Falta um conselheiro no Planalto

Carlos Chagas

Fecha-se o círculo em torno de Erenice Guerra. A aposta é sobre quanto tempo vai agüentar na chefia da Casa Civil. Breve seu desgaste será maior do que o suportado por José Dirceu. Justiça se faça ao ex-todo-poderoso antecessor, em meio às trapalhadas do mensalão ele jamais envolveu sua família.

Registra-se estar sendo a imprensa implacável com Erenice, mas imaginar  as denúncias dos jornalões como manobra eleitoral beira as raias da insanidade. Não houvessem os fatos, não haveriam as notícias.

Quem mais se prejudica é o presidente Lula. Cada dia que passa com a ministra despachando  no andar de cima fornece material para enfraquecer a biografia do chefe do governo, por enquanto  sem afetar-lhe a popularidade, mas alimentando dúvidas para o historiador do  futuro. De complacente ele poderá ser tido como  leniente.

Falta alguém no palácio do Planalto com coragem suficiente para aconselhar o Lula a livrar-se de Erenice, já que ela não toma a iniciativa de pedir as contas. Quem sabe  Dilma Rousseff  exerceria  esse papel?

Megalomania

Até a megalomania tem limites. Quem não tem é o sociólogo, que  acaba de produzir mais uma evidência de estar o seu ego na estratosfera. Declarou que o presidente Lula não engoliu até hoje haver perdido duas vezes para ele a eleição presidencial. E acrescentou: “acho que ele quer me derrotar, mas não sou candidato”.

Além de haver comparado o Lula a Mussolini e de se ter oferecido a José Serra, que solenemente o ignora,   Fernando Henrique Cardoso demonstra como não se deve comportar um ex-presidente da República. Dá palpite em tudo. Imagina-se no centro do mundo. Melhor faria recolher-se, quem sabe apelando à população para esquecer tudo o que vem falando.

Pior que o atual, só o próximo

Dizia o dr. Ulysses Guimarães: “pior do que o atual Congresso, só o próximo”.  Já o também  saudoso Gustavo Capanema sustentava ser o Congresso o retrato da nação, nem melhor nem pior. Para o Tiririca, “pior não fica”.

Na iminência de vermos o singular palhaço como o deputado federal  mais votado em São Paulo, a pergunta vai para o novo  perfil da Câmara e do Senado. Importa menos se de saída  a maioria dos futuros parlamentares entoará loas a Dilma Rousseff. Do que precisarão cuidar é da  instituição. Oportunidade ímpar abre-se para a próxima Legislatura caso, em seus primeiros meses, deputados e senadores cuidem de realizar a reforma política. Mesmo contra seus interesses. Uma Grande Comissão poderia encarregar-se de reunir as centenas de propostas encaminhadas nos últimos anos, todas, aliás, paralisadas. Seria o ponto de partida, com ou sem a participação do Executivo. Mas com prazos rigidamente estabelecidos, para aprovação até o final de 2011. Rejeitando, é óbvio, a absurda tese da convocação de uma Assembléia Constituinte exclusiva para essa finalidade.

Ausências sentidas

Duas  ausências registraram-se   lançamento, terça-feira,  do livro com depoimentos dos porta-vozes da presidência da República, desde Juscelino Kubitschek. Não se fala, é claro, dos que já embarcaram para o outro mundo, mas de profissionais que não compareceram  nem redigiram suas experiências. Por sinal, foram  dos mais competentes no exercício da amarga tarefa: o general Toledo Camargo, dos tempos do presidente Geisel, e Ana Tavares, do presidente Fernando Henrique. Terão tido suas razões, mas fizeram falta na solenidade presidida pelo presidente Lula, no palácio do Planalto.  Sem a pretensão de fazer História, os depoimentos ajudam a compreender um pouco mais os meandros políticos  das últimas décadas.

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