Faz sucesso na internet o telegrama de Lincoln Gordon sobre a atuação de Roberto Marinho na ditadura

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Carlos Newton

Neste ano em que lembramos os 50 anos do golpe civil-militar de 64, vão surgindo informações e documentos que revelam mais detalhes sobre as articulações entre empresários e a ditadura.

O sempre presente comentarista Celso Serra nos envia artigo que circula com sucesso na internet, publicado na Folha, que é sócia de O Globo no jornal Valor Econômico, mas deu  uma demonstração de independência. O artigo mostra o empenho de Roberto Marinho, criador das Organizações Globo, em fechar de vez o regime, suspendendo as eleições diretas para presidente da República. É para ler e não esquecer.

Detalhe: em São Paulo, existe uma Avenida Jornalista Roberto Marinho (originalmente, Avenida Água Espraiada). Sabem quem homenageou o ilustre adulador de ditadores? Marta Suplicy, então prefeita pelo PT. Sem comentários.

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A GLOBALIZAÇÃO NA POLÍTICA

Ricardo Mello
Folha de São Paulo.

O texto abaixo refere-se a um telegrama de 14 de agosto de 1965, um ano e alguns meses após o golpe de 1964. Foi enviado pelo então embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Lincoln Gordon. Reproduz conversas com o dono das Organizações Globo, Roberto Marinho. Ambos já morreram.

A transcrição do essencial do documento (o original na íntegra pode ser encontrado facilmente pelo Google) serve para muita coisa. Oferece aos que não usam a internet — sim, existem estas pessoas — o acesso a um instante da história que até hoje atormenta o país. Demonstra, também, que nem sempre as chamadas teorias conspiratórias representam fantasias. São muitas vezes práticas conspiratórias com nome, endereço e autores conhecidos.

Neste caso, de consequências trágicas, não deixa de ser espantoso ver uma liderança da “sociedade civil” ensinando um ditador a abolir eleições diretas para permanecer no poder. De graça não deve ter sido. As conclusões ficam a cargo do leitor.

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“Para: Departamento de Estado

14 de agosto de 1965

Este é um relato de um encontro extremamente confidencial com Roberto Marinho, publisher do Globo’, sobre os problemas da sucessão presidencial. A proteção da fonte é essencial.

Marinho estava convencido de que a manutenção de Castello Branco como presidente é indispensável para a continuidade das políticas governamentais presentes e para evitar uma crise política desastrosa. Ele tem trabalhado silenciosamente com um grupo incluindo o general Ernesto Geisel, chefe da Casa Militar, general Golbery, chefe do Serviço de Informações, Luiz Vianna, chefe da Casa Civil, Paulo Sarazate, uns dos amigos mais íntimos do presidente.

No início de julho, Marinho teve um almoço privado com o presidente. Marinho achou Castello bastante resistente a qualquer forma de continuidade de mandato ou sua reeleição. Marinho também pediu a volta do embaixador Juracy Magalhães para ser o ministro da Justiça. Objetivo: ter Juracy como um possível candidato a sucessor de Castello e melhorar o funcionamento daquele ministério, cujo ocupante, Milton Campos, é extremamente respeitável, mas dócil demais.

No dia 31 de julho, Marinho teve um segundo almoço reservado com o presidente no qual ele insistiu que eleições presidenciais diretas em 1966 sem ter Castello como candidato poderia trazer sérios riscos de retrocessos. Tudo bem pensar em Juracy Magalhães ou Bilac Pinto como sucessores, mas a eleição deles não estava garantida. E a indicação, pelo PTB, do marechal Lott com uma plataforma abertamente antirrevolucionária e com o apoio dos comunistas ilustrava os perigos.

Marinho falou ao presidente que entendia o desejo de Castello de manter a promessa de deixar o poder no começo de 1967, mas se isso fosse feito ao custo de uma volta do Brasil ao passado, Castello estaria violando a confiança que a nação tinha depositado nele. Para Marinho, Castello deveria pesar as alternativas e riscos cuidadosamente. Embora Castello não tivesse indicado explicitamente, Marinho saiu satisfeito no final da conversa. Achou que o presidente não se oporia e mesmo daria sua colaboração a medidas que permitissem sua reeleição, provavelmente na forma de eleição indireta.

