Feliz disputa! Feliz disputa!

Carlos Chagas

Nos idos de 1968 veio ao Brasil  a rainha Elizabeth II, da Inglaterra. Homenageada em Brasília com os banquetes de sempre, encerrou a viagem pelo Rio, manifestando o desejo de assistir uma partida de futebol.  Por coincidência estava marcado um decisivo Fla-Flu naquele  domingo. O Maracanã explodia de gente e o governador Negrão de Lima serviu de cicerone para  a ilustre visitante. As torcidas não estavam nem aí para Sua Majestade e desde o início começou a gritaria com mútuas referências às genitoras do juiz e dos craques.

Elizabeth II não entendia português, foi adiando a curiosidade,  mas faltando cinco minutos para o fim da partida o coro tornou-se  ensurdecedor, de parte a parte.  Virando-se para o governador, ela perguntou o que significava aquela monumental manifestação. Negrão, ex-embaixador e um gentleman, pensou rápido e explicou que as torcidas estavam desejando aos jogadores uma “feliz disputa”. A rainha dos ingleses, que de boba não tinha e  até hoje não tem nada, comentou apenas achar estranho que nos últimos instantes do jogo o tão bem educado público carioca ainda estimulasse  os dois times a performances impecáveis…

Guardadas as proporções, acontece o mesmo neste encerramento da  campanha presidencial. Candidatos, partidos, veículos de comunicação, institutos de pesquisa e associações de classe lançam-se na balbúrdia e em  artifícios sem conta para sustentar a vitória de seus preferidos, quer dizer,  a concretização de seus interesses. Os que vem sendo derrotados, como ia sendo o Fluminense no dia da rainha, não perdem as esperanças de uma virada no finalzinho, agredindo os flamenguistas na esperança de um ou dois gols milagrosos. Não se trata de estarem  desejando  feliz disputa  para os concorrentes, mas precisamente aquilo que manifestavam as torcidas no Maracanã com relação às mãezinhas dos adversários.

Convenhamos, estes   dias derradeiros são de confusão, baixarias, embustes, números falsos, notícias  mentirosas e tentativas desesperadas de mudar o placar.  Melhor seria dormir hoje e  acordar na manhã de segunda-feira, poupando-se indignações e revoltas. Apesar de tudo, Elizabeth II voltou para Londres tendo assistido o Flamengo conquistar o campeonato. Entenda quem quiser entender e feliz disputa para todos…

DEBATES SEM AUDIÊNCIA

Realiza-se hoje à noite o derradeiro debate entre os candidatos presidenciais, desta vez na Rede Globo. Caso mantida a rotina dos anteriores,  a audiência não passará de 5%, apesar das tradicionais maquiagens nos números,  que veremos amanhã. Foram todos os debates um  videotape do primeiro, ou seja, regras sufocando os convidados,  tempo exíguo para a apresentação de suas propostas, algumas pegadinhas e muita repetição da arte de prometer sem se comprometer.  Uma lição a mais de que para as próximas eleições muita coisa precisa mudar.

SÓ NO BRASIL

Suponhamos que o Supremo Tribunal Federal tenha considerado Joaquim Roriz inelegível, mesmo depois de sua renúncia, por conta de uma decisão pela  validade da lei ficha-limpa nas eleições de domingo. Imagine-se, também, que na sessão do Tribunal Regional Eleitoral de Brasília, marcada para as nove horas da manhã de sábado, seus ministros concordem com os procuradores eleitorais pela negativa de registro para a mulher do ex-governador, por ele apresentada para substituí-lo. Como tecnicamente não dava mais para trocar nome, número e fotografia de Roriz, é ele que aparecerá nas urnas eletrônicas, daqui a três dias. Como ficarão os milhares de eleitores que apesar desses percalços tiverem votado no casal? Pior ainda, como ficarão seus votos? Anulados? Será necessária nova votação no Distrito Federal? E se Agnelo Queirós tiver vencido, precisará submeter-se a nova eleição?

SEXTAS-FEIRAS MAIS TRISTES

Pesquisas são pesquisas, não dá para acreditar nelas como se acredita na aritmética, mas vamos que estejam certas as previsões de derrota de candidatos ao Senado como Mão Santa, Heráclito Fortes, Marco Maciel, Paulo Paim e outros que encantam as  manhãs de sexta-feira nas telinhas, através da TV-Senado. Será uma pena, tendo em vista que essas  sessões, aliás,  não deliberativas, abrigam o que há de melhor  no Congresso, com discursos e comunicações de alto valor político. Sobrarão, isolados, Pedro Simon, Jarbas Vasconcelos e mais uns poucos, entre aqueles habituados a pelo menos uma vez por semana praticar política de verdade. Ainda há tempo para o eleitorado de seus  estados repensar o voto, isso se verdadeiras as pesquisas sobre os resultados das eleições de senador.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *