Faz sucesso na web o drama do gerente honesto da Petrobras

Gésio alertou Graça Foster e acabou sendo punido

Raquel Landim
Folha

O engenheiro Gesio Rangel de Andrade foi “colocado na geladeira” na Petrobras por se opor ao superfaturamento da obra do gasoduto Urucu-Manaus, na Amazônia. A afirmação é de Rosane França, viúva de Gesio, que morreu há dois anos, vítima de ataque cardíaco.

Segundo ela, pessoas da estatal tentaram constranger seu marido a aprovar aditivos para a obra. Ele não concordou e foi exonerado do cargo, permanecendo por dois anos sem qualquer função.

Os gastos com o gasoduto Urucu-Manaus estouraram todas as previsões. A área técnica estimou a obra em R$ 1,2 bilhão, mas o contrato foi fechado por R$ 2,4 bilhão, após pressão das construtoras.

O gasoduto demorou três anos para ficar pronto e o custo chegou a R$ 4,48 bilhões. A estatal aprovou um aditivo de R$ 563 milhões para um dos trechos, praticamente o valor daquele contrato.

Com 663 quilômetros, o gasoduto transporta gás natural produzido pela Petrobras em Urucu até as termelétricas da Amazônia. O gás substitui parte do óleo diesel queimado pelas usinas, reduzindo o custo da energia.

Gesio era o gerente-geral da obra do gasoduto. Segundo Rosane, o marido alertou Graça Foster, que ocupou o cargo de diretora de Gás e Energia.

A viúva não cita nomes, mas em e-mails enviados aos seus superiores, aos quais a reportagem teve acesso, Gesio reclama da diretoria de engenharia, comandava por Renato Duque, que negociava com as empreiteiras.

A Petrobras informou em nota que o gasoduto é um “empreendimento lucrativo” e que foi preciso “alterar a metodologia de construção devido às condições adversas na Amazônia”. As construtoras não se manifestaram.

O TCU investigou o caso, mas não encontrou indícios de superfaturamento por conta da dificuldade de compará-lo com obras semelhantes. O órgão detectou falhas graves no projeto feito pela engenharia da Petrobras. O caso ainda está em análise.

ENTREVISTA

Ex-funcionária da Petrobras, Rosane França, 56, diz que não sabe de casos de corrupção na estatal, mas que “sempre tinha alguém recebendo uma herança”. A família move ação trabalhista contra a Petrobras. Leia trechos da entrevista:

– Qual é a relação da sua família com a Petrobras?
Entrei para a companhia em 1980 e o Gesio já trabalha lá desde 1976. Casamos em 1986 e tivemos três filhos. Gesio fez carreira na Petrobras e se tornou referência na área de gás natural. Até que foi convidado para ser o gerente do gasoduto Urucu-Manaus.

– O que aconteceu?
Foram realizadas três licitações. Duas foram canceladas por preços excessivos cobrados pelas construtoras, e a terceira foi feita à revelia do Gesio. É claro que tinha a pressão das empreiteiras, mas quando profissionais da sua empresa dizem que você tem que aceitar, é pressão interna. Ele recebia recados de que o projeto não andava por causa dele e algumas decisões foram impostas.

– Por que Gesio era contra aditivos para a obra?
O preço que a Petrobras aceitou já estava superfaturado. Era mais caro do que fazer gasoduto na Europa com alemão trabalhando. Como ele ia assinar algo que seria contestado pelo TCU?

– Quem estava pressionando o Gesio dentro da Petrobras?
Não vou citar nomes.

– Ele soube de corrupção?
É claro que eu ouvia desabafos. Nunca soubemos de um caso de corrupção, mas é lógico que você percebe que fulano viaja com os filhos para fora do país três vezes por ano. Sempre tinha alguém recebendo uma herança.

– Gesio foi exonerado do comando da obra do gasoduto no fim de 2007. Por quê?
Ele foi exonerado no meio da noite, quando o diretor de gás e energia [Ildo Sauer] saiu e antes do sucessor [Graça Foster] entrar. Ele ficou como consultor informal da nova diretoria por alguns meses até que foi afastado de vez.

– Gesio alertou seus superiores –Ildo Sauer e Graça Foster– do que estava ocorrendo?
Sim. O primeiro fazia parte da tropa de choque que queria brecar o superfaturamento da obra. Depois, ele informou o que estava ocorrendo para a nova diretoria.

