Faz 140 anos que os operários franceses tomaram o poder e criaram a Comuna de Paris, a primeira república proletária da História. Mas quem lembra disso?

Carlos Newton

Circula na internet (e me foi enviada pelo comentarista Mário Assis) uma mensagem de que hoje completam-se 140 anos da Comuna de Paris. Claro que a mídia nem pautou este assunto. Foi o primeiro governo operário da história, fundado em 1871 na capital francesa por ocasião da resistência popular ante à invasão das tropas alemãs.

Durante a chamada Guerra Franco-Prussiana, as províncias francesas elegeram para a Assembleia Nacional uma maioria de deputados monarquistas francamente favorável à capitulação ante a Prússia. A população de Paris, no entanto, opunha-se a essa política.

Adolphe Tihers, chefe do Gabinete conservador, tentou esmagar os insurretos. Estes, porém, conseguiram o apoio da Guarda Nacional, derrotaram as forças legalistas, obrigando os membros do governo a abandonarem precipitadamente Paris, onde o comitê central da Guarda Nacional passou a exercer a autoridade.

A Comuna de Paris – considerada a primeira república proletária da História – adotou uma política de caráter  socialista, baseada nos princípios da Primeira Internacional. Mas só manteve o poder durante cerca de dois meses. Seu esmagamento revestiu-se de extrema crueldade. Mais de 20 mil revoltosos foram executados pelas forças de Thiers.

O governo, que durou oficialmente até 28 de maio, enfrentou não só o invasor alemão como também tropas francesas, pois a Comuna era um movimento de revolta ante o armistício assinado pelo governo francês (transferido para Versalhes) após a derrota na Guerra Franco-Prussiana. Detalhe: os alemães tiveram que libertar militares franceses feitos prisioneiros de guerra, para auxiliar na tomada de Paris, contra os revoltosos da Comuna.

Nesta data histórica, segue o poema do genial dramaturgo alemão Bertolt Brecht em homenagem aos homens, mulheres e até mesmo crianças francesas que participaram daqueles dias memoráveis.

Resolução

Considerando nossa fraqueza, os senhores forjaram
Suas leis, para nos escravizarem.
As leis não mais serão respeitadas
Considerando que não queremos mais ser escravos.

Considerando que os senhores nos ameaçam
Com fuzis e com canhões,
Nós decidimos: de agora em diante
Temeremos mais a miséria do que a morte.

Considerando que ficaremos famintos
Se suportarmos que continuem nos roubando,
Queremos deixar bem claro que são apenas vidraças
Que nos separam deste bom pão que nos falta.

Considerando que os senhores nos ameaçam
Com fuzis e canhões,
Nós decidimos: de agora em diante
Temeremos mais a miséria que a morte.

Considerando que existem grandes mansões
Enquanto os senhores nos deixam sem teto,
Nós decidimos: agora nelas nos instalaremos
Porque em nossos buracos não temos mais condições de ficar.

Considerando que os senhores nos ameaçam
Com fuzis e canhões,
Nós decidimos: de agora em diante
Temeremos mais a miséria do que a morte.

Considerando que está sobrando carvão
Enquanto nós gelamos de frio por falta dele,
Nós decidimos que vamos tomá-lo,
Considerando que ele nos aquecerá.

Considerando que os senhores nos ameaçam
Com fuzis e canhões,
Nós decidimos: de agora em diante
Temeremos mais a miséria do que a morte.

Considerando que para os senhores não é possível
Nos pagarem um salário justo,
Tomaremos nós mesmos as fábricas.
Considerando que, sem os senhores, tudo será melhor para nós.

Considerando que os senhores nos ameaçam
Com fuzis e canhões,
Nós decidimos: de agora em diante
Temeremos mais a miséria que a morte.

Considerando que o que o governo nos promete sempre
Está muito longe de nos inspirar confiança,
Nós decidimos tomar o poder
Para podermos levar uma vida melhor.

Considerando que vocês escutam os canhões,
Outra linguagem não conseguem compreender.
Deveremos então, sim, isso valerá a pena,
Apontar os canhões contra os senhores!

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