficar um pouquinho pior do que a véspera.

Aliados do governador José Roberto Arruda conseguiram impedir o depoimento do cineasta-delator Durval Barbosa, aquele que distribuía maços de dinheiro para  deputados, secretários e o próprio governador. A maioria dos deputados distritais quer o ex-secretário calado porque uma só pergunta faria o céu desabar sobre Brasília: de onde vieram  os muitos milhões que distribuiu?

Outra abominável pratica a lamentar no Planalto Central corre por conta das telinhas. Todas as redes de TV vem cobrindo com eficiência o escândalo do  mensalão local. Os telejornais locais não poupam os participantes.

O constrangimento aparece   quando entram os intervalos comerciais. Neles, é  maciça a propaganda do governo Arruda, com criancinhas sorrindo, donas de casa festejando   e operários trabalhando entre tratores, guindastes e obras brotando do chão – tudo sob a mensagem de “três anos trabalhando para você!”

Raras vezes jornalismo e propaganda bateram tão de frente assim. Em termos de ética, as emissoras não deveriam ter denunciado os contratos de publicidade? Ou, no reverso da medalha, o Arruda não poderia tê-los retirado?

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