Falta um rei ao Brasil

Sebastião Nery

MADRID – A história tem fila. O marechal Franco morreu em 20 de novembro de 1975, depois de longa agonia. (“Francisco Franco Caudilho de Espanha Por la Gracia de Dios” e la desgracia de los hombres…).  Logo no dia 22, o príncipe Juan Carlos (nasceu em Roma em 1938, neto de Afonso XIII) foi proclamado Rei da Espanha (37 anos) e iniciou a brilhante operação política da abertura, anunciando uma Monarquia democrática. O Rei surpreende a Espanha, e o mundo, convoca uma Constituinte, e chama o jovem Adolfo Suarez, 44 anos, para Presidente.

Começava a grande lição da Espanha. E eu aqui na sala de aula.

O GOLPE

Aquela Constituinte era uma lição para o mundo. Depois de 41 anos de ditadura, a Espanha entregava o pais à competência determinação e sabedoria de três jovens : o rei Juan Carlos, 39 anos; o chefe do governo Adolfo Suarez, 45 anos; e Felipe Gonzalez o líder da oposição, 35 anos. Os três construíram a nova Espanha. Mas não foi fácil.

Em 1981, o tenente coronel Tejero, à frente de um pelotão do Exército, invadiu o Parlamento, todos de metralhadora na mão. Os deputados esconderam-se atrás de suas bancadas. Um só, desafiador, ficou de pé e mandou o tenente-coronel respeitar o Parlamento. Era Adolfo Suarez, já então apenas um deputado.

O rei, general e brigadeiro, chefe das Forças Armadas, pôs a farda de gala, foi ao ministério do Exercito e exigiu que Tejero e seu grupo fossem imediatamente presos. Foram e o golpe acabou.

FELIPE

No dia 6 de setembro de 1988, como fazia toda terça-feira, o carro do chefe do governo, Felipe Gonzalez, parou às 10 da manhã na porta do Palácio Zarzuela. Sobe ao 1º andar e entra no gabinete do rei:

– Senhor, quero aproveitar este primeiro encontro depois do verão para comentar uma coisa em que tenho pensado muito. Não é nenhuma comunicação oficial. Simplesmente o resultado de uma reflexão.

O rei tomou um susto: – O que é que há?

– Senhor, há quase 6 anos sou presidente do governo e me faltam dois de legislatura. Creio que 8 anos são um período suficiente e estou pensando na conveniência de não me apresentar para as eleições de 1990.

– Não continue. Peço-te que pense mais sobre isso e voltaremos a falar mais adiante.

– Desculpe que insista. Quero dizer-lhe que não desejo falar sobre o assunto. Nem agora nem nunca. Só queria que soubesse que há esta possibilidade e, em minha maneira de ser e de entender o jogo político, não quero que algum dia o senhor se surpreenda quando vier ao palácio entregar minha carta de demissão.

– Quero dizer-te não. É impossível. O país neste momento não pode prescindir de tua pessoa. A democracia e o senso de responsabilidade histórica estão acima do teu desejo de ir embora. Tens que continuar conduzindo o país.

Continuou, disputou e ganhou ainda as eleições de 90 e só saiu em 94 quando não disputou mais e o Partido Popular de José Maria Aznar venceu o partido Socialista, já liderado por outro.

Durante muito tempo se disse em Madri que a Espanha tinha um rei e um vice-rei. O vice-rei era Felipe, o ex Isidoro cabeludo.

Com comícios, eleições, o povo na rua, governo eleito, o jornal “El Pais” nascendo, a revista “Cambio 16” circulando livre, a Espanha de 1977 já era bem outra, muito diferente da Espanha fascista, que eu tinha conhecido antes, com Franco e o franquismo ainda vivos, em 1963 e 73.

A BRUXA

No Brasil é terrível constatar nossa desvalida República. Estamos precisando de um rei que como Juan Carlos da Espanha tivesse autoridade, respeitabilidade e assumisse o comando político na hora em que o país entrasse em perigo com sua unidade nacional abalada.

O espetáculo dantesco que o Congresso Nacional está dando todos os dias, abrindo as entranhas com divisões de interesses baratos e cada um buscando um naco de poder pode levar o pais a um impasse. É assim que as nações se esfarelam, se dissolvem.

Se tivéssemos uma presidente da República que não pensasse só em comprar a sua permanência no poder tudo seria mais fácil. Como estamos, em determinado instante alguma esfera legal do poder, (o Legislativo, o Judiciário) vão ter que interferir. Quem não tem rei caça com gato.

