Falta um estadista

Sebastio Nery

Candidato a presidente, em 1995, Juscelino saiu pelo Pas visitando o PSD. Desceu na Bahia e Antonio Balbino, governador do PSD-PTB, ainda estava em cima do muro:

– Juscelino, qual a verdadeira posio do Caf?

– Qual deles, Balbino? O vegetal ou o animal?

Foi para Pernambuco. Etelvino insistia: -Juscelino, vamos rever o assunto e fazer a unio nacional.

– Etelvino, j sei que voc est contra mim. Quando voc fala em unio nacional, na verdade est pensando em Unio Democrtica Nacional.

Candidato no faz unio. Candidato disputa. Quem faz unio governo.

***
JUSCELINO

E voltou para Minas. Em 31 de dezembro, o chefe da Casa Militar da Presidncia, Juarez Tvora (candidato da UDN derrotado por JK), entregou a Caf Filho um documento em que as autoridades militares apelavam para uma colaborao interpartidria, um candidato nico e civil.

O documento s foi divulgado no dia 27 de janeiro, em A Voz do Brasil. Juscelino respondeu com um discurso duro, escrito por Augusto Frederico Schmidt, que terminava com a frase magistral:

– Deus me poupou o sentimento do medo.

***
FMI

J no governo, jantar no Palcio Laranjeiras. JK recebe um grupo de amigos: Tancredo Neves, Vinicius Valadares, Joo Luis Soares, Fausto Fonseca e o coronel Afonso Heliodoro. Chega um oficial de gabinete:

– Presidente, a Radional chamando de Washington, urgente.

Saiu apressado. Silncio na mesa. Quinze minutos depois, volta Juscelino. Cabea baixa, mos crispadas, visivelmente emocionado:

– Era o Walter, de Washington (Walter Moreira Sales, embaixador nos Estados Unidos). Eles esto querendo demais. Querem o petrleo, a reforma cambial, parando as metas. Nossa pacincia tem limites. Haja o que houver, no entregaremos o petrleo nem faremos a reforma cambial.

***
PRESTES

JK rompeu com o FMI (Fundo Monetrio Internacional), exatamente por no querer fazer a reforma cambial nem interromper o Programa de Metas, inclusive Brasilia, energia e estradas. Choviam telegramas no Catete. A Voz do Brasil transmitia pronunciamentos de solidariedade.

Os estudantes anunciaram uma manifestao de apoio a JK, em frente ao Catete. Ele no queria, a UNE insistiu. Concordou, contanto que fosse apenas uma manifestao de estudantes, sem qualquer marca poltica, pois o problema do FMI era um problema nacional.

tarde, a praa em frente ao Catete estava superlotada: estudantes, trabalhadores, o povo na rua para ajudar o presidente a sustentar a briga. JK apareceu, falou, saiu. No jantar, seu lider Abelardo Jurema contou:

– Presidente, sabe quem estava na praa? Prestes. No meio do povo.

Juscelino deu uma gargalhada. Jurema no entendeu:

– Isso vai lhe causar problemas, presidente. Por que o senhor ri?

– S quero ver o editorial do Globo amanh.

***
GRCIA

O martrio que a Grcia, patrimonio da humanidade, est vivendo tem uma razo bsica : falta-lhe um estadista. O Brasil com Juscelino tinha um estadista no comando. Nossa grande imprensa, venal e vassala dos banqueiros, pergunta por que a maioria da populao grega, do governo e da oposio, repele o plano do FMI, da Unio Europeia e dos bancos.

Eles j viram essa missa na crise internacional de 2009: varios bilhes de dolares de emprstimos para evitar o calote da Grcia e no ficou um tosto no pais. Foi tudo para pagar os juros da divida grega. Dois anos depois, a Grcia deve muito mais e querem emprestar-lhe mais outras dezenas da bilhes para a rolagem dos juros dos banqueiros.

E para isso exigem que a Grcia pague com sangue : cortes nos salrios, aposentadorias e empregos, desemprego e entrega das empresas.

***
KIRCHNER

Falta Grecia um Kirchner. Em 2003, a Argentina e seu povo estavam falidos, a maioria da populao na misria, crescimento zero. Kirchner comunicou que s pagaria 25% da divida, porque os 75% eram roubo, juros sobre juros. At de invaso foi ameaado. Kirchner ps o FMI e os banqueiros de joelhos e todos acabaram aceitando os 25%. A partir da a Argentina vem dando banho, crescendo 8% a 10% todo ano.

E o Brasil patinando, rezando para crescer 3,5% este ano. A Folha diz que o Brasil gasta este ano R$ 230 bilhes com juros da divida publica

E a impostura de Lula de que nossa divida acabou? Ele fez uma trampa: trocou a divida em dlar pela divida em real, com juros em dobro.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.