– O salário dele caiu? O que aconteceu com o padrão de vida da família?
Foi muito duro. No final, ele recebia 50% a menos. Foi nessa época que entramos com um processo na Justiça do Trabalho. Morávamos num apartamento alugado, mas tivemos que voltar para o imóvel que ele vivia quando era solteiro. Não sobrava dinheiro para trocar de carro. Ele chegava no estacionamento da Petrobras e o pessoal ficava sacaneando. “E aí, Gesio? Não vai trocar de carro? Tá na hora.”

– Por que ele não preferiu ignorar os problemas?
Ele era honesto. Era um homem humilde, que foi educado para ser honesto e sofreu muito por isso. Encontrou muitas pessoas que não eram assim. Ele queria fazer as obras pelo menor preço e foi colocado na geladeira.

– Você pretende mover outro processo contra a Petrobras?
Ele pretendia processar a empresa por danos morais quando se aposentasse. Como o caso começou a vir à tona, estamos estudando essa possibilidade.

###
NOTA DA REDAÇÃO DO BLOGEsta entrevista foi publicada em 17 de abril deste ano, antes, portanto, da Operação Lava Jato. O texto circula pela internet e ganha cada vez mais leitura, porque mostra que Graça Foster, antes de ser presidente, já sabia das irregularidades e da atuação de Renato Duque. O texto nos foi enviado pelo sempre atento comentarista Mário Assis. Já havíamos publicado aqui, mas vale a pena ler de novo.  (C.N)

10 thoughts on “Faz sucesso na web o drama do gerente honesto da Petrobras

  1. Existe alguma duvida, que a presidência da petrobras , não sabia !! É claro que sabia, e é, também claríssimo, que a PresidAnta e o Lula safado da vida, sabiam

  2. Discordo frontalmente de sua sentença, que levaria a privatização da Petrobrás, nossa maior empresa pública e motor do desenvolvimento nacional, desde a sua criação no governo Getúlio Vargas.

    Por quê discordar? Porque seria medida inócua, pois a corrupção no Brasil é endêmica, logo sob o controle dos poderosos grupos privados a corrupção seria ainda danosa para os brasileiros. Consórcio seria formado e algum grupo internacional associado as empreiteiras venceria o leilão com financiamento do BNDES e o lucro iria para fora do país, talvez Europa ou EUA.

    O produto da riqueza petrolífera deixaria de irrigar a economia já em decadência e passaria a compor a alavanca para países ricos driblarem a crise de 2008. Algumas receitas para a crise que nos assola atualmente, a mais descrita nas entrevistas dos economistas que comandarão postos chaves no futuro governo, é a concessão de empresas públicas. É a receita da venda do patrimônio público, sem tirar nem por.

    Falar em privatização soa como tirar o sofá da sala. Ao invés de vender nosso maior ativo, porque não se envereda pelo combate firme contra corruptos e corruptores. Empreiteiras e gestores públicos em sintonia da roubalheira devem amargar as fétidas prisões brasileiras sem pena nem dó e também devolverem o produto do roubo depositado em paraísos fiscais.

    Privatizar, então, significa vender aos algozes corruptores da Petrobrás, portanto, premiá-los por nos terem roubado por tantos anos e que só agora, pelo aumento excessivo da tunga, o escândalo da quadrilha veio felizmente a tona.

    É preciso estancar a rapina, substituindo os gestores aliados das empreiteiras nos negócios ilícitos e seguir em frente. Há no corpo técnico e administrativo da Petrobrás, pessoas honestas e capazes, que podem assumir as funções de direção e gerenciais, entretanto, as indicações políticas não pode continuar, sob pena de continuação das mesmas maracutaias num futuro próximo. Empresa pública não combina com indicações partidárias, isso foi constatado ao longo da história do Brasil. Apenas empregados orgânicos deveriam ocupar cargos tanto na Petrobrás, quanto em todas as empresas públicas, do mais simples até a Diretoria.

    Já está na hora de impedir que empregados honestos amarguem a geladeira, por não concordarem com a roubalheira. O nó da questão será saber quem colocará o guiso no gato. Só tenho uma certeza, a de que a privatização não é o remédio ideal, quiçá seja o pior deles.

