Fim da vida de Chico Anysio foi triste, ele morreu amargurado com os diretores da TV Globo

Carlos Newton

A gente ainda estava sob o impacto da morte de Chico Anysio, quando Millôr Fernandes também decidiu nos deixar, espalhando uma tristeza e um desânimo insuportáveis, em função da importância que eles tinham para praticamente todos nós.

Sobre Chico Anysio, nos últimos dias lemos muita coisa a respeito de sua vitoriosa carreira, sua genialidade exacerbada, seu extraordinário empenho para arranjar trabalho e sustentar outros comediantes e roteiristas, sua preocupação em ajudar os menos favorecidos, com um tipo de humor em que os ricos eram quase sempre ridicularizados, e por aí em diante.

Aqui no Blog chegaram a sair até comentários terríveis sobre ele, coisas que nem vale à pena mencionar. É claro que Chico cometeu erros, ele era humano como todos nós, apenas isso, mas suas qualidades suplantavam folgadamente os defeitos, é preciso reconhecer e proclamar que ele não era apenas um artista genial, mas também um grande caráter.

O que não se falou com a clareza necessária é que Chico Anysio morreu muito amargurado. Teve um final de vida triste e infeliz. Estava absolutamente decepcionado com os dirigentes da TV Globo, que lhe pagavam um salário astronômico apenas para mantê-lo no elenco, sem aprovar nenhum programa sugerido por ele e impedindo-o de trabalhar em outra emissora, exatamente como ocorreu com outra artista extraordinária, Dercy Gonçalves, e muitos outros atores, diretores e roteiristas que fazem a diferença e podem roubar audiência da Globo, que os profissionais de TV chamam de “nave mãe”.

O calvário de Chico Anysio na TV Globo começou quando o então diretor de Jornalismo, Evandro Carlos de Andrade, decidiu acabar com o quadro que o comediante mantinha desde a estréia do Fantástico. Quando o programa foi ao ar pela primeira vez, em 5 de agosto de 1973, tinha como subtítulo “Um programa de Chico Anysio e Marília Pera”.

Evandro não sabia disso nem se interessava por isso. Seu maior defeito era a vaidade, e orgulhava-se de se portar de forma autoritária. A desculpa de Evandro para afastar o genial comediante, depois de mais de 30 anos de sucesso absoluto no programa do domingo, foi de uma frieza invulgar: “Isso não é humor para o Fantástico” – disse secamente, e essa justificativa atingiu Chico Anysio como uma chicotada.

Foi a partir daí que a TV Globo começou então a ter dois tipos de programas humorísticos – o velho humor de Chico Anysio e seus geniais contemporâneos, totalmente desprestigiados, e o novo humor dos comediantes da TV Pirata, Casseta e Planeta etc., todos considerados geniais.

Como se vê, foi uma discriminação absolutamente estúpida e negativa. Aliás, não é por coincidência que desde então a TV Globo vem perdendo audiência. Para ser mais preciso, já perdeu cerca de 35% da audiência “share” (percentual de aparelhos ligados) nos últimos 20 anos.

E não foi por falta de aviso. Desde essa época, Chico Anysio vivia insistindo que só existem dois tipos de humorismo – o que tem graça e o que não tem graça. E é verdade. Não existe novo humorismo e velho humorismo, e pensar o contrário é uma idiotice que chega a ser realmente inacreditável, especialmente no caso de um profissional experiente e capaz como Evandro Carlos de Andrade.

O mais incrível é que ninguém ouviu os sábios conselhos de Chico Anysio. Ele não foi levado em consideração nem pela TV Globo nem pelas emissoras concorrentes, que até hoje continuam a insistir em imitar a Vênus Platinada em tudo, até mesmo nos erros, que não poucos.

Se alguma emissora tivesse raciocinado sobre a procedência das sugestões de Chico Anysio, passando a investir pesado na vertente do humor, sem dúvida os índices de audiência da TV Globo teriam caído ainda mais, não há a menor dúvida. Mas ninguém se interessou em ouvir quem mais entendia do assunto.

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PS – Fico particularmente triste ao fazer esse relato, porque tive oportunidade de trabalhar com os dois – Chico Anysio e Evandro Carlos de Andrade.

Com Chico Anysio, trabalhei muito rapidamente, na época em que esteve casado com Alcione Mazzeo. Ele até nos convidou para uma grande festa, quando o filho Bruno completou um ano de idade. Chico morava na casa de Bibi Ferreira, no Bairro do Joá. Eu e Jussara levamos nosso filho, que também só tinha um ano, e a festa foi sensacional. Foi lá que conheci Mauricio Shermann, outro grande mestre da TV, com quem depois eu viria a trabalhar.

Quanto a Evandro, trabalhei anos com ele em O Globo. Fomos muito amigos, depois rompemos, mas acabamos ficamos amigos de novo, e assim a vida foi seguindo seu curso.

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