Nestas bases, o grupo planejou uma estratégia para transformar a eleição presidencial de 1966 em eleição indireta e viabilizar a candidatura de Castello Branco. Os próximos passos eram ganhar alguns membros chaves do Congresso tais como Pedro Aleixo, Bilac Pinto, Filinto Muller e líderes do PSD. Marinho enfatizou que muitos obstáculos inesperados poderiam surgir nesta estratégia, que com certeza terá a oposição de Lacerda por um lado e de forças antirrevolucionárias por outro lado.

Comentário. As colunas de fofoca política estão cheias de especulações sobre mudanças no regime. Eu considero as informações de Marinho muito mais confiáveis.

Lincoln Gordon.”

 

9 thoughts on “Faz sucesso na internet o telegrama de Lincoln Gordon sobre a atuação de Roberto Marinho na ditadura

  1. Pelo pouco que sei, naquele momento não era viável uma mudança. E por isso, o excelente governo militar permaneceu no poder, o que poderia durar pelo menos 8 anos e não os 20 como aconteceu.

  2. Carlos Newton,
    O Dr. Celso Serra é um dos maiores cientistas políticos do País. É, talvez, o maior Indianista vivo. Conhece a fundo as mutretas das falsas tribos indígenas do Brasil(FUNAI). Ele engradeceria a sua TRIBUNA NA INTERNET se seus artigos aparecessem diariamente.

  3. Carlos, quem traduziu a parte que qualifica Milton Campos como “é extremamente respeitável, mas dócil demais”?
    A tradução correta é “um velho cavalheiro extremamente respeitável, mas completamente fora de moda (ou obsoleto)”, o que muda inteiramente o sentido; Milton Campos nunca foi “dócil”, como todos os que conhecem sua carreira podem comprovar. Foi, sim, educado, e extremamente correto, o que é completamente diferente, e que, aparentemente, para os americanos em questão estava fora de moda para um Ministro da Justiça. Para os americanos e os golpistas, pelo contrário, interessaria muito mais um Ministro da Justiça que fosse “dócil”, que cedesse aos anseios da ditadura.

  4. A infiltração dos Estados Unidos no Brasil era (sempre foi) uma realidade. Civis e militares brasileiros, juntos, estiveram conspirando contra nossas instituições, transmitindo informações deste tipo – e assim funcionaram como elementos facilitadores para conseguir o objetivo em pauta (o golpe).
    Nos livros do ELIO GASPARI, lemos (fartura de documentos) que até mesmo uma invasão americana com maciço poderio bélico contra o território brasileiro esteve iminente. Os fatos, elencados, são impressionantes.
    Em uma de suas colunas, anos atrás, HELIO FERNANDES escreveu que o então presidente FHC, na madrugada, chamou Lula ao palácio, e disse para o petista; “olhe para esta cama (presidencial): você é quem dormirá nela …” Nunca desmentiram o Helio … e ISTO nunca foi bem explicado. Agora … temos os depoimentos do TUMA JR e outros, apontando para um “Lula Agente da CIA” (???).
    É muita sujeira junta. A original política, cuja finalidade era administrar cidades, hoje encontra-se desfigurada pela lama em que está atolada.
    O mau cheiro que vem dos Estados Unidos é fortíssimo, como sempre.
    Mas o mau cheiro que vem daqui mesmo … é ainda mais forte.
    E … nada mudará.

  5. O Roberto Marinho não fez mais do que sua obrigação de patriota porque o perigo comunista ainda rondava o Brasil de Norte a Sul.
    É fácil bater em quem já morreu.
    Jornalista que fala mal dele é porque nunca trabalhou na Rede Globo e em O Globo.
    Os comunas que estão no poder estão com as horas contadas.
    Quem viver, verá.

  6. Bem, diante de tão contundente telegrama, onde fica bem claro o apoio do “O GLOBO” na pessoa do seu titular ROBERTO MARINHO à REVOLUÇÃO e a sua continuidade, pois, ainda pairava a ameaça de um retrocesso, fico aqui pensando de qual marqueteiro do “GLOBO” partiu aquela declaração, recente, de que o apoio tinha sido um equívoco!

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