Filhos de Roberto Marinho renegam o passado de apoio à ditadura, que tantos benefícios proporcionou às Organizações Globo, e permitem que a memória do pai seja denegrida

Carlos Newton

É inacreditável o que está acontecendo com a memória de Roberto Marinho, que foi o “Senhor do seu tempo”, conforme o título do documentário lançado há alguns anos sobre sua impressionante carreira de jornalista e empresário.

Se os três filhos dele (Roberto Irineu, José Roberto e João Roberto Marinho) estão hoje na lista dos homens mais ricos do mundo, e suas fortunas somadas (US$ 28,3 bilhões) já os colocam perto de atingirem a 20ª posição neste ranking liderado por Bill Gates, é público e notório que eles devem tudo ao pai, ao qual respeitosamente sempre chamaram de “Doutor Roberto”.

Mas ao invés de preservar a veneração à memória de Roberto Marinho, que em sua época foi o homem mais poderoso do Hemisfério Sul, seus três filhos recentemente o condenaram publicamente por ter apoiado a ditadura, de 1964 a 1985, fazendo dessa proximidade com o regime militar a principal base do fenomenal crescimento das Organizações Globo.

Essa ingratidão dos irmãos Marinho, evidentemente, tem causado surpresa e estupefação. Em palestra realizada em Brasília há alguns dias, o general da reserva Augusto Heleno criticou O Globo por ter publicado no ano passado o editorial em que considerou um erro o apoio aos governos militares, classificando-os como uma ditadura. Segundo o ex-comandante militar da Amazônia, o jornal “renegou todo o seu passado”.

DEPOIS DOS PROTESTOS DE RUA…

Esse inusitado editorial foi publicado dia 31 de agosto de 2013, depois dos protestos de rua em que as Organizações Globo se tornaram um dos alvos das críticas dos manifestantes. Para não sofrerem agressões nas passeatas, as equipes de reportagem tiveram de trabalhar com câmaras e equipamentos sem o logotipo da Globo, trafegando sempre de táxi, sem usar os veículos da empresa. Mesmo assim, alguns prédios da Globo foram cercados e houve ameaças de apedrejamento.

Foi por isso que os filhos de Roberto Marinho então decidiram apagar o passado, criando o chamado projeto “Memória Globo” e proclamando publicamente que a Globo (leia-se: Roberto Marinho) havia errado ao apoiar a ditadura militar. Diz o editorial:

“Desde as manifestações de junho, um coro voltou às ruas: “A verdade é dura, a Globo apoiou a ditadura”. De fato, trata-se de uma verdade, e, também de fato, de uma verdade dura.

Já há muitos anos, em discussões internas, as Organizações Globo reconhecem que, à luz da História, esse apoio foi um erro.

Há alguns meses, quando o Memória estava sendo estruturado, decidiu-se que ele seria uma excelente oportunidade para tornar pública essa avaliação interna. E um texto com o reconhecimento desse erro foi escrito para ser publicado quando o site ficasse pronto.

Não lamentamos que essa publicação não tenha vindo antes da onda de manifestações, como teria sido possível. Porque as ruas nos deram ainda mais certeza de que a avaliação que se fazia internamente era correta e que o reconhecimento do erro, necessário.

Governos e instituições têm, de alguma forma, que responder ao clamor das ruas”, diz o surpreendente editorial de O Globo.

CONTRARIANDO O PRÓPRIO PAI

Esse novo posicionamento político significa que, aproveitando o “clamor das ruas”, os filhos de Roberto Marinho jogaram no lixo a memória do próprio pai, por ser público e notório que ele serviu dedicadamente à ditadura militar, vivendo à sombra do poder para enriquecer e consolidar o maior império jornalístico do mundo, pois em nenhum outro país existe algum grupo empresarial que tenha tantos tentáculos na mídia, atuando simultaneamente com redes de televisões e de rádios, jornais, revistas, emissoras e operadoras de TV a cabo, editora de livros, gravadora de discos e produtora de filmes.

Sobre a atuação de Roberto Marinho no regime militar, a internet está fervilhando com o relato da jornalista Helena Sthephanowitz, da Rede Brasil Atual (RBA), divulgando um impressionante documento que mostra o papel de liderança exercido pelo jornalista na ditadura.

A jornalista revela que no dia 14 de agosto do 1965, ano seguinte ao golpe, o então embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Lincoln Gordon, enviou a seus superiores um telegrama então classificado como altamente confidencial – agora já aberto a consulta pública.

A correspondência narra encontro mantido na embaixada entre Gordon e Roberto Marinho. Segundo relato do embaixador, Marinho estava “trabalhando silenciosamente” pela prorrogação ou renovação do mandato do ditador Castelo Branco junto a um grupo composto, entre outras lideranças, pelo general Ernesto Geisel, chefe da Casa Militar, o general Golbery do Couto e Silva, chefe do Serviço Nacional de Informação (SNI),  e o ministro Luis Vianna, chefe da Casa Civil. No início de julho de 1965, a pedido do grupo, Marinho teve um encontro com Castelo para persuadi-lo a prorrogar ou renovar o mandato.

Traduzindo: não foi por mera coincidência que Marinho conseguiu estruturar no regime militar o maior império de comunicação do mundo. Ele era a face oculta da ditadura que durou 21 anos. E aproveitou o beneplácito dos militares para cometer gravíssimas ilicitudes, como a usurpação da TV Paulista (Canal 5 de São Paulo), um episódio clamoroso, em que Marinho lesou dolosamente centenas de acionistas fundadores da empresa de comunicação – um deles era o palhaço Arrelia, que tinha um programa na emissora.

ILÍCITOS COMPROVADOS

Os reprováveis procedimentos adotados  diretamente por Roberto Marinho ou por seus assessores para se apossar da TV Paulista (hoje, TV Globo de São Paulo, responsável por mais de 50% do faturamento da rede) estão todos documentados num processo judicial que a grande mídia finge desconhecer, e que segue tramitando no Supremo Tribunal Federal.

Falsificação de documentos, uso de procurações “emitidas” por acionistas que haviam morrido muitos anos atrás, realização irregular de assembleias gerais extraordinárias presididas pelo próprio Roberto Marinho, fraude na preparação e publicação de atas societárias – foi um verdadeiro festival de ilegalidades cometidas pelo patrono das Organizações Globo e, inclusive, admitidas em juízo por seus próprios advogados, mas, com a ressalva de que já estariam todas prescritas.

A verdade é que, durante o regime militar, Roberto Marinho tinha tanta confiança em sua impunidade que levou 12 anos mantendo ilegalmente no ar a TV Paulista, sem passar para seu nome a concessão da emissora, quando a legislação da época (em vigor até hoje) exigia que toda transferência de controle de estação de TV fosse aprovada previamente pelo governo, sob pena de nulidade absoluta.

Ou seja, como a concessão da emissora foi outorgada ilegalmente a Roberto Marinho, pode ser cassada a qualquer momento. Não há lei ou jurisprudência, no Brasil e no mundo, que possa justificar a preservação de uma concessão pública obtida mediante fraude.

DA TRIBUNA DO SENADO

Recentemente, o senador Roberto Requião (PMDB-PR) subiu à tribuna e denunciou esses fatos relacionados à TV Paulista. Não somente elencou no discurso os ilícitos cometidos por Roberto Marinho, como também anunciou ter enviado requerimento de informações ao ministro das Comunicações, pedindo explicações sobre a transferência da concessão da TV Globo de São Paulo por meio de documentação fraudada, conforme consta dos autos do processo em tramitação no Supremo.

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AMANHÃ Confira a contundência do discurso do senador Requião denunciando o roteiro da usurpação da TV Paulista por Roberto Marinho e pedindo explicações sobre a ocorrência de fraude na concessão da TV Globo de SP  

5 thoughts on “Filhos de Roberto Marinho renegam o passado de apoio à ditadura, que tantos benefícios proporcionou às Organizações Globo, e permitem que a memória do pai seja denegrida

  1. Não são os filhos do ladrão, bajulador, homem pequeno e traidor, Roberto Marinho “que permitem que a memória do pai seja denegrida”, mas o próprio pai que enxovalhou a reputação dos filhos, sendo o responsável por ter sido um porco marginal que se aproveitou da ditadura. Um mamífero humano totalmente sem caráter que denegriu, a priori, a reputação dos filhos. O cão vira-lata, como qualquer larápio que mete a mão no lixo, se aproximou dos generais golpistas para poder se beneficiar com a ditadura. O “mongrel dog”, que você qualifica como “o senhor de seu tempo”, bajulava até um embaixador estrangeiro para trair sua pátria, na figura de um presidente eleito pelo povo, envergonhando a dignidade de seus filhos adolescentes. E o que esses filhos estão tentando mostrar é que não possuem o menor respeito pelo falecido pai, o que é muito positivo e louvável. Por quê eles deveriam ser gratos a alguém que lhes proporcionou fortuna roubada e que envergonha o seu nome, só porque esse alguém era o papai?
    Não é de se espantar se eles devolverem a TV Paulista!
    Quanto a esse general reformado (tudo indica não ser da reserva!) Augusto Heleno, que não conheço, e nem quero conhecer, não passa de um gorilão em extinção, pelo que você registrou no seu texto.

  2. Não é de hoje que a sociedade brasileira, em todos os seus segmentos, encontra-se dividida em três bandas, a saber: a boa, a podre e a que oscila entre uma e outra, conforme a época e os interesses em jogo. Até por isso, não é de hoje tb que o Brasil não consegue ser um país sério, capaz de inibir que o oportunismo inescrupuloso, infeliz e desgraçadamente, esteja sempre chegando na frente do idealismo escrupuloso. Não foi à toa que o Brasil tornou-se o verdadeiro paraíso do gollpismo-ditatorial e do partidarismo-elleitoral, velhacos. E nesse contexto os inescrupulosos, especialmente os camaleônicos, fazem as suas festas de arromba, deitam e rolam, e até parecem invencíveis, brotam e prosperam iguais pragas face ao solo fértil, onde em se plantando tudo dá, como disse Pero Vaz de Caminha, ao Rei, ao aportar por aqui. Caro Newton Carlos, as suas informações são ótimas, os seus sentimentos são sinceros, quase tudo o que vc disse acima me parece de fato uma grande verdade, mas não foi para morrer na praia da corrupção da Casa Grande que atravessamos a nado o mar de lama da dita cuja, detectado há muito tempo inclusive pelo respeitável, Rui Barbosa, o magnífico Águia de Haia, que chegou a confessar-se até com vergonha de ser honesto em meio às peripécias e até loucuras dos inescrupulosos. Portanto, no sentido da passagem deste país à limpo, a ascensão do PT ao poder central da repúbllica tem sido de grande valia, até mesmo a contrário senso. Está sim ajudando a transformar o Brasil, e conseguindo arrancar até confissões estarrecedoras do velho gollpismo-ditatorial e do partidarismo-elleitoral, velhacos. Em essência a Revolução em movimento, não é nada pessoal contra esta ou aquela pessoa ou partido. Trata-se, isto sim, de um levante natural da Dona Honestidade Cansada, contra a velha velhacaria geral da nação. O Movimento é difuso e frontal . Será a Globo o retrato acabado da ditadura da comunicação, que tomou o país de assalto em 64, moldou-o conforme os seus próprios interesses, levando-o em rédeas curtas, de modo a não o largá-lo nem a pau juvenal, e sem pensar em sequer conceder-lhe liberdade comunicativa, face ao seu quase monopólio cinqüentenário, que domina quase tudo, prevalecendo até mesmo em quase todos os municípios do Brasil, a exemplo de SP, onde todos os prefeito são naturalmente obrigados a comer em suas mãos e franquear-lhes os seus erários, à moda “ou dá ou desce”, face até à vulnerabilidade e fragilidade destes, a exemplo de todo o Brasil ? O fato é que o poder da Globo é tão descomunal no Brasil, que é capaz de transformar até merda em ouro, ficar com o ouro para si e dar a merda ao povo, fazendo-o acreditar que está levando vantagem. Nada contra o enriquecimento lícito de ninguém, nada contra o imenso mercado de trabalho e oportunidades geradas pela Globo, pelo contrário, que continue assim: gerando oportunidades, desde que a fonte-mor de sua fortuna não seja o erário em detrimento dos seus concorrentes e, principalmente, em detrimento do bem comum do povo brasileiro (saúde, educação, etc.). No mais, a nosso ver, ” A vida de uma pessoa (física ou jurídica) pode ser comparada a uma frase que não se completa enquanto não for pronunciada a última palavra”. E a última palavra no Brasil, hoje, que passou a ser exigida nas ruas deste país, seriamente, a partir de junho de 2013, é Honestidade, posto que, ao que parece, Dona Honestidade, finalmente, cansou-se de tanta bandalheira e, principalmente, da velhacaria, em especial a velhacaria do gollpismo-ditatorial, do partidárismo-elleitoral e dos seus agregados, dependentes e manipuladores. E a Globo, ao que parece, já entendeu o recado das ruas, prometendo, publicamente, revolucionar-se tb, e ser uma Nova Globo em Movimento, adaptando-se tb à prioridade dos reais interesses da população do Brasil. Oxalá. A conferir. O fato é que A Vingança da Honestidade Cansada continua em Movimento, e a velhacaria que se cuide, posto que o Novo Brasil de Verdade veMM aí, firme e forte, pelas próprias mãos e vontade do povo brasileiro. E já conta com 72% de adesão popular, a maioria . Nada resiste a uma grande ideia cujo tempo chegou. O tempo e as forças cósmicas naturais são implacáveis e invencíveis, como diz o HoMeM do Mapa da Mina do bem comum do povo brasileiro, que disse tb o seguinte: a nossa esperança é a de que, após conseguirmos realizar a grande travessia que se faz necessária, não sejamos obrigados a constatar que o nosso Brasil é incapaz de sobreviver satisfatoriamente num novo sistema, mais rigoroso, de seriedade e honestidade.

