Favelas não param de crescer na cidade do Rio

Pedro do Coutto

Há algum tempo, O Globo publicou reportagem de página inteira focalizando o veloz crescimento das favelas na cidade do Rio de Janeiro, colocando em confronto índices de 1999 e 2008. O levantamento é do Instituto do Rio, mantido por uma série de entidades e empresas, especialmente a Firjan e a Fecomércio. Rio. Como vamos? Mal, esi a resposta.

A degradação da qualidade de vida urbana é evidente. Quem sobe ou desce de avião no Aeroporto Tom Jobim constata do alto o crescimento das áreas críticas, manchas cada vez mais fortes de pobreza. Os reflexos correlatos são enormes, Da queda dos padrões de saneamento à segurança pública.

Em 99, havia no Rio 45,2 milhões de metros quadrados de favelas. Em 2008, este número cresceu para 45,8 milhões de metros quadrados, uma progressão da ordem de 6%. Acredito que a pesquisa restringiu-se aos morros, não considerando as favelas planas ou as que apresentam acesso de automóvel, casos da Maré e Vila Cruzeiro. Caso contrário, a progressão teria sido identificada em maior escala. Como seria de esperar, não incluiu no total crítico os que moram em porões como seria de esperar, os que vivem embaixo das pontes e viadutos. Mas vamos ficar nas encostas de dificuldade humana.

O Datafolha realizou uma pesquisa a respeito de como a população carioca via o projeto do governador Sérgio Cabral de colocar muros ao lado das favelas da zona sul. Pela margem estreita de 47 a 44, a iniciativa foi aprovada. Compreende-se o resultado da manifestação. Ela sobretudo inclui uma idéia de distanciamento que, à primeira vista, fornece uma perspectiva de segurança. Como se fosse possível pensar: o problema mora ao lado. Não é conosco. Estamos fora da tempestade. Ela ataca os outros, não a  nós.

O muro deixou de ser tema de discussão, mas verifica-se que ele não representa uma solução. Há um reservatório enorme de problemas sociais. Com base num princípio físico eterno, se mantivermos qualquer quantidade cumprindo-a num espaço menor, a pressão inevitavelmente subirá. É o caso da pressão arterial nos seres humanos. Agora, verifica-se que o avanço das favelas continua. A pressão também.

E nem poderia ser o contrário. Os problemas fundamentais que causaram a favelização progressiva permanecem. A começar pelo desemprego e pelo fato de os salários perderem para a inflação do IBGE. Enquanto tais condições persistirem, a extensão das favelas, de forma horizontal ou vertical, prosseguirá. Uma consequência da concentração de renda. Basta lembrar o seguinte: em 1961, governo Carlos Lacerda, o Rio possuía 3 milhões de habitantes e 300 mil moradores em favelas. Dez por cento da população.

(Este artigo está sendo republicado, porque Pedro do Coutto está viajando)

Hoje, a cidade tem 6 milhões de habitantes e 2 milhões de favelados. A população total duplicou. A das favelas sextuplicou. Não é preciso dizer mais nada. O ritmo social negativo segue em frente. Só pode ser contido, não por muros, como o de Berlim, ou o construído por George Bush entre os EUA e o México, mas sim por uma política trabalhista e social de cuja ausência o Rio e o país se ressentem. O crescimento das favelas é um efeito. Não uma causa. Enquanto as causas que produzem o processo crítico não forem afastadas, ele permanecerá. Não há sinal no horizonte que o panorama possa mudar. Uma pena. Um desastre.

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