Faz sucesso na internet um post do jornalista Ricardo Setti, em que ele exibe a gravação do então presidente Lula pedindo desculpas à nação e se dizendo traído pelos petistas que criaram o Mensalão.

Carlos Newton

“Recordar é viver”, diz a letra da marchinha de Aldacir Louro, A. Marins e Macedo. E a tecnologia atual nos possibilita recordar com total exatidão o que os homens públicos fazem ou declaram. Essa situação, aliás, já tinha sido prevista no século passado pelo jornalista e filósofo irlandês Bernard Shaw, quando começou a ser difundido o uso do microfone.

Shaw dizia que os políticos demagogos seriam desmascarados, porque que seria muito mais difícil mentir ao microfone do que discursando apenas de viva voz. O genial filósofo estava apenas parcialmente certo, porque o que iria mesmo desmistificar os políticos seria o videotape, que ainda iria demorar muito para ser inventado.  

Em seu blog, Ricardo Setti bate pesado, usa e abusa da ironia: “Pois agora o pessoal do PT tem que engolir. É a Polícia Federal quem diz que o mensalão existiu, sim, que envolveu dinheiro público e que o santo-dos-santos do lulalato, o próprio ex-presidente, foi beneficiado pelo esquema”.

O colunista lembra de que “no final do ano passado, numa espécie de festa de despedida realizada no Rio, Lula avisou que subirá ao palanque dos candidatos dos partidos aliados a prefeito em 2012, disse que iria continuar na vida política depois de deixar o poder, e voltou a insistir na insânia de que o mensalão não foi um escândalo de roubalheira, caixa 2 e outros crimes para comprar votos em apoio a seu governo, mas um movimento de tons “golpistas”.

Em seu artigo, Setti destaca que, dias antes, Lula prometera que, fora do poder, iria ajudar a “desmontar a farsa do mensalão”. Ou seja, chamou de “farsa” o escândalo da compra de votos em troca de apoio a seu governo que provocou uma brutal crise política em 2005, levou à demissão e posterior cassação do mandato de deputado de seu chefe da Casa Civil, José Dirceu, e resultou num processo criminal ora em curso no Supremo Tribunal Federal, no qual o procurador-geral da República acusa Dirceu de comandar uma quadrilha.

“Vai ser interessante, agora, ver como o Deus do lulalato conseguirá realizar esse último propósito, diante do que revelou a Polícia Federal  sobre a montanha de dinheiro sem explicação comprovadamente distribuído a figurões petistas, das operações bancárias espertíssimas, dos empréstimos fajutos — e por aí vai”, afirma Setti, acrescentando:

“Vai ser mais interessante ainda ver os esforços do ex-presidente para borrar da história recente o famoso discurso transmitido pela TV a 12 de agosto de 2005, em que, constrangido, apalermado, abatido, sem saber para onde dirigir o olhar, levemente trêmulo, ele declarou perante a o país — em pleno fragor do escândalo — que fora “traído” e mencionou “desculpas”.

Acentua Setti que nesse discurso, feito na Granja do Torto, em Brasília, antes de uma reunião ministerial, “Lula não explicou quem o traiu — nunca explicou, aliás, e agora está desmemoriado, esquecido completamente do assunto – , mas a alegação da traição ficou, insiste em ficar, e continua latejando. Nem esclareceu exatamente o porquê do pedido de desculpas aos brasileiros”.

“Se Lula fez o discurso da traição durante o escândalo, é claro que se destinava a, de alguma forma, apresentar uma explicação ao país sobre a espantosa sucessão de bandalheiras que a cada dia vinham à tona — uma explicação frouxa, gaguejante, canhestra, reticente e vazia, mas uma explicação”, acrescenta.

“Se Lula proferiu o discurso e denunciou a traição, ocorreu naquele momento um explícito reconhecimento de que o mensalão não apenas existiu, mas teria propiciado esse seriíssimo agravo ao presidente da República. Como, depois disso, sem mais nem porquê, de repente não existiram a montanha de dinheiro, a CPI no Congresso, os depoimentos no Supremo e, sobretudo, o discurso? Tudo teria sido uma “farsa” e uma tentativa de “truncar o mandato de um presidente democraticamente eleito”? E como fica a tão elogiada Polícia Federal e sua atuação durante o lulalato?”, destaca o jornalista, dublê de memorialista, mostrando que recordar é viver.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *