FHC, em 2011, repete o brigadeiro Eduardo Gomes em 1945

Pedro do Coutto

Excelente reportagem de Daniela Lima, Folha de São Paulo de 12 de abril, focaliza os pontos essenciais do manifesto que o ex presidente Fernando Henrique Cardoso colocou no site interesse nacional.uol.com.br, afirmando que a oposição (PSDB-DEM-PPS) precisa partir para conquistar a classe média nas ruas e nas urnas e esquecer a tentativa de se aproximar do povão. Está no texto com todas as letras a palavra povão. Assim agindo, Fernando Henrique repete o clamoroso erro cometido pelo brigadeiro Eduardo Gomes, candidato a presidente da República pela UDN, nas eleições de dezembro de 1945 que marcaram o fim da ditadura de Vargas instituída em novembro de 1937.

Vargas, a muito custo, terminou apoiando o general Eurico Dutra, que fora seu ministro do Exército, e a ele transferiu os votos mais que necessários à sua vitória. Mais que necessários – vale acentuar para as novas gerações – por dois motivos: 1) não existia a exigência de maioria absoluta; 2) Dutra alcançou 52% da votação. Mas eu falava no erro, aliás tremendo, do brigadeiro Eduardo Gomes, que deu margem a uma interpretação que lhe foi desastrosa.

Ao participar de um encontro comício em São Paulo, o candidato udenista, apoiado por Carlos Lacerda, então redator de primeira linha do Correio da Manhã, afirmou que não queria o voto dos marmiteiros. Marmiteiro era sinônimo de picareta, aproveitador, desonesto, falsificador vulgar. Mas marmiteiros eram também os operários que levavam (muitos levam até hoje) suas refeições para comer nos intervalos da jornada de trabalho. As duas expressões, inclusive, se incorporaram à música popular brasileira da época.

Eduardo Gomes, claro, não quis ofender os grupos de menor renda, os proletários. Mas o empresário Hugo Borghi, varguista, que depois foi deputado pelo PTB, imprimiu grande quantidade de cartazes com a frase e eles funcionaram como uma bomba junto ao operariado do país. Naquele tempo não havia fotocópia, quanto mais xerox. O brigadeiro não conseguiu corrigir a versão. Usou a palavra errada no contexto errado, foi vítima de si mesmo. Esqueceu que a grande maioria do eleitorado era de multidões pobres.

Fernando Henrique, no seu documento, por seu turno, esqueceu a realidade: a enorme maioria dos eleitores do país continua formada por pessoas de baixa renda. Ao se referir à necessidade de a oposição a Lula e a Dilma esquecer o povão, não levou em conta a divisão dos votantes por grupos sociais. Deveria, antes de mais nada, consultar o Ibope e o Datafolha. Ou então o IBGE. Veria que dois terços do eleitorado abrangem aqueles que ganham por mês de 1 a 4 salários mínimos. Formam o povão a que se referiu, de maneira excludente. Basta dizer que, no Brasil, de acordo com o IBGE, 27% da mão de obra ativa ganham apenas o salário mínimo. A maioria absoluta não passa de dois pisos salariais.

Francamente, a declaração representou um desastre igual àquele do brigadeiro Eduardo Gomes. Me lembrei também do erro fatal de Fernando Gabeira, que só não venceu a eleição para prefeito do Rio em 2008 porque fez uma afirmação infeliz, desabonadora
 e agressiva contra os que moram nos subúrbios do Rio.

FHC, no relato de Daniela Lima, identifica o surgimento de nova classe média no país. Em primeiro lugar, ela existe? Em segundo: se ela existe, deve-se à política salarial do ex-presidente Lula, mantida por Dilma. Não em consequência da que ele adotou de Janeiro de 95 a Dezembro de 2001. Quando os salários perderam para a inflação. Agora pelo menos eles empatam.

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