  3. Carlos,
    Te enganas no teu artigo.
    Estão arrependidos e fazendo “mea culpa” coisa nenhuma!
    Estão é jogando para a torcida! Agradando o condestável da hora!
    Mantendo o seu negócio.
    O falecido pai dessa trinca faria a mesma coisa pra manter a concessão e o sistema.
    Esse tipo de gente é amigo do governo, do presidente, do governador, do prefeito.
    Mas, não são amigos de pessoa alguma. São amigos e íntimos do cargo que ocupam.
    Se, por ventura, troca a pessoa o governante eles continuam amigos fiéis do cargo!
    É do jogo!
    Vitor

  4. ” Ao longo da última semana, os brasileiros foram levados a ver, ler e ouvir, à exaustão, em quase todos os meios de comunicação do país, noticiários e programas sobre dois grandes temas: a Revolução de 1964 e os hediondos negócios feitos pela Petrobrás.” …
    “Como ainda desconheço o real tamanho dos saques e prejuízos promovidos pelos petistas e seus aliados à estatal do petróleo, que deve se constituir no escândalo do século, deixo para mais adiante as minhas conclusões sobre este amargo assunto.
    Enquanto isso trato de encerrar as minhas considerações a respeito da REVOLUÇÃO MILITAR DE 1964. Por partes: ” …
    ” Pois, ainda que torturas precisem ser lembradas para que ninguém volte a cometer tamanha estupidez, é de se lamentar que nenhum meio de comunicação se interessou em mencionar as CAUSAS que levaram, em 1964, o povo brasileiro a pedir uma urgente intervenção militar, que resultou no período de exceção. ” > http://www.pontocritico.com/

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