  3. Comentário perfeito, Nascimento.
    O erro é a indicação política vigente ao longo dos tempos, inclusive atuais.
    Mas privatizar, como fizeram e querem continuar, é coisa de quem quer só olhar, sem nada fazer.
    Partilho e compartilho a sua certeza final, de que é a pior solução.

    • Obrigado por compartilhar minha sugestões e ideias. Penso sempre no melhor para o Brasil e seu povo. A corrupção tem que ser combatida a ferro e fogo sem tréguas. Privatizar é entregar a raposa, o controle do galinheiro para que estas possam comer as galinhas e os ovos também.

  4. As empreiteiras demonstram o seu ódio aos empregados públicos, quando assumem nos leilões, o controle das empresas públicos. Por que será? Cartas para a redação do Blog.

  5. DILMA LIVRA PETROBRAS OU PERDE O BONDE DA HISTÓRIA

    Os ataques entre petistas e tucanos (militantes ou “voluntários”) nas redes sociais dão ideia de que a campanha não encerrou, com foco maior nos escândalos da Petrobras e cada lado pondo culpa no outro, enquanto seus líderes maiores atuam para aquietar os ânimos a fim de que tudo continue como está porque no fundo se entrelaçam em duas décadas de desgovernos.

    A partilha de poder feita hipoteticamente para garantir “governabilidade” vem de décadas promovendo contratos bilionários entre o setor público e empresas, que nas eleições corroem a política financiando candidaturas à revelia dos partidos. Assim tem sido desde os mandatos de Fernando Henrique Cardoso e Luís Inácio Lula da Silva até o atual mandato da presidente Dilma Rousseff, feita poste pelo antecessor e que agora reeleita pode se libertar dessa imagem aprofundando as investigações e pondo fim no loteamento político das estatais, pelo menos.

    Esta expectativa está delineada no site do PDT, na longa entrevista do físico Luiz Pinguelli Rosa, que não entra em disputas sem lógica ou noção e aponta os caminhos para superar a crise: “Na verdade, não dou muito crédito a isso, que um lado era bonzinho e o outro, mau. É natural que a defesa vá alegar essas coisas, isso faz parte do jogo. Mas nessa escala que está aí demonstrada, acho que é um processo viciado. A surpresa é ter chegado a tal ponto. Essa é a surpresa. Acho que é possível agir com mão forte, botar pingos nos is, afastar os caras, evitar essa protelação brasileira, de que tudo vai sempre sendo empurrado adiante e tal”, diz ele… http://www.pdt.org.br/index.php/noticias/pinguelli-precisa-acabar-o-loteamento-politico-nas-estatais

  6. Pingback: CAMBADA DE CANALHAS | Blog do Licio Maciel

  7. Essa roubalheira da Petrobrás já passou dos limites. Todo o mundo sabe que os cabeças dessa ladroagem são os políticos do Partido da Ética que dizia não roubar e não deixar roubar, tudo papo furado de político ladrão safado e 171, e na verdade esse partido é o PARTIDO DA CORRUPÇÃO. A responsabilidade é de parte da população que os elegeu com seus votos nos cargos que ocupam. Dizem que cada povo tem os políticos que merecem, povo que vota em ladrão é cúmplice dos roubos. Se a chefe do executivo fosse uma pessoa séria e honesta que governasse para o povo e visasse melhorias do país, já teria demitido toda a diretoria da Petrobrás e nomeado uma nova diretoria. Mas uma pessoa que já pertenceu a grupos extremistas que assaltavam caminhoneiros na baixada fluminense, assaltavam bancos, assaltaram a residência do governador Ademar de Barros e praticavam atos de terrorismo, essa pessoa que agora quer possar de “Santa do Pau Ôco”, não pode ser gente de boa índole, só se for no inferno. Essa “Santa do Pau Ôco” com esse passado mais sujo que pau de galinheiro, de personalidade que foi capaz de fazer tantas maldades e barbaridades no passado recente, contra pessoas inocentes que ela nem sequer conhecia é, com certeza, uma pessoa que para se associar e defender políticos corruptos é fácil, é “mamão com açúcar”. Para os brasileiros honestos, trabalhadores, chefes de família e que amam esse país só resta rezar, e se depender da honestidade e competência desse governo que estará no poder nesses próximos 4 anos para um Brasil melhor, infelizmente só lamento, só nos resta sentar e chorar.

Deixe uma resposta para Wagner Pires Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *