Fernanda  Montenegro ganha um palco para falar de cultura, esse bem eterno e essencial

Fernanda vai brilhar ainda mais na Academia de Letras

Pedro do Coutto

A atriz Fernanda Montenegro finalmente foi eleita para a Academia Brasileira de Letras e, com isso, além dos tablados nos quais já pisou ao longo da sua belíssima carreira, ela ganha outro patamar, o palco permanente que lhe dará voz para destacar a importância da cultura para a existência humana. A cultura retrata a passagem dos seres humanos pelo mundo, seus ecos, seus rastros, suas sombras.

Uma reportagem de Bolívar Torres no O Globo ocupa a capa do Segundo Caderno de ontem e destaca com precisão a importância  extraordinária da eleição de Fernanda Montenegro. Representa, sobretudo, uma resposta aos que que desconsideram a importância da arte e não têm capacidade de perceber o seu processo através da história universal, desde os gregos, séculos antes de Jesus Cristo. As etapas foram marcantes e difíceis. Preconceitos desabaram. Porém,  o mais importante é que a criatividade prevaleceu e não está separada de aspectos dramáticos do comportamento humano.

BATALHA DA ARTE – Mas a arte não é só o drama. É também a beleza de obras eternas como as legadas por Leonardo Da Vinci e Michelangelo, Shakespeare, Charles Chaplin, e milhares de outros que deixaram seus registros pelo mundo. Uma prova da batalha da arte contra o obscurantismo está no fato de que nenhuma obra que tenha sido interditada ou censurada através do tempo deixou de ser exibida livremente. São inúmeros os filmes, peças de teatro, as expressões da pintura e da escultura que representam o caminhar do processo de descoberta e redescoberta das situações

Quanto ao teatro, por exemplo, meu saudoso amigo Nelson Rodrigues sofreu várias contestações, a exemplo daquela durante a estreia, em 1956, da peça “Perdoa-me por Me Traíres”. O vereador Wilson Leite Passos sacou o revólver no fim do primeiro ato e Nelson se orgulhava de provavelmente ser o único autor que quase teve uma peça assassinada. Hoje, observando-se o caso do menino Henry, na Barra da Tijuca, vê-se que a crueldade de pessoas comuns ultrapassa a ficção. Não é só este um caso isolado.

QUESTÕES DRÁSTICAS – Um homem em São Paulo, supondo que sua filha tinha sido morta espancada pela madrasta, jogou-a do quinto andar na calçada da rua. Se Nelson Rodrigues tivesse colocado essas duas situações em suas obras, teria sido acusado de sádico, tarado e inventor de questões drásticas. Aliás, por falar em obras de arte, como a literatura, o teatro, o cinema, na minha opinião ninguém escreveu nada do que não tivesse acontecido.

O jogo das situações, das palavras, dos diálogos e das emoções é outra coisa. Mas os escritores não inventaram situação alguma. Adaptaram observações suas através da vida à capacidade de criar personagens e desfechos. Mas os desfechos são uma consequência lógica da obra escrita, destacando sob qualquer ângulo de análise o fato de que a intolerância dos extremistas às obras de arte é uma prova da ignorância e da insensibilidade sobre o que significa cultura e processo cultural que é eterno. Fernanda Montenegro no palco da ABL saberá dizer ao governo e ao país esta realidade tão inevitável quanto insubstituível. Ela assume a  cadeira 17 em março. Seu discurso terá uma importância excepcional.

MOURÃO E BOLSONARO –  Numa entrevista à repórter Bela Megale, O Globo desta sexta-feira, o vice-presidente Hamilton Mourão rompeu prática e diretamente com a candidatura de Jair Bolsonaro à reeleição nas urnas de 2022. Na quarta-feira, ele recebeu em Brasília, em seu gabinete, Bela Megale. Mourão afirmou que em matéria de eleições presidenciais é importante não ficar somente entre Lula e Bolsonaro, deixando claro que aguarda um terceiro candidato com alguma possibilidade de vitória.

