Fernando de Noronha, 5 de agosto de 1967: silêncio, solidão, reflexão, e a descoberta de um poema genial, lembrado até hoje. Transcrito para que todos possam conhecê-lo e compreendê-lo.

Helio Fernandes

Parece surpreendente o que eu vou dizer, mas é rigorosamente o meu pensamento neste tórrido dia 5 de agosto de 1967: com todo o desconforto, com toda a solidão, com toda a saudade, Fernando de Noronha me dá uma visão nova e diferente dos homens e das coisas deste tremendo país, que cada vez penetra mais fundo no abismo dos seus problemas e cada vez se envolve em mais complicações para voltar à superfície. Só porque me ofereceu inesperadamente este posto de observação, talvez eu seja até grato ao governo que me desterrou.

E vou mais longe: todo homem público devia passar 30 dias em Fernando de Noronha. Presidente da República, ministros, generais, intelectuais, trabalhadores, estudantes, padres, donas de casa. Mas um de cada vez, enfrentando a mesma solidão que eu enfrentei, para dentro de si mesmo, como se Fernando de Noronha fosse uma Clinica Mayo Psicológica, mas onde não houvesse nem hospitais, nem hotéis de luxo, nem passagens subterrâneas, nem doentes privilegiados. Todos perdidos nos seus próprios pensamentos, pondo em ordem suas ideias, discutindo consigo mesmo. Todos desterrados dentro de si mesmo, obrigados a traduzirem depois o que sentiram e a experiência que viveram.

São 3 horas da manhã. E como não consigo dormir, escrevo. E daqui desta torre de silêncio, o mundo parece inteiramente diferente. O Brasil me dá a ideia de um grande palco, onde todos os personagens são brechtianos, todos precisam aprender a estar de acordo, ninguém sabe o fazer diante de uma nova situação. É puro Brecht, talvez em versão de Fernando de Noronha. Mas de qualquer maneira, não deixará de ser Brecht por causa disso.

Talvez se passasse 30 dias em Fernando de Noronha, o general Moniz de Aragão (que provavelmente vai pensar que Brecht é algum guerrilheiro preso na Bolívia ao lado de Debray) pudesse compreender que ninguém pertence a nenhuma classe privilegiada e ninguém, a ser o seu próprio povo, é dono do futuro de nenhum país. Quem sabe se aqui em Fernando de Noronha o general não adquirisse humildade para compreender que um homem não é dono de nada, a não ser das suas dúvidas e das suas contradições?

Imaginemos o ministro Gama e Silva 30 dias em Fernando de Noronha, sem Balaio, sem iê-iê-iê, fechado num barraco caindo aos pedaços, ratos e lagartixas desprezando solenemente a sua importância de ministro, desconhecendo que aquele desterrado se julga com poder de desterrar outros homens. Imaginemos a autocrítica do ministro. Inicialmente ele teria humildade e capacidade para fazê-la? A autocrítica pressupõe experiência  de vida, sofrimento, dúvidas, a convicção de que a única verdade eterna é a de Sócrates, que o “só sei que nada sei” é a única resposta para alguns dos problemas mais angustiantes do nosso tempo.

Mas o ministro (que não sabe quem é Brecht, embora talvez desconfie quem seja Sócrates) é tão seguro de tudo, é tão dono da verdade, que 30 dias de Fernando de Noronha não produziriam nenhum efeito sobre ele. Sem contar que a sua capacidade de concentração é igual a zero, e se o deixasse 30 dias em Fernando de Noronha, com máquina, papel e tempo, ele provavelmente quebraria a máquina, comeria o papel e desperdiçaria o tempo, que é o que faz há quase 60 anos.

Desisti, olho para o lado, e tapando uma brecha na tela de arame, brecha por onde, apesar de tudo, se infiltram as terríveis muriçocas, vejo uma página de jornal. É o primeiro jornal que vejo em Fernando de Noronha. Por inspiração divina, me levanto e vou olhá-lo. E nessa página meio rasgada de um jornal de Recife, cujo nome não sei, pois estava precisamente na parte rasgada, encontro um dos mais bonitos poemas da língua portuguesa. Não resisto e copio o poema, que é este, na íntegra:

Tece, tece, tece, tece,
Bem tecida essa canção,
Um a um, fio por fio,
Como faz o tecelão
Que fabrica o seu tecido
De cambraia-de-algodão.
Prende os fios coloridos
No labor da tua mão,
Tece, tece, tece, tece,
Bem tecida essa canção,
Com carinho, com cuidado,
Com silêncio e solidão.
Tece, tece, que tecendo
Cresce, cresce a fiação,
Urde as formas das estampas,
Firma as cores do padrão,
Roda a roda, tece, tece,
Bem tecida essa canção.
Noite e noite, sempre e sempre,
Nunca inútil, nunca em vão,
Dia a dia te aproximas
Mais e mais da perfeição.
Não te falte uma esperança
Nem te falte uma razão
Que tecida por ti mesmo
Faz nascer essa canção.
Tece, tece, muito e muito,
Por dever e obrigação,
(Pois tecer é teu ofício
De poeta e tecelão).
Tece como se tecesses
Tua morte ou redenção,
Com amor e sacrifício,
Rapidez e lentidão,
Muito embora ninguém saiba
Que teceste esta canção
Com os fios do teu pranto
No tear do coração.

Como provavelmente eu ainda não gastei Deus com a mesma intensidade do Carlos Heitor Cony, tive a felicidade de encontrar na página dilacerada o nome do autor do poema tão genial. É o pernambucano Marcus Acioly, que eu jamais vi, que não conheço, que não sei quantos anos tem, se é moço ou velho, mas a quem fico devendo favor que jamais poderei pagar. É que esse poema ficou sendo o meu companheiro de todas as noites, das horas de cansaço, do intervalo das leituras, quando enjoava das teclas da máquina de escrever, quando o silêncio e a solidão me assaltavam, com vontade mesmo de me destruir.

Li e reli esse poema em Fernando de Noronha centenas de vezes, e agora, devolvido à civilização, cada vez gosto mais dele.

Não sei por que, na distante solidão de Fernando de Noronha, fiquei pensando que esse poema poderia ser o hino oficial da libertação econômica nacional. Tem tudo para isso: emoção, lucidez, sentimento, ritmo, objetivo, a vida vibrando em cada uma de suas frases. E talvez eu tenha me lembrado desse poema junto à luta pela libertação econômica nacional, por causa de sua ligação com a indústria têxtil, a indústria que mais gente emprega no Brasil, a mais ameaçada pelos poderosos trustes estrangeiros, e a talvez a única no Brasil que mais tenha resistido a todos os assédios, pela razão muito simples de ser liderada por alguns homens de  fibra.

Marcus Acioly, poeta genial que não conheço, eu te saúdo e te agradeço pelo poema que tanta companhia me fez em Fernando de Noronha.

***

PS – Gosto do poema e de algumas coisas que escrevi em Fernando de Noronha. Assim que se soube que eu vinha com um livro pronto, todos queriam editá-lo.

PS2 – Quando a ditadura intimidou e ameaçou editores, distribuidoras, livrarias, até diletos e queridos amigos desapareceram.

PS3 – Não era mais possível realmente publicá-lo, mesmo com o sucesso garantido. Imprimimos 600 ou 700 exemplares, em Nova Iguaçu, não dava mais do que isso.

PS4 – Não podia exigir nada de ninguém. A História dos povos e das nações, não se escreve com a omissão dos que se entregam, e sim com a bravura e a intrepidez dos que resistem.

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