Feliz Ano Novo para os 5,7% de desempregados, uma ficção estatística. Para o IBGE, só está desempregado quem insiste em procurar emprego. A pesquisa é feita em seis capitais. No interior, não há levantamento.

Carlos Newton

São muito interessantes as estatísticas no Brasil. O levantamento do número de desempregados, então, é um espetáculo. Além do IBGE, também a Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade) e o Departamento Intersindical de Estatística e Estudo Sócio-Econômicos (Dieese) declaram medir a taxa de desemprego.

O governo faz o cálculo através do IBGE, que utiliza o critério de desemprego aberto, no qual somente as pessoas que no período de referência estavam disponíveis para trabalhar e realmente procuraram trabalho são consideradas desempregadas. O cálculo é feito com base em dados de seis regiões metropolitanas: São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Salvador e Recife.

A taxa de desemprego é uma porcentagem da População Economicamente Ativa, que hipoteticamente poderia ser calculada com base em diferentes metodologias. O IBGE, repita-se, utiliza o exótico critério de somente considerar desempregadas as pessoas que no período de referência estavam disponíveis para trabalhar e realmente procuraram trabalho.

O Seade e o Dieese – que realizam a pesquisa no Distrito Federal e nas regiões metropolitanas de São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte, Salvador e Recife – adotam o critério de desemprego total, que engloba também o desemprego oculto. Nessa categoria estão aqueles que não procuraram emprego por desalento ou porque estavam exercendo um trabalho precário.

Esses cálculos levam a resultados muito diferentes. Na região metropolitana de São Paulo, por exemplo, enquanto o IBGE apontava em agosto de 2000 uma taxa de desemprego aberto de 7,55%, a Fundação Seade e o Dieese chegavam a uma taxa de desemprego total de 17,7%. Não dá para levar a sério cálculos estatísticos que apresentam variação de cerca de 120 por cento.

Com base no esdrúxulo critério do IBGE, os números do governo são animadores e fazem inveja aos países desenvolvidos. Apenas 5,7% de desempregados. Seria tão bom se fosse verdade. Mas os números são ilusórios. Empregos no Brasil duram menos de dois anos, diz pesquisa da Universidade de Brasília (UnB), mostrando que 40% das pessoas que trabalham com carteira assinada perdem o emprego todos os anos, uma taxa altíssima de rotatividade.

Além disso, 50% dos empregos duram menos de 24 meses e 25% duram menos de oito meses. Apenas 25% têm duração maior que cinco anos, segundo dados do próprio Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), mantido pelo Ministério do Trabalho. E metade dos trabalhadores brasileiros fica menos de dois anos no mesmo emprego, segundo pesquisa feita por Roberto Gonzalez, mestre em Sociologia pela UnB. Pior ainda: segundo a Fundação Getúlio Vargas, 65% dos trabalhadores não têm carteira assinada.

O IBGE diz investigar o mercado de trabalho por meio de várias pesquisas. Além da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio), produz também a Pesquisa Mensal de Emprego – PME, que dá esses resultados ilusórios e espetaculares. O desemprego realmente diminuiu no governo Lula, mas esses 5,7% são uma brincadeira sem graça.

Já vejo o pesquisador do IBGE subindo o Complexo do Alemão para perguntar se existe algum desempregado por lá. Consigo vê-lo também no interior do Nordeste, andando a pé naquelas estradas de terra, debaixo do sol forte, procurando para ver se encontra algum desempregado. Mas é miragem, a tal pesquisa só investiga as seis maiores regiões metropolitanas do país: Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre.

Embora as informações levantadas só tenham validade para as seis regiões metropolitanas, ilusoriamente servem de parâmetro e estimativa e amostragem para todo o país. Assim, esses resultados da PME hipoteticamente revelam dados mensais sobre emprego e desemprego e sobre o rendimento médio do trabalho.

São quase 100 páginas para você se divertir, se estiver desempregado e sem nada para fazer. Porém, se você já tiver desistido de procurar emprego, pelo critério do IBGE vai ser considerado como empregado. Será um alívio para você.

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