Faltam dois dias para Dona Dilma tomar posse. Com as dificuldades visíveis e previsíveis, surgiu um problema novo planejado contra ela: a presidência da Câmara.

Helio Fernandes

O último presidente da República Velha, Washington Luiz, como tantos, não terminou o mandato. Deixou uma frase que ele mesmo não cumpriu: “Governar é abrir estradas”. Não é, vá lá, também é.

Em 1894, quando Henry Ford botou o primeiro carro na rua, os EUA estavam  completamente cortados por ferrovias (a marcha para o Oeste, que depois virou a exaltação dos filmes de bangue-bangue) e estradas. O Brasil tinha ferrovias pertencentes a trustes (como se dizia então) e com nomes complicados e dificilmente pronunciáveis até mesmo em áreas urbanas. Não tínhamos a não ser “estradas carroçáveis”, precisamos começar do zero.

Os países cresceram, as populações aumentaram, os problemas se multiplicaram, chegamos a Dona Dilma. Que ultrapassou os problemas da transição, tinha a impressão de que enfrentaria dificuldades, mas não agora e não tão complicadas.

Pois surgiu um que não estava na agenda, foi tramado, planejado e executado por políticos sem expressão individual, mas que coletivamente podem complicar, tumultuar e infernizar o início do governo de Dona Dilma.

Falo da presidência da Câmara. Parecia tudo acomodado, a disputa era entre o PT e o PMDB, proporcionalmente os dois com maiores bancadas de deputados. A dúvida ou divergência: quem assumiria nos 2 primeiros anos e nos 2 últimos. Acertado, o PT começaria, o PMDB terminaria.

Os candidatos naturais do PT e do PMDB se afastaram, até mesmo os que pareciam favoritos, como Candido Vaccarezza, do PT.  Surgiu então como candidato natural do grupo majoritário, o deputado do PT do Rio Grande do Sul, Marco Maia.

O grupo de lobistas (revelei aqui) pretendia eleger João Paulo Cunha, que já presidiu a Câmara, perdeu tudo, envolvido no mensalão, embora não cassado. Parecia haver acomodação, mesmo os lobistas e os partidários dos não-fichas-limpas, davam a impressão de desarticulados.

Só que não estavam desligados, esperavam o descontentamento e o ressentimento das escolhas ministeriais, para se organizarem, se comporem com a oposição. E encontrarem um nome que juntasse todos, satisfação geral na oposição, que quebrava regulamentos, práticas, costumes e tradições, mas voltavam a ser procurados.

Só que o novo candidato não era mais o deputado do mensalão, e sim o do PCdoB, Aldo Rebelo. Este está sempre à disposição, como não pode ser prefeito, senador, governador (os votos só chegam para deputado), se realiza como presidente da Câmara, destruindo o princípio rígido da proporcionalidade.

Quando Fernando Gabeira, com “o grito do Ipiranga”, perdão, “da Esplanada”, derrubou o presidente Severino Cavalcanti, na confusão, Aldo Rebelo se fez presidente da Câmara. Agora não é nada por acaso, foi um envolvimento preparado.

Dona Dilma precisa prestar atenção redobrada, não é apenas a presidência da Câmara que está em ebulição. É a segurança do seu próprio governo, nessa articulação do deputado do PCdoB. Deputados de todas as órbitas, de todas as legendas, da oposição (até natural), mas principalmente da base. Como próprio deputado do PCdoB, que recebeu muito mais do que merecia eleitoralmente.

 ***

PS – Dona Dilma, teoricamente, tem todo o mês de janeiro para conversar, mas tem que resolver com a URGÊNCIA e a IMPORTÂNCIA do movimento. O principal lema dessa rebelião é INTIMIDAÇÃO e RECOMPENSA.

PS2 – Por causa disso, Dona Dilma não pode se descuidar ou pensar que é pura reivindicação. Querem o cargo, de grande visibilidade, mas pretendem também testar a resistência da presidente.

PS3 – É a primeira batalha da grande guerra da arte de governar. Muitos pensavam ou admitiam que os obstáculos políticos estavam superados. Pois é precisamente pelo setor político que começa a contestação de Dona Dilma.

PS4 – Tudo dependerá de como reagirá a esse desafio-intimidação-contestação.

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