É inacreditável como uma Nação leva uma rasteira de uma Presidente. Imaginávamos que Dona Dilma, eleita, aplicaria seus talentos públicos para construir um país sólido e sereno. Como em uma história de carochinha, ela abriu a panela e passou a fazer maldades. Para que? Ate agora para nada.

Estamos assim sem Rei, sem Rainha, nas mãos de uma bruxa.

7 thoughts on “Falta um rei ao Brasil

  1. Ainda bem que não temos um rei pois já sustentamos uma família imperial, que não faz nada. Imagina se ainda tivéssemos um rei ativo. Iam faltar impostos para cobrir toda a roubalheira. Triste país que tem um rei, pois toda a população já nasce de segunda classe.

  2. Concordo com Paulo_2, que a nação chefiada por um rei o povo já “nasce de segunda classe”.
    A frase pode ser forte, mas verdadeira.
    Basta olharmos os salamaleques que a população é submetida diante da presença das Altezas, como se fossem pessoas do outro mundo, afora protocolos ridículos de genuflexão e cabeças baixas.
    Depois, por que as dinastias?
    Não só é rei a vida toda, como seus filhos, netos, bisnetos …
    A troco do quê?
    De uma tradição e cultura retrógradas?
    Sustentar inúteis?
    Os reis e rainhas não deveriam mais existir, já gozaram e muito desta condição de superioridade entre os humanos, e produziram escândalos os mais variados pelos exageros, imunidades, enfim, um regime que deveria estar extinto desde o final da Segunda Guerra Mundial, quando o planeta mudou o rumo político.
    A própria Espanha teve problemas de corrupção com a família real, inclusive o comportamento absolutamente condenável do rei quando foi matar elefantes na África, e voltou com o pé quebrado, se não me engano.
    E não evitou que a Espanha viva uma de suas maiores crises econômicas, que dura um bom tempo, sem perspectivas de melhoras.
    Imaginem uma família dese tipo no Brasil!
    Mordomias, regalias, abusos … os gastos que não produziriam e, nós, os vassalos, sendo obrigados a trabalhar de sol a sol para pagar pelas despesas de suas majestades, que não perderiam as funções “reais” porque vitalícias, portanto, pobre povo brasileiro se ainda fosse chefiado uma pessoa que, sabe-se lá, como não seria!

    • Caro Bendl,
      Como você, sou contra a monarquia. Mas releia seu comentário e me diga, com sua habitual sinceridade, se a maior parte do que você colocou como defeito em ter um rei já não se aplica aos nossos políticos atuais…
      As mordomias, o desprezo pelo povo, a inutilidade, e até as dinastias 🙂

      • (Complementando) e, segundo reportagens recentes, o gasto que a Inglaterra tem com a sua família real é muito menor do que o gasto que temos para sustentar a presidência da república… Com a vantagem de que a rainha Elizabeth pelo menos não atrapalha o país.

      • Meu prezado Wilson,
        Concordo contigo plenamente.
        No entanto, esses corruptos e desonestos que infestam o Congresso podem apear do poder a cada eleição, caso tivéssemos o discernimento para tanto.
        Em se tratando das majestades, o cara fica a vida inteira e ainda passa o poder para seus descendentes!
        Tá, admito que os políticos – alguns, aqueles com mais influência que os demais – também conseguem colocar parentes no serviço público sem concurso ou em diretorias de estatais, mas para por aí.
        A grande questão é por que uma família, e sabe-se lá as razões para isso, é entronada e temos de reverenciá-la porque ela nos dá um rei ou rainha, e temos de colocá-los em pedestal e passam a ser intocáveis, sustentados, morando em palácios, gastando fortunas arrecadados de nossos impostos e vivem assim a vida toda, e passando o poder para seus filhos.
        A Mega Sena, mesmo para aquele que a ganha sozinho, é troco perto desse prêmio simplesmente fantástico e incomparável obtido!
        Agora, Wilson, sou obrigado a admitir que nossos parlamentares vivem como príncipes herdeiros, pois recai sobre a presidência, principalmente exercida pela Dilma, o posto de rainha do Brasil, pela sua inutilidade, viagens, gastos com cartões corporativos, péssima administradora, sem autoridade moral, responsável pelo caos político e econômico, uma legítima déspota!
        Um abraço, meu amigo.

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