Caso ele estivesse firme com a candidatura Bolsonaro, a frase não poderia ser essa logicamente. Hamilton Mourão admite candidatar-se ao Senado pelo Rio de Janeiro ou pelo Rio Grande do Sul, frisando que o seu título de eleitor é de Brasília. Mas até março de 2022 poderá rever o seu domicílio eleitoral. A respeito da atuação do presidente Bolsonaro na cúpula do G20, Mourão afirmou : “É complicado quando não se fala inglês e se precisa de um intérprete”. Exatamente o caso do presidente da República. O comentário não deixa de significar uma observação nada lisonjeira.

Relativamente ao seu relacionamento com Bolsonaro, disse que a situação está muito boa, estando superados os momentos de divergências. Os altos e baixos, acrescentou, ficaram para trás. Na medida em que se refere à terceira via, sem dúvida alguma, Hamilton Mourão afastou-se do Palácio do Planalto e voltou à planície. Perguntado sobre o que achava da candidatura de Sergio Moro, acentuou que é importante como uma terceira candidatura, mas deixou claro dúvidas sobre o fôlego político do juiz que se tornou famoso por sua atuação na Lava Jato.

CIRO ROMPE COM PDT –  O ex-governador Ciro Gomes, reportagem de Danielle Brant, Thiago Resende e Ranier Bragon, Folha de S.Paulo, afirmou que deixará o PDT e retirará a sua candidatura à Presidência se os deputados do partido na segunda votação se mantiverem favoráveis à aprovação da emenda dos precatórios. Na primeira votação, 21 representantes do partido votaram a favor do presidente Bolsonaro.

A votação foi extremamente contraditória, pois se o deputado Arthur Lira convocou uma votação presencial, como poderia ele aceitar os votos transmitidos pela internet ? Ou uma coisa ou outra. Deputados também de partidos de orientação contrária à PEC dos Precatórios votaram a favor do projeto. Dificilmente haverá número para segunda aprovação na terça-feira, sobretudo porque para ser contrário à emenda, não há necessidade de votar não. Basta se abster, pois cada ausência representa um complicador a mais para que o quórum de 308 votos seja atingido.

BOMBA FISCAL –  As reações foram intensas e contrárias à matéria. O Globo publicou um editorial na edição de ontem sustentando que é dever da Câmara rejeitar o projeto dos precatórios. De outro lado, o ex-ministro da Fazenda Nelson Barbosa, em artigo na Folha de S. Paulo, revela que a Câmara aprovou um projeto cujo conteúdo concreto desconhece e com isso avalizou, no fundo da questão, uma bomba fiscal que sequer garante o pagamento do Auxilio Brasil e cria uma rede complicada de tributos e orçamento, emenda cheia de enigmas e de desconexões.

Quanto à posição de Ciro Gomes, acentuo que a sua sintonia com o PDT terminou, ainda que os 21 deputados voltem atrás e não aprovem a PEC dos Precatórios. Isso porque criou-se um clima de desconfiança entre Ciro e a bancada partidária, desconfiança que sem dúvida influi no ânimo de qualquer campanha eleitoral. Assim, pergunto: qual será o rumo a ser tomado por Ciro Gomes? Vincular-se a outra legenda ou terminar apoiando o ex-presidente Lula da Silva, a quem vem criticando e com isso perdendo espaços?

6 thoughts on “Fernanda  Montenegro ganha um palco para falar de cultura, esse bem eterno e essencial

  1. Aulita, Sarney, FHC e outros “imortais” insignificantes pelo menos escreveram algo. Hoje, a ABL é um retrato cagado e cuspido da era da mediocridade e corrupção narco-socialista que, por obra e graça da esquerda “progressista”, infectou a vida brasileira.

  2. O comentário acima, confirma tudo o que o Excelente senhor P. Coutto escreveu.
    Agradeço a Deus, bendito seja o Seu nome, de ter oportunidade de ler seus artigos; espero-os ansiosamente.
    As pessoas deveriam de vez em quando, saírem do dia a dia e subir, subir para a estratosfera e daí chegar a conclusão que necessitamos crescer muito, para nos libertar.

  3. Uma entre milhares de entrevistas/surpresas que FM deu foi pro Pasquim com Millôr Fernandes ativo. Esta mulher maravilhosa não é deste mundo. Ave!

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