Fim de venda de horários deixaria Record absoluta entre evangélicos

Pedro do Coutto

Numa entrevista ao repórter Venceslau Borlina Filho, Folha de São Paulo de terça-feira, 5, o ministro Paulo Bernardo negou seja intenção do governo Dilma Roussef proibir o arrendamento de horários nas emissoras de televisão, prática usada por correntes que se apresentam como evangélicas no empenho de conquistar audiência e cada vez mais adeptos. Sem dúvida têm alcançado êxito em tal investida.

A Folha de São Paulo foi o jornal que noticiou o fato no domingo e a ele deu sequência na segunda-feira. O jornal sustentou que teve acesso ao texto e nele encontrou o dispositivo propondo a proibição. O titular das Comunicações, na terça-feira, lembrou que qualquer modificação no Código Brasileiro de Telecomunicações só pode ser feito por lei aprovada pelo Congresso Nacional e não através de decreto como a FSP noticiou originalmente.

Acredito ter havido algum equívoco ou dos que elaboraram o anteprojeto ou da reportagem. Uma das partes deve ter confundido anteprojeto de lei com anteprojeto de decreto. Acontece. Mas isso é o de menos. Pois nas duas situações a decisão final cabe à presidente da República.

À primeira vista pensei que a iniciativa tivesse como motivação de seu redator ou redatores somar pontos para a Rede Globo, em primeiro lugar. E a Record em segundo. Mas Elena, minha mulher, comentando comigo, viu melhor a questão. O texto, tal como a Folha de São Paulo revelou, na verdade só beneficiaria a Record. Por que isso? Simplesmente porque basicamente a Igreja Universal do bispo Macedo, tio do ministro Marcelo Crivella, não arrenda tempo na TV. Ela, de fato, é proprietária ou coproprietária da emissora. Seria a grande vencedora da transformação do projeto em lei. Estaríamos, eu e Elena certos? Em noventa por cento sim. Mas não totalmente.

Não totalmente porque a FSP, edição de 4 de junho, revelou os mais significativos arrendamentos. O pastor Valdemiro Santiago, em oposição a Edir Macedo, arrenda dez horas semanais na Rede TV, antiga Manchete, emissora na qual está se verificando divergência entre os principais acionistas, Amilcare Dalevo e Marcelo Carvalho, este marido da apresentadora Luciana Jimenez.

O segundo arrendamento de peso é feito pelo pastor R. R. Soares na BAND. Em terceiro, entra apropria Universal na Gazeta de São Paulo, mas com posição nacional pelo sistema de cabo na Net e pela CNT.

Se o arrendamento viesse a se tornar impossível, medida difícil de ser concretizada, sobretudo em função da reação da bancada evangélica que reune 66 deputados do total de 513, a TV Record não seria afetada. A Universal deixaria de arrendar tempo na Gazeta-SP.

A Universal – acrescenta a FSP – já possui 5 mil templos no Brasil. Templos também possui em diversos países. Segunda em audiência no país representa uma forte organização empresarial.

Tem um desempenho impressionante. Porque quando o jornalista Roberto Marinho fundou a Globo, em 1965, já possuia O Globo e a Rádio Globo. Partiu de uma posição consolidada no meio das comunicações. Edir Macedo, pelo que sei, saiu do zero para o sucesso.

Mas por falar em arrendamentos, alguns causaram dor de cabeça às empresas que concordaram em vender espaços permanentes a médio prazo. O exemplo mais forte é o da Globo com Sílvio Santos.

O apresentador, inegavelmente de presença marcante na tela, evoluiu por esse caminho. Quando Bonifácio Sobrinho percebeu o erro de criar um concorrente, levou a Globo a não renovar o contrato. Era tarde, Silvio Santos alcançara uma audiência expressiva e obteve igual arrendamento na antiga TV Tupi. Quando esta desapareceu do ar de 79 para 80, o empresário do Baú da Felicidade obteve do governo João Figueiredo a concessão para fundar o SBT. Não fosse o espaço que comprou da Globo, Sílvio Santos não teria conseguido criar o SBT. Coisas da